Ex-comandante das FARC preocupado com violência após posse do futuro presidente da Colômbia
Um ex-comandante das ex-FARC colombianas manifestou-se preocupado com "mensagens de ódio" estimuladas pelo presidente eleito da Colômbia, que ameaça prendê-lo e revogar o acordo de paz de 2016 entre a guerrilha e o Estado.
Rodrigo Londoño, também conhecido por Timochenko, explicou em declarações à AFP que antigos líderes da guerrilha, hoje dissolvida, escreveram ao presidente eleito Abelardo de la Espriella a reconhecer a vitória eleitoral e a solicitar um diálogo, com o objetivo de "honrar" o acordo de paz de que são signatários.
Os signatários do acordo, segundo o ex-comandante, são constantemente alvo de "estigmatização" e de "mensagens de ódio".
"Há pessoas que, com uma voz influente, difundem estas mensagens e isso é extremamente perigoso (...). É muito importante que diminuamos o volume destas mensagens de ódio", apelou.
De la Espriella, um advogado sem experiência na política, representa a direita radical e defende uma linha dura contra os grupos armados.
Qualificando Timochenko como um "criminoso de guerra" que "merece prisão perpétua", De la Espriella manifestou a intenção de bombardear os grupos envolvidos no tráfico de droga e pôr fim às negociações infrutíferas iniciadas pelo ainda Presidente de esquerda, Gustavo Petro, com as facções dissidentes das ex-FARC ainda ativas.
O presidente eleito pretende abolir o tribunal especial que julga os crimes cometidos durante o conflito entre os rebeldes e o Estado, o qual aplica penas alternativas à prisão aos antigos guerrilheiros e militares cujos testemunhos ajudam a esclarecer os acontecimentos.
Rodrigo Londoño foi condenado, em 2025, a oito anos de trabalhos de interesse geral pelos mais de 21.000 sequestros perpetrados pelas FARC.
De la Espriella considera que a justiça se mostrou mais clemente para com os ex-rebeldes do que para com os militares acusados de execuções extrajudiciais.
Cerca de 13.000 guerrilheiros depuseram as armas na altura do acordo assinado em 24 de novembro de 2016, numa tentativa de se reintegrarem na sociedade. Entre os signatários, 492 foram mortos, segundo a Missão de Verificação da ONU.
Na terça-feira, Timochenko e outros seis líderes históricos das ex-FARC, entre os quais Pastor Alape, Pablo Catatumbo e Julian Gallo, reafirmaram numa carta dirigida a Abelardo de la Espriella o "compromisso inabalável de respeitarem" a paz.
"Esperamos que o Estado colombiano honre o acordo celebrado com a mesma sinceridade", escreveram ainda.
"Penso que o diálogo é essencial para instaurar a paz. É assim que nós, seres humanos, nos podemos compreender uns aos outros", sublinhou Timochenko à agência France Presse.
"A sociedade colombiana já amadureceu bastante e podemos compreender-nos e fazer avançar a Colômbia, como todos desejamos, e construir juntos apesar das nossas diferenças", acrescentou.
Segundo os especialistas, os grupos armados ilegais ganharam força nos últimos quatro anos na Colômbia.
Abelardo de la Espriella assumirá funções no próximo dia 07 de agosto.