EUA anunciam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas
O Departamento de Estado dos Estados Unidos anuncioumquinta-feira a designação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, a contragosto do Governo brasileiro.
A classificação das duas maiores fações criminosas do Brasil como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês) passa a vigorar a partir de 5 de junho, segundo comunicado do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.
Na mensagem, Rubio afirmou que o CV e o PCC estão entre "as organizações criminosas mais violentas do Brasil" e acusou os grupos de comandarem milhares de membros e de promoverem ataques contra policiais, funcionários públicos e civis.
Segundo Washington, a atuação das facções "se estende muito além das fronteiras do Brasil", alcançando outros países da região e também os Estados Unidos.
"O governo Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo as drogas ilícitas longe de nossas ruas e interrompendo o fluxo de receita que financia narcoterroristas violentos", declarou o Departamento de Estado.
A administração norte-americana acrescentou que a medida reforça o compromisso de "desmantelar cartéis e organizações criminosas" e garantir "a segurança do povo americano".
As designações foram adotadas com base na seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade dos EUA e na Ordem Executiva 13224, utilizada para sanções relacionadas ao terrorismo.
A classificação como Organização Terrorista Estrangeira entra em vigor após publicação no Federal Register, o diário oficial do governo norte-americano.
O anúncio de Marco Rubio acontece um dia após o senador e pré-candidato à Presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, se reunir com o secretário na quarta-feira e com Donald Trump na Casa Branca, na terça-feira.
Durante a visita, Flávio Bolsonaro disse ter conversado com os dois políticos sobre o assunto e que defendia a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas.
Presidente brasileiro Lula da Silva, e a diplomacia brasileira, são contrários a está classificação, por entender que a medida pode implicar em operações militares e intervenções no território brasileiro, o que afeta a soberania nacional.
O bolsonarista celebrou a decisão dos EUA nas redes sociais, ao escrever "grande dia" no comentário de uma publicação de Marco Rubio.
O anúncio de Rubio é interpretado pela imprensa brasileira como uma vitória de Flávio Bolsonaro, após semanas de desgastes na pré-campanha pelo escândalo envolvendo o financiamento do filme "Dark Horse", uma cinebiografia do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.
A Lusa procurou o Palácio do Planalto e o Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil para comentar a decisão dos Estados Unidos, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.
Ao visitar Donald Trump em Washington, há três semanas, Lula da Silva e o ministro da Fazenda (Finanças), Dario Durigan, defenderam cooperação internacional para enfrentar o crime organizado.
Embora PCC e CV especificamente não tenha entrado na pauta entre os dois líderes, Lula declarou, durante conferência de imprensa após o encontro, que os países da América Latina não podem ser vistos como locais de narcotraticantes.
Na sequência, lembrou que há muito contrabando de armas e fuzis dos Estados Unidos para o Brasil, para mostrar uma contradição dos norte-americanos.
Dario Durigan, por sua vez, lembrou que as drogas sintéticas apreendidas pelas autoridades aduaneiras e policiais no Brasil tem origem nos Estados Unidos.
O presidente brasileiro chegou a pedir que as autoridades norte-americanas extraditem o quanto antes líderes de fações criminosas foragidos nos EUA.
Especialistas em segurança pública ouvidos anteriormente pela Lusa avaliam, de maneira geral, que PCC e CV, não tem viés ideológico, a exemplo dos grupos do Médio Oriente, mas apenas viés comercial para o tráfico ilícito de drogas.