Ensino católico em Macau e HK procura adaptar-se a "situação sociopolítica"

Ensino católico em Macau e HK procura adaptar-se a "situação sociopolítica"

Um académico de Hong Kong afirmou hoje à Lusa que, com a transição política deste território e de Macau, "o desafio da educação católica" passa pela adaptação à "nova situação sociopolítica" e perceber como servir melhor o país.

Lusa /

A transição de Hong Kong e Macau para a China, em 1997 e 1999, respetivamente, "significa que as duas regiões administrativas especiais têm de se adaptar à nova configuração política", disse à Lusa Thomas Kwan Choi-Tse, professor e diretor interino do departamento de Política e Administração Educacional da Universidade Chinesa de Hong Kong.

Kwan falava esta manhã à Lusa à margem de uma conferência académica para dirigentes na Educação Católica, realizada na Universidade de São José, em Macau, e que junta até sábado especialistas de várias geografias da região.

"Vejo que um dos desafios [da educação católica] reside em como servir melhor não só Hong Kong e Macau, mas também a Grande China", continuou o investigador, fazendo uso de um termo utilizado pela China e que engloba também Taiwan, ilha autogovernada desde 1949, que Pequim considera parte inalienável de território chinês.

"Apercebo-me de uma maior troca de informações entre, digamos, Hong Kong e a China, para que haja um melhor entendimento mútuo", reforçou.

Neste sentido, a Diocese de Hong Kong tem vindo a "fazer algumas alterações", nomeadamente nos programas escolares, com a ambição de "acrescentar um tempero chinês ao currículo atual", referiu Kwan, autor da investigação "Programa de educação religiosa da Igreja Católica em Hong Kong: Desafios e respostas desde 1997", publicado em 2015.

Embora retenha fortes elementos religiosos no currículo, a Igreja Católica em Hong Kong "ampliou e reorientou" o programa, reformulando conteúdos e métodos pedagógicos, refere-se neste estudo, sublinhando que "o novo programa se caracteriza por ajustes e diferenciação, pela valorização da fé cristã e pela assimilação seletiva da cultura chinesa".

À Lusa, Kwan frisa esta abordagem à cultura chinesa e menciona o padre italiano Matteo Ricci (1552-1610), uma das figuras fundadoras das missões jesuítas na China, que chegou a Macau em 1582: "ele desempenha um papel entre o Oriente e o Ocidente, então pode encontrar-se alguma história sobre a contribuição da teoria católica para a cultura chinesa".

Ainda sobre Hong Kong, o responsável sublinhou o "papel estratégico" da ex-colónia britânica na comunicação entre os dois lados da fronteira.

"Até agora não existe uma relação diplomática formal entre o Vaticano e a China. E o estatuto especial de Hong Kong desempenha um papel subtil na facilitação da comunicação", concretizou.

Em 1951, já com Mao Zedong no poder, a excomunhão dos bispos designados por Pequim pelo papa Pio XII levou a China e o Vaticano a cortarem relações diplomáticas. A China estabeleceu então a Associação Patriótica Católica Chinesa, levando os fiéis a terem de optar entre esta, com bispos nomeados pelo regime, ou a Igreja Católica, leal ao Papa, então na clandestinidade.

Nos últimos anos, deu-se uma aproximação dos dois lados, com a assinatura de um acordo para a nomeação de bispos.

Estima-se que existam cerca de 12 milhões de católicos no país. Em Hong Kong, de acordo com a diocese, vivem perto de 400 mil, enquanto a Diocese de Macau aponta para uma comunidade de 30 mil fiéis na cidade.

O conceito `um país, dois sistemas`, originalmente proposto pelo líder chinês Deng Xiaoping e aplicado pela primeira vez com a transferência de Hong Kong e Macau prevê ao longo de 50 anos um determinado grau de autonomia para as duas regiões, com foco no respeito pelas liberdades e garantias dos cidadãos, nomeadamente liberdade religiosa.

No caso de Macau, a Lei Básica (miniconstituição), estabelece que o Governo "não interfere nos assuntos internos das organizações religiosas".

 

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