Quando o casal eslovaco foi encontrado, Ján e Martina estavam mortos há quatro dias. Ele era jornalista de investigação, ela era arqueóloga. Estavam noivos, tinham 27 anos. A suspeita das autoridades foi imediata: Kuciak preparava-se para revelar uma rede de crime organizado a operar no leste da Eslováquia, com ligações à família Montalbano, da máfia italiana. O governo formado pelo maior partido de centro-esquerda do país, o Smer-SD, também estava envolvido.
Nas últimas três sextas-feiras de março de 2018, entre 50 e 60 mil pessoas ocuparam Bratislava de cartazes ao alto, naquela que ficou conhecida como a maior manifestação desde o fim do comunismo. Três décadas antes, as mesmas avenidas tinham conduzido à libertação do domínio soviético.
A célebre Revolução Gentil deu início à independência da então Checoslováquia, ocupada pela União Soviética desde 1968. Conhecida como Revolução de Veludo do outro lado da fronteira, na agora República Checa, a manifestação levou o mesmo número de pessoas às ruas que os protestos de março de 2018. Pelo homicídio de Kuciak, a Eslováquia tilintou de novo as chaves que marcaram a libertação pacífica em 1989.
Como consequência dos protestos, o primeiro-ministro demitiu-se a 15 de março de 2018. Mas não sem antes protagonizar uma conferência insólita: acompanhado pelo ministro do Interior, Robert Kalinak, e pelo Chefe da Polícia, Tibor Gaspar - também entretanto demitidos -, Robert Fico ofereceu um milhão de euros em troca de informação. As notas, agrupadas em montes e enroladas em plástico, estavam pousadas numa mesa ao lado. Não fossem as bandeiras oficiais, dir-se-ia um cenário inspirado em Tarantino.
Lui è Robert Fico, zio del presidente della Camera Roberto Fico, emigrato tanti anni fa a Bratislava.
— Marco Bresolin (@marcobreso) 24 de março de 2018
Si è fatto assumere premier dal governo slovacco. Poi si è dimesso, ma ha guadagnato comunque un pacco di soldi (foto).
Kondividi se sei indinniato!1!! pic.twitter.com/BYMpaHKhpF
“A oferta era direta e financeiramente atrativa: matar um homem por 50 mil euros”, pode ler-se no site do Projeto Jornalístico contra o Crime Organizado e a Corrupção, que publicou um relato pormenorizado da preparação do homicídio, após ter acesso ao relatório da polícia eslovaca. A ONG norte-americana junta 45 centros de jornalismo de investigação em 34 países para combater a corrupção. Um dos colaboradores era Ján Kuciak.
Foi Zoltán Andurskó quem aceitou a proposta dos 50 mil euros. Uma mulher passou-lhe o nome do alvo, diversas fotografias e a morada de casa. Mas Andurskó não tinha experiência e contactou um amigo e um primo: Tomáš Szabo, antigo polícia, e Miroslav Marček, com experiência militar.
A investigação policial identifica pelo menos sete visitas prévias à casa de Kuciak e Martina, uma pequena moradia fora da cidade. Após duas semanas de preparação, Szabo assassinou o casal enquanto Marček esperava no carro.
Quando apanhado pela polícia, Zoltán Andurskó confessou o crime. Disse ter sido contactado por Alena Zsuzsová, uma tradutora de italiano. As poucas fotografias que se encontram de "Alena Z" mostram uma mulher de cabelos negros compridos atados em trança. O contacto com Zoltan foi feito a mando de um dos homens mais ricos da Eslováquia. Jan tinha escrito sobre ele.
A morte de Kuciak mostrou aos cidadãos eslovacos, e também ao resto da União Europeia, quão intrínsecas são as relações entre o poder político e o crime organizado. Mas apesar dos protestos, o índice da percepção de corrupção mais recente mostra que as práticas se mantêm.
A Eslováquia é considerada um dos países mais corruptos da União Europeia. No índice internacional de perceção de corrupção, publicado pela Transparency International, ocupa o 57.º lugar em 180.
A propósito da investigação, e também para dar a conhecer dois projetos financiados por fundos europeus, a jornalista Raquel Morão Lopes viajou até à Eslováquia em março.
Regressou com testemunhos de alerta. Gabriel Šípoš, Diretor da Transparência Internacional da Eslováquia, alerta que o país “está a piorar na luta contra a corrupção” O resultado publicado é o pior desde 2013. Prova disso é também o número de pessoas acusadas em casos de corrupção. Em 2018, Šípoš adianta um número abaixo do esperado. “Houve apenas 47 casos. Há dez anos, eram mais de cem.”
“Há catorze anos, um italiano chamado Carmine Ciannante chegou à cidade de Michalovce. Uma manhã, partiu no seu Fiat de uma vila em Novosad, a cerca de 40 quilómetros de Michalovce, onde estava a ficar com a sua namorada Lýdia." - O início da história de Kuciák, entretanto publicada.
Ainda assim, a sociedade eslovaca iniciou um processo de reflexão sobre a importância dos media e a sua relação com a classe política. Jornalistas de vários órgãos de comunicação social relataram um aumento da pressão e a diminuição da liberdade de imprensa nos últimos anos. Em 2019, a Eslováquia caiu oito posições no índex publicado no Repórteres sem Fronteiras. Ocupa, agora, o 35º lugar.
Uma das razões para a queda é a influência que o poder político tem nos principais jornais do país. O SME é o diário mais conhecido. Em 2013, 50% das suas ações foram compradas por um grupo de oligarcas. Da aquisição resultou um grito de liberdade: 50 jornalistas deixaram o emprego para lançar a sua própria publicação. Nasceu o Denník N, líder de mercado na versão digital e símbolo da independência jornalística.
Lukáš Fila é editor no Dennik. Considera que a atenção mediática dada à morte de Kuciak garante agora aos jornalistas a segurança para “investigarem casos de corrupção sem medo”. Ainda assim, a pressão política continua e é prova disso um projeto de lei para a proteção dos jornalistas e das fontes, que esteve perto de ser terminado. À última hora foi susbstituído “por uma iniciativa dos deputados de coligação” a garantir o direito de resposta aos políticos. A nova lei, avisa Fila, “garante o direito de responder a qualquer artigo sobre eles que não lhes agrade”.
Newsfilter: Smer zažil najhorší deň svojej histórie a niet ho prečo ľutovať https://t.co/skqUVY4HKq pic.twitter.com/l6O4HMc3j5
— Denník N (@dennikN) 1 de março de 2018
Embora o Smer continue na liderança, antecipa-se uma remodelação parlamentar nas eleições legislativas de 2020. A eleição para a Presidência da República em Março de 2019, um ano depois do homicídio, demonstrou como os eleitores eslovacos perderam confiança no governo. Venceu a candidata da bandeira anti-corrupção, a primeira mulher a ser eleita Presidente na Eslováquia. Zuzana Čaputová, liberal, com o cognome de "Eric Brokovich da Eslováquia" - por se ter oposto à existência de um aterro ilegal - conquistou 58% dos votos na segunda volta.