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Esperança: o ingrediente essencial da existência humana
Jane Goodall e outras pessoas que enfrentaram adversidades revelaram como a esperança as tornou mais fortes.
Em tempos difíceis, agarrar-se à esperança pode parecer uma loucura, mas já nos perguntámos o que seríamos sem esperança? Este estado de alma tem um impacto que inspira resiliência e mudança na vida das pessoas.
Hoje, a ciência confirma-o, e os vários protagonistas de um documentário "A Ciência da Esperança", disponível na RVTE Play— partilham histórias de transformação e superação de adversidades — estão de acordo que a esperança tem sido a força motriz por trás de tudo isto.Jane Goodall, a esperança em ação
Em 1960, Jane Goodall viajou sozinha para a Tanzânia. Foi a primeira cientista a fazê-lo. Estudou o comportamento dos chimpanzés e descobriu que as emoções são um pilar fundamental da evolução, tanto nos primatas como nos seres humanos.
Quando, em 1986, tomou conhecimento da desflorestação generalizada e perigosa das florestas africanas e do declínio das populações de chimpanzés e de outros animais devido à perda de habitat, tornou-se ativista. "Algo aconteceu dentro de mim", disse a conservacionista, que morreu em outubro passado.
"Acredito que a esperança não é apenas um sonho irreal; significa que temos de agir", afirmou numa das suas últimas palestras. "Temos de arregaçar as mangas, escalar, e superar todos os obstáculos… e há muitos!", disse, descrevendo o caminho difícil e desafiante que ela própria percorreu ao longo da sua vida profissional.
"Cada um de nós pode fazer a diferença no nosso dia-a-dia e podemos escolher o tipo de impacto que queremos ter", insistiu Goodall. Para ela, o poder da esperança reside na ação.Esperança, ou acreditar na mudança A neurociência demonstra que a análise dos cérebros das pessoas revela que existem mais semelhanças do que diferenças entre elas. "Temos tendência para ser otimistas em relação ao nosso próprio futuro, mas podemos ser bastante pessimistas em relação ao mundo em geral", confirma a neurocientista Tali Sharot.
E era por isso que Wojtek Czyz, um jovem e promissor futebolista alemão, estava a passar até que, em 2001, um trágico acidente durante um jogo pôs fim à sua carreira. "Quando acordei e percebi que me faltava uma perna, pensei que a vida já não tinha qualquer sentido", recordou Wojtek, anos mais tarde. No entanto, longe de sucumbir ao pessimismo e à comiseração, optou por dar uma oportunidade à esperança. Seis meses depois de perder a perna, com uma prótese de titânio, tornou-se atleta.
"Para mim, esperança significa acreditar na mudança" Wojtek conseguiu concentrar-se no crescimento pessoal que a sua experiência traumática lhe proporcionou. "Para mim, esperança é sinónimo de acreditar na mudança, da decisão de mudar algo e de lutar por isso", afirma. E, em 2004, nos Jogos Paralímpicos de Atenas, conquistou três medalhas de ouro – no salto em comprimento e nas provas de velocidade de 100 e 200 metros.
Hoje, inspira e dá esperança às crianças de rua na Papua-Nova Guiné, ensinando-as e jogando futebol com elas. "É por isso que é tão urgente dar esperança às pessoas, envolvê-las e encorajá-las a desempenhar o seu papel na promoção da mudança, dia após dia", salienta Jane Goodall.Esperança faz a diferença O Nepal é um dos países mais vulneráveis a sismos, devido à colisão das placas tectónicas indiana e euro-asiática, que deu origem à cordilheira dos Himalaias.
No meio da devastação que ainda se faz sentir, o oftalmologista nepalês Suman Thapa, juntamente com os seus colegas, criou um pequeno hospital onde prestam cuidados médicos e fazem cirurgias gratuitas à população do Vale de Kalikot afetada pelos terramotos. "Devemos tentar ter um impacto positivo na vida dos outros porque, no fundo, também nós nos beneficiaremos com isso", afirma o oftalmologista com convicção.
"A razão para ter esperança é que, no fundo, há muitas qualidades positivas dentro de nós", afirma o professor budista Yongey Mingyub, considerado pela ciência como o homem mais feliz do mundo, de acordo com o que sugere a imagem do seu cérebro.
Os especialistas revelam que a esperança é simultaneamente um sentimento e uma emoção. Quando sentimos esperança, experimentamos otimismo e confiança na concretização dos nossos objetivos e na perseverança para os alcançar.
Por outro lado, o aspeto emocional da esperança tem o potencial de enriquecer o sentido da vida, mesmo em momentos de adversidade e trauma. "Mesmo quando o céu está nublado, há esperança de que as nuvens se dissipem", afirma o monge Yongey Mingyub.
Numa perspetiva neurocientífica, Maren Urner explica por que razão a esperança é a pedra angular da existência humana. "É essencial porque anda de mãos dadas com a convicção de que podemos sobreviver e de que as coisas podem melhorar".
Milagros de Diego Cerezo / 27 maio 2026 06:14 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa