Eslováquia. Como a morte de um jornalista conduziu à primeira mulher Presidente

Ján Kuciak e Martina Kusnírová foram encontrados mortos em casa, a meia hora de Bratislava, na manhã de 26 de fevereiro de 2018. Mais de um ano depois, o homicídio conduziu a manifestações históricas, à queda de um governo e à eleição da primeira presidente mulher. Quem era Jan Kuciak e de que maneira a sua morte contribuiu para o anúncio de uma nova Eslováquia?

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Quando o casal eslovaco foi encontrado, Ján e Martina estavam mortos há quatro dias. Ele era jornalista de investigação, ela era arqueóloga. Estavam noivos, tinham 27 anos. A suspeita das autoridades foi imediata: Kuciak preparava-se para revelar uma rede de crime organizado a operar no leste da Eslováquia, com ligações à família Montalbano, da máfia italiana. O governo formado pelo maior partido de centro-esquerda do país, o Smer-SD, também estava envolvido.

"Os tentáculos da máfia italiana na política eslovaca". Começava assim o artigo no qual Kuciak, repórter especialista em corrupção, antecipava as ligações entre o primeiro-ministro Robert Fico e empresários acusados de crimes em Itália. A investigação que foi entretanto publicada, a par da notícia da morte do jornalista, aumentou a indignação contra o governo e levou os eslovacos a protestar.

Nas últimas três sextas-feiras de março de 2018, entre 50 e 60 mil pessoas ocuparam Bratislava de cartazes ao alto, naquela que ficou conhecida como a maior manifestação desde o fim do comunismo. Três décadas antes, as mesmas avenidas tinham conduzido à libertação do domínio soviético.

A célebre Revolução Gentil deu início à independência da então Checoslováquia, ocupada pela União Soviética desde 1968. Conhecida como Revolução de Veludo do outro lado da fronteira, na agora República Checa, a manifestação levou o mesmo número de pessoas às ruas que os protestos de março de 2018. Pelo homicídio de Kuciak, a Eslováquia tilintou de novo as chaves que marcaram a libertação pacífica em 1989.

À esquerda: a praça SNP, em Bratislava, durante a Revolução Gentil em 1989. À direita: o mesmo local em 2018 durante as manifestações em memória de Ján Kuciak
Como consequência dos protestos, o primeiro-ministro demitiu-se a 15 de março de 2018. Mas não sem antes protagonizar uma conferência insólita: acompanhado pelo ministro do Interior, Robert Kalinak, e pelo Chefe da Polícia, Tibor Gaspar - também entretanto demitidos -, Robert Fico ofereceu um milhão de euros em troca de informação. As notas, agrupadas em montes e enroladas em plástico, estavam pousadas numa mesa ao lado. Não fossem as bandeiras oficiais, dir-se-ia um cenário inspirado em Tarantino.


Ainda assim, o governo manteve-se nas mãos do Smer. O substituto era o número dois de Fico: Peter Pellegrini. Descendente de italianos, “Pelle” é veterano nos governos socialistas eslovacos. Ocupou, desde 2012, os cargos de porta-voz do Parlamento, Secretário de Estado das Finanças, Ministro da Educação, Ministro do Investimento e Ministro da Cultura.

A Constituição eslovaca obriga à dissolução  e remodelação de todo o governo quando o primeiro-ministro se demite, mas a composição da equipa de Pellegrini é em muito idêntica à anterior. Para além do Ministro do Interior, foram substituídos seis ministros, em quinze pastas. Denominado por Fico como a “nova geração” do socialismo no país, Pellegrini é muito ativo nas redes sociais.


A investigação ao assassínio de Kuciak contou com a colaboração da Europol, FBI, Scotland Yard e diversas organizações italianas. Terminou em tempo recorde: em setembro de 2018, sete meses depois do crime, as autoridades policiais prenderam oito suspeitos. Quatro estão acusados de homicídio.

“A oferta era direta e financeiramente atrativa: matar um homem por 50 mil euros”, pode ler-se no site do Projeto Jornalístico contra o Crime Organizado e a Corrupção, que publicou um relato pormenorizado da preparação do homicídio, após ter acesso ao relatório da polícia eslovaca. A ONG norte-americana junta 45 centros de jornalismo de investigação em 34 países para combater a corrupção. Um dos colaboradores era Ján Kuciak.

Foi Zoltán Andurskó quem aceitou a proposta dos 50 mil euros. Uma mulher passou-lhe o nome do alvo, diversas fotografias e a morada de casa. Mas Andurskó não tinha experiência e contactou um amigo e um primo: Tomáš Szabo, antigo polícia, e Miroslav Marček, com experiência militar.

A investigação policial identifica pelo menos sete visitas prévias à casa de Kuciak e Martina, uma pequena moradia fora da cidade. Após duas semanas de preparação, Szabo assassinou o casal enquanto Marček esperava no carro.

Quando apanhado pela polícia, Zoltán Andurskó confessou o crime. Disse ter sido contactado por Alena Zsuzsová, uma tradutora de italiano. As poucas fotografias que se encontram de "Alena Z" mostram uma mulher de cabelos negros compridos atados em trança. O contacto com Zoltan foi feito a mando de um dos homens mais ricos da Eslováquia. Jan tinha escrito sobre ele.

Desenho em memória de Ján e Martina. "Não é suficiente", lê-se no cartaz
A morte de Kuciak mostrou aos cidadãos eslovacos, e também ao resto da União Europeia, quão intrínsecas são as relações entre o poder político e o crime organizado. Mas apesar dos protestos, o índice da percepção de corrupção mais recente mostra que as práticas se mantêm.

A Eslováquia é considerada um dos países mais corruptos da União Europeia. No índice internacional de perceção de corrupção, publicado pela Transparency International, ocupa o 57.º lugar em 180.

A propósito da investigação, e também para dar a conhecer dois projetos financiados por fundos europeus, a jornalista Raquel Morão Lopes viajou até à Eslováquia em março.



Regressou com testemunhos de alerta. Gabriel Šípoš, Diretor da Transparência Internacional da Eslováquia, alerta que o país “está a piorar na luta contra a corrupção” O resultado publicado é o pior desde 2013. Prova disso é também o número de pessoas acusadas em casos de corrupção. Em 2018, Šípoš adianta um número abaixo do esperado. “Houve apenas 47 casos. Há dez anos, eram mais de cem.”
“Há catorze anos, um italiano chamado Carmine Ciannante chegou à cidade de Michalovce. Uma manhã, partiu no seu Fiat de uma vila em Novosad, a cerca de 40 quilómetros de Michalovce, onde estava a ficar com a sua namorada Lýdia." - O início da história de Kuciák, entretanto publicada.
Ainda assim, a sociedade eslovaca iniciou um processo de reflexão sobre a importância dos media e a sua relação com a classe política. Jornalistas de vários órgãos de comunicação social relataram um aumento da pressão e a diminuição da liberdade de imprensa nos últimos anos. Em 2019, a Eslováquia caiu oito posições no índex publicado no Repórteres sem Fronteiras. Ocupa, agora, o 35º lugar. 

Uma das razões para a queda é a influência que o poder político tem nos principais jornais do país. O SME é o diário mais conhecido. Em 2013, 50% das suas ações foram compradas por um grupo de oligarcas. Da aquisição resultou um grito de liberdade: 50 jornalistas deixaram o emprego para lançar a sua própria publicação. Nasceu o Denník N, líder de mercado na versão digital e símbolo da independência jornalística.

Lukáš Fila é editor no Dennik. Considera que a atenção mediática dada à morte de Kuciak garante agora aos jornalistas a segurança para “investigarem casos de corrupção sem medo”. Ainda assim, a pressão política continua e é prova disso um projeto de lei para a proteção dos jornalistas e das fontes, que esteve perto de ser terminado. À última hora foi susbstituído “por uma iniciativa dos deputados de coligação” a garantir o direito de resposta aos políticos. A nova lei, avisa Fila, “garante o direito de responder a qualquer artigo sobre eles que não lhes agrade”.



O Ato de Imprensa Eslovaco prevê já o direito de resposta, mas contém uma cláusula que exclui oficiais públicos e líderes políticos. A proposta de lei apresentada pelo Smer pretende revogar tal cláusula e penalizar os meios de comunicação que não aceitem publicar direitos de resposta, com multas até 5 mil euros.

Embora o Smer continue na liderança, antecipa-se uma remodelação parlamentar nas eleições legislativas de 2020. A eleição para a Presidência da República em Março de 2019, um ano depois do homicídio, demonstrou como os eleitores eslovacos perderam confiança no governo. Venceu a candidata da bandeira anti-corrupção, a primeira mulher a ser eleita Presidente na Eslováquia. Zuzana Čaputová, liberal, com o cognome de "Eric Brokovich da Eslováquia" - por se ter oposto à existência de um aterro ilegal - conquistou 58% dos votos na segunda volta.

“Políticos que se provem incapazes de erradicar a corrupção devem ser despedidos” vaticinou Čaputová no discurso de inauguração, selado como uma "luta por justiça".

Zuzana Čaputová no dia da inauguração enquanto Presidente da Eslováquia em junho de 2019

Apesar de não interferir diretamente nos assuntos correntes do governo, tem o poder de veto na nomeação de procuradores-gerais e juízes. Ainda que o Smer não tenha conseguido a Presidência, conquistou 41% dos votos na segunda volta. A derrota não é histórica. Nas eleições europeias de maio repetiram-se os resultados: o Smer ficou de novo em segundo lugar (apesar de ter perdido 10% dos votos face a 2014) e a coligação de Čaputová, entre a Eslováquia Progressista e o Unidos!, venceu por 5%.

Também não foi só a candidata fora do sistema que capitalizou com o descontentamento da população. A extrema-direita eslovaca ficou em terceiro lugar nas europeias, apenas 3 pontos percentuais atrás do Smer. Os resultados das legislativas, que deverão acontecer até março do próximo ano, dependem da eficácia de Čaputová em combater a corrupção e do modo como o atual governo socialista se demarca do anterior.

Ainda assim, Gabriel Šípoš, o ativista eslovaco, confia que os cidadãos vão tomar as decisões certas. “Este incidente, apesar de tão trágico, mostrou que ir para as ruas e marcar a presença é algo muito importante, pois tem um efeito junto da política e dos procuradores. Penso que isso é um sinal fantástico de que tudo depende de nós."

A morte de um jornalista relançou o debate sobre corrupção e liberdade de imprensa, fez cair um governo, encheu ruas com protestos e reavivou a memória das lutas pela liberdade travadas há três décadas. Kuciak não chegou a escrever a conclusão da sua história mas a Eslováquia encarrega-se de a ir acabando. 

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