Especialistas moçambicanos pedem análise ao contexto social de superstição com 58 mortos
Especialistas moçambicanos defenderam hoje uma análise do contexto social que alimenta as superstições no país sobre alegados desaparecimentos de órgãos genitais, já associados a 58 mortes, procurando identificar a "quem convêm" mitos que nascem da "histeria social".
"São doenças que nascem da histeria social, ou seja, tudo que eu desconheço, levo a questão do sobrenatural para a coisa. Numa perspetiva antropológica é preciso entender em que contexto surge, quais são os atores envolvidos e a quem convém que isso continue dessa forma", disse hoje à Lusa o antropólogo moçambicano Alberto Chimoio.
As superstições sobre o alegado atrofiamento, encolhimento e até desaparecimento de órgãos genitais, a partir de um toque de alguém, tiveram início em 18 de abril, na província de Cabo Delgado, tendo-se posteriormente espalhado para outras regiões do país e para as redes sociais.
Segundo o académico, há agora a necessidade de estudar os grupos sociais envolvidos nessa superstição e perceber o contexto.
"É preciso, primeiro, entender quais são os fatores que estão por detrás disso e quais são os atores que estão por detrás disso, para compreender por que surgiu a necessidade de se diabolizar a coisa e acusar as outras pessoas", explicou.
Para Alberto Chimoio, com a crença de feitiçaria associada ao encolhimento de órgãos genitais, as populações também criam uma espécie de "doença cultural", em que "todas as pessoas começam a olhar para o sobrenatural, para explicar uma coisa que é natural", o que chama a medicina tradicional para o tratamento: "Então é preciso ver a predominância dos médicos tradicionais naquelas zonas".
Por sua vez, o sociólogo moçambicano Roque Tembo salientou a importância de compreender o fenómeno numa perspetiva histórica, sublinhando que, antes das atuais crenças sobre o alegado desaparecimento de órgãos genitais, já se tinham registado outras manifestações semelhantes.
"A história não mente, primeiro tivemos as manifestações relativamente ao albinismo, depois tivemos outras manifestações relativas à calvície, depois tivemos outra relativa a produtos para purificação da água, associada à cólera, e num passado recente tivemos uma manifestação referente às capulanas [tecido tradicional] do dia 07 de abril", lembrou.
Para Roque Tembo, a solução também passa necessariamente por voltar à raiz do problema: "É preciso entender primeiro os valores culturais, a própria sociedade, a cultura no seu todo da população e acompanhar a dinâmica social".
Segundo o sociólogo, a região norte do país encontra uma "terra fértil" para o desenvolvimento dessas superstições pela sua cultura, que, reiterou, ainda está "presa a hábitos costumeiros", resultando em anomia, ou desintegração das normas e valores sociais, dando lugar a novas regras.
"A anomia, numa perspetiva durkheimiana [teoria desenvolvida pelo sociólogo francês Émile Durkheim], quer dizer que a população destas regiões que se manifestam têm nostalgia, ou seja, sentem a ausência daqueles valores das sociedades tradicionais. Então, na minha perspetiva, ainda é muito preliminar trazer conclusões precipitadas e fechadas. Passa a ser necessário o envolvimento de toda a sociedade e até a própria academia para poder explicar este fenómeno", concluiu.
Na quarta-feira, as autoridades anunciaram que o número de mortos em linchamentos motivados por superstições de alegado desaparecimento de órgãos genitais subiu para 58 em Moçambique, após novos casos registados na região centro, sobretudo na província de Manica.
Especialistas de saúde reiteram que os rumores não têm base científica, sublinhando que não existe qualquer desaparecimento de órgãos genitais, sendo os casos associados a stress, medo e perceções erradas.
A Comissão Nacional de Direitos Humanos já tinha denunciado anteriormente a escalada de violência associada a estas crenças, alertando para a necessidade de intervenção urgente para travar os linchamentos e proteger vidas.