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Estado Islâmico apela à conquista de Istambul

Estado Islâmico apela à conquista de Istambul

Num vídeo publicado segunda-feira ao fim da tarde um militante do Estado Islâmico, falando turco sem sotaque, apela aos seus seguidores islamitas a tomarem a cidade turca de Istambul, acusando ainda o presidente Recep Tayyip Erdogan de ter "vendido o país aos cruzados".

Graça Andrade Ramos - RTP /
Istambul com a Mesquita de Sultanameth e a Basília de santa Sofia num dia de nevoeiro Wikkicommons

O vídeo, de sete minutos, inclui imagens de arquivo de Erdogan numa conferência de imprensa com o presidente dos EUA, Barack Obama, e a cumprimentar o rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud.

O militante islamita acusa o presidente turco de ser um aliado de "americanos, judeus, cruzados e agentes infiéis da família Saud" que governa a Arábia Saudita.

"Povo turco: sem perder tempo tens de revoltar-te contra estes ateus, cruzados e infiéis que te transformaram em escravo", afirma o militante, encostado a uma arma e rodeado de outros dois homens armados, silenciosos, de barbas e com a cabeça coberta de turbante.
Mudança de estratégia turca
O grupo Estado Islâmico descreve o presidente turco como um "infiel" que abriu as suas fronteiras aos aviões dos "cruzados" ocidentais e tem deixado os "infiéis" curdos do PKK ganharem terreno. Na mensagem divulgada segunda-feira, o militante avisa mesmo que, se não forem combatidos, os curdos do PKK irão assumir o controlo do leste da Turquia.

No último ano, a Turquia, apesar de ser membro da NATO e de aspirar a pertencer à União Europeia, evitou assumir uma posição crítica ao grupo Estado Islâmico, apesar dos relatos de brutalidade e de violência crescentes contra populações civis, incluindo raptos, violações e escravatura.



Istambul permitiu apenas que combatentes curdos do Curdistão iraquiano atravessassem o seu território para irem reforçar a defesa da cidade síria de Kobani, assumida pela população curda do norte da Síria contra o avanço do Estado Islâmico.
Tal como tudo na estratégia do Estado Islâmico, o vídeo segue uma linha pré-estabelecida. Há dois meses, o grupo islamita lançou uma revista em língua turca cuja história de capa era, precisamente, "A Conquista de Constantinopla", numa tentativa de apelo à tomada de Istambul (antiga Constantinopla) pelo Islão.
Há cerca de um mês, a atitude das autoridades turcas mudou, após um atentado suicida em Suruc, junto à fronteira com a Síria, que matou 34 pessoas no dia 20 de julho. O atentado foi atribuído ao Estado Islâmico e levou a uma campanha de bombardeamentos aéreos contra alvos dos islamitas e a operações antiterroristas em solo turco.

Ao mesmo tempo que iniciou a sua própria "guerra ao terror" - que visa tanto alvos alegadamente islamitas do Estado Islâmico como, até sobretudo, posições curdas do PKK - a Turquia abriu as suas bases aos aviões da coligação internacional que combate o Estado Islâmico e é liderada pelos Estados Unidos.

Uma das vítimas mortais do atentado de Suruc a 20 de julho de 2015, coberta por uma bandeira da Federação das Associações de Juventude Socialistas Foto: Reuters

Um Boeing C-17A da Força Aérea dos EUA sobrevoa um minarete após levantar voo da base de Adana, na Turquia, a 12 de agosto de 2015 Foto: Reuters
Guerra ao terror
Na semana passada aviões dos EUA foram os primeiros a levantar voo das bases turcas em ações da coligação. A própria Turquia realizou diversos bombardeamentos no norte da Síria.

Washington e Ancara têm estado ainda a concertar estratégias para expulsar os militantes islamitas do norte e do leste da Síria, onde têm bastiões há mais de ano e meio, ao mesmo tempo que auxiliam os rebeldes sírios que lutam contra o Governo do presidente Bashar al-Assad.

Internamente, a Turquia procura desestabilizar grupos turcos responsáveis pelas rotas de abastecimento ao Estado Islâmico. Num mês desmantelou várias células alegadamente terroristas e deteve centenas de pessoas. Bloqueou ainda diversos sítios de propaganda islamita.

A nova estratégia turca serve a retórica islamita extremista que, mesmo sem fazer ameaças diretas, apela agora os seus apoiantes na Turquia a agir.

"Todos juntos e sob as ordens de Abu Bakr al Bagdadi, iremos conquistar Istambul, que o traidor Erdogan procura entregar aos cruzados, trabalhando para isso dia e noite", diz o militante do vídeo e referindo-se a Bagdadi, o líder do Estado Islâmico e autodenominado califa, que terá sido gravemente ferido em abril num ataque da coligação (a sua morte chegou aliás a ser noticiada, embora sem confirmação oficial).
Turquia na encruzilhada
Tal como tudo na estratégia do Estado Islâmico, o vídeo segue uma linha pré-estabelecida. Há dois meses, o grupo islamita lançou uma revista em língua turca cuja história de capa era, precisamente, "A Conquista de Constantinopla", numa tentativa de apelo à tomada de Istambul (antiga Constantinopla) pelo Islão.

O vídeo foi amplamente citado nas redes sociais e difundido por media turcos de grande audiência, apesar de não se poder provar a sua autenticidade. Intitulado "Uma mensagem à Turquia", terá sido produzido pelo "gabinete de comunicação do estado de Raqqa", uma referência à capital de facto do território sírio controlado pelo grupo islamita.

Presidente da Turquia recep Tayyp Erdogan Foto: Reuters

Surge ainda numa altura em que Erdogan procura consolidar-se no poder no meio de uma crise política interna grave. A interpretação radical do Islão apregoada pelo Estado Islâmico atrai muito turcos e pode transformar-se numa ameaça séria para Erdogan.

Oficialmente o Governo turco reconhece a existência de 700 militantes turcos nas fileiras do Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Mas analistas ocidentais acreditam que a estimativa peca por defeito e que na realidade os soldados turcos do grupo islamita rondam os vários milhares.
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