Equipa internacional salva mais um homem no Haiti
Uma equipa formada por socorristas franceses, norte-americanos e gregos conseguiu, nas últimas horas, resgatar com vida um homem de 24 anos que permaneceu 11 dias debaixo dos escombros de uma mercearia em Port-au-Prince. Wismond Exantus foi salvo 24 horas depois de o Governo haitiano ter dado por terminada a fase das operações de busca na capital do país.
"Podemos dizer que se trata verdadeiramente de um milagre e podemos esperar que não seja o último", afirmou o tenente-coronel Christophe Renou, no comando da equipa de resgate francesa que participou na operação de quatro horas que devolveu Exantus à luz do dia.
O Gabinete de Coordenação da Ajuda Humanitária das Nações Unidas confirmou ontem o fim da fase das operações de resgate nas cidades do Haiti, por decisão do Governo do país. Na véspera haviam sido resgatados dois haitianos: um grupo de socorristas de Israel salvou Emmannuel Buso, de 21 anos, depois de ter sido chamado por membros da sua família; no mesmo dia, uma mulher de 84 anos foi retirada das ruínas da sua casa.
"A esperança começa agora a desaparecer, embora ainda possamos encontrar milagres", lamentava no sábado a porta-voz do Gabinete de Coordenação da Ajuda Humanitária da ONU, Elisabeth Byrs. "Isto não significa que o Governo vai ordenar-lhes que parem. Caso haja o mais pequeno sinal de vida, eles vão actuar. Mas, à excepção dos milagres, a esperança está a desvanecer-se, infelizmente", acrescentava.
"Pessoas obstinadas"
O embaixador francês em Port-au-Prince resumiu numa frase o estado de espírito das 62 equipas de busca e salvamento que rumaram ao Haiti depois do desastre de 12 de Janeiro: "Os bombeiros sapadores são pessoas obstinadas. Eles aparecem sempre que são chamados".
Também no caso de Wismond Exantus foi a família que deu conta da sua voz entre a massa de entulho e chamou os socorristas gregos. A equipa alertou, em seguida, as Nações Unidas, que destacaram para o local os peritos franceses e norte-americanos.
"Conseguimos falar com ele. Ele respondeu-nos. Conseguimos, depois, abrir um buraco para lhe fazer chegar um pouco de luz. Demos-lhe água para o ajudar a aguentar as últimas horas da operação", contou o tenente-coronel Christophe Renou, para quem "ainda pode haver mais pessoas debaixo de escombros": "A única coisa a fazer, agora, é tentar contactá-las".
Êxodo das cidades do Haiti
Milhares de haitianos procuram agora abandonar Port-au-Prince e as demais cidades atingidas pelo sismo sem um destino concreto ou um desejo de regresso. Para além da fome e do risco de infecções, vêem-se sem dinheiro para sobreviver. À porta dos bancos, centenas de pessoas desesperadas formam filas de grandes dimensões.
"Quem tem familiares fora da cidade está a partir. Ainda hoje estive com um conjunto de pessoas que procurava uma forma de sair da cidade. O problema é que não há ligações para todo o país. Há muitas estradas que estão destruídas e há pessoas que têm família em zonas que neste momento, por causa dos efeitos do terramoto, não são acessíveis", relatava na noite de sábado o enviado especial da RTP ao Haiti, José Rodrigues dos Santos.
As autoridades do Haiti estimam em 111.499 o número de mortos. Contudo, admite-se que a contagem venha a ultrapassar, em breve, os 200 mil. De acordo com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, calcula-se que 200 mil pessoas tenham já deixado a capital do país. Antes do sismo de 12 de Janeiro, Port-au-Prince tinha dois milhões de habitantes.
A ONU faz recair a prioridade, agora, sobre a distribuição de alimentos, tratamento médico e abrigos aos 609 mil desalojados que enchem as ruas de Port-au-Prince.