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Europa perante o tornado da IA generativa: o risco de que nada seja suficientemente verdadeiro
Conteúdos produzidos por inteligência artificial generativa conquistam milhões e alimentam a desinformação. Os casos multiplicam-se.
Uma fotografia de crianças em fila, apresentada como prova de um ataque dos EUA no Irão. Teorias que ligam a guerra no Médio Oriente à revolução ucraniana de 2014. Ou uma falsa ativista loira, uma combinação perfeita de Marine Le Pen e Marion Maréchal, que se tornou uma influenciadora de extrema-direita no TikTok sem nunca ter existido.
Estes conteúdos têm um motor comum: a inteligência artificial generativa, capaz de produzir imagens, textos, sons ou vídeos que não se distinguem do real.
Quando a máquina reescreve as notíciasDesde 2022, essas IAs generativas, do ChatGPT ao Midjourney, democratizaram uma capacidade que antes estava reservada aos estúdios profissionais. Conquistaram milhões de utilizadores. Mas, por detrás da criatividade que prometem, também estão a derramar uma torrente de desinformação.
De acordo com o Observatório Europeu dos Meios de Comunicação Digitais, 16% das verificações de factos publicadas na Europa em dezembro de 2025 envolviam conteúdos criados por IA. Um recorde absoluto.
Os casos estão a multiplicar-se. A jornalista Linda Givetash investigou estes abusos em nome da rede de estações de rádio Euranet +. Explica que ficou particularmente impressionada com uma manipulação búlgara. "Quando o país se preparava para aderir à zona euro, circularam nas redes sociais imagens muito boas de notas de 15 e 35 euros. Isto levou as pessoas a pensar que a nova moeda ia ser muito valiosa." Outros exemplos semelhantes podem ser encontrados em Portugal, com a instrumentalização de jornalistas em vídeos contra as vacinas, na Eslovénia, onde deepfakes pornográficos visavam a ativista eslovena Nika Kovac, ou na Alemanha, onde um vídeo manipulado foi transmitido por engano na televisão alemã....
E estas manipulações já não se limitam à política. Na Índia, um vídeo falso do diretor-geral da Bolsa de Valores de Bombaim foi utilizado para enganar os investidores.
Certas aplicações, como o Grok, provocaram um escândalo ao despir virtualmente mulheres, e até crianças, com base em simples fotografias.
União Europeia tenta controlar o surtoPerante esta desestabilização do espaço público, a União Europeia está a puxar da artilharia legislativa. A primeira lei do mundo dedicada à inteligência artificial, introduz regras proporcionais ao nível de risco. Certas práticas são proibidas: manipulação cognitiva, reconhecimento facial em tempo real ou recolha massiva de dados sem consentimento.
O Conselho e o Parlamento querem ir ainda mais longe, legislando contra os deepfakes pornográficos não consentidos, um fenómeno que afeta particularmente as mulheres e as figuras públicas. Está a ser discutida uma proposta entre os legisladores da UE para criminalizar a divulgação destas imagens falsas de nudez, tanto geradas por IA como "retocadas".
Simultaneamente, a Comissão abriu uma investigação contra a plataforma X ao abrigo da legislação europeia sobre serviços digitais. "Na Europa, nenhuma empresa ganhará dinheiro violando os nossos direitos fundamentais", afirmou um porta-voz da Comissão aquando do anúncio da investigação.Uma lei pioneira mas imperfeita
Apesar das ambições, a lei da IA está a ser debatida. ONGs como a Access Now estão a denunciar demasiadas exceções concedidas à aplicação da lei e uma excessiva autorregulação por parte dos gigantes tecnológicos.
Alguns analistas também apontam a contradição de uma Europa que investe na IA militar ou na vigilância biométrica, ao mesmo tempo que afirma proteger as liberdades dos cidadãos.
Em contrapartida, outros atores económicos denunciam o excesso de regulamentação que poderia travar a inovação face aos Estados Unidos ou à China.
Para promover a responsabilidade das empresas, mais de 230 empresas europeias assinaram o Pacto IA, um compromisso voluntário para adotar uma governação ética da inteligência artificial e formar os funcionários para detetar preconceitos ou conteúdos falsificados.O outro escudo: a vigilância
A política pública, por si só, não será suficiente. A vigilância deve tornar-se um reflexo coletivo. Cada um pode agir ao seu próprio nível: verificar antes de partilhar, duvidar de imagens demasiado "perfeitas", utilizar a busca inversa ou ferramentas de deteção como lnVID ou Hiya. O pensamento crítico continua a ser a nossa melhor barreira contra as miragens da IA. Uma revolução de dois gumes
A inteligência artificial generativa não é o inimigo: simplesmente amplifica os nossos pontos fortes, bem como as nossas fraquezas. Pode criar, reparar, explicar ou mentir de forma brilhante.
Também oferece aos atores maliciosos um poder multiplicado para causar danos, praticamente sem custos.
O verdadeiro risco não é que tudo se torne falso. É o facto de nada ser suficientemente verdadeiro para obter consenso. E numa democracia, esse limiar é crítico.
Olivier Hanrion / 15 abril 2026 05:15 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP