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Exército ainda luta por chegar às vítimas das enxurradas

Exército ainda luta por chegar às vítimas das enxurradas

O contingente militar destacado para operações de resgate e trabalhos de limpeza na região serrana do Rio de Janeiro está este domingo a redobrar esforços para chegar a populações que se queixam de falta de ajuda. Numa altura em que a chuva continua a dificultar a ação das equipas de socorro, as casas abandonadas na periferia de Nova Friburgo, uma das cidades mais atingidas pelas enxurradas, são varridas por uma onda de pilhagens.

RTP /
Muitos dos sobreviventes queixam-se da falta de ajuda, que tarda a chegar a algumas áreas da região serrana do Rio de Janeiro Roberto Ferreira, EPA

O Estado do Rio de Janeiro dá início na segunda-feira a sete dias de luto oficial pelas vítimas do desastre natural que devastou os municípios de Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto. Em todo o Brasil o luto será de três dias. À medida que os trabalhos de busca e limpeza prosseguem, cresce o número de mortos. Em permanente revisão, o balanço da Secretaria de Estado de Saúde e Defesa Civil dá agora conta de 611 mortes. Todavia, as autoridades admitem que este número venha a duplicar nas próximas horas, quando o Instituto de Medicina Legal de Teresópolis já esgotou a sua capacidade.

Há também 14 mil pessoas desalojadas. E muitos dos sobreviventes queixam-se da falta de ajuda, que tarda a chegar a algumas áreas da região serrana do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, os níveis de precipitação continuam a preocupar tanto as populações como as autoridades. O governador do Estado, Sérgio Cabral, testemunhou ontem em primeira mão os efeitos de destruição da chuva: o helicóptero que o transportava teve de abortar a aterragem em Nova Friburgo.

Quatro das principais artérias de acesso à cidade (RJ-130, RJ-142, RJ-150 e RJ-116) puderam ser reabertas durante a tarde de sábado, após a remoção da lama arrastada pelos deslizamentos. Contudo, o Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil antecipa para este domingo aguaceiros e trovoadas em zonas isoladas da região serrana, o que poderá dificultar ainda mais a progressão das operações. A agravar a situação está ainda a falta de energia elétrica nas zonas mais remotas. A própria cidade do Rio de Janeiro encontra-se em estado de alerta por causa da chuva.

Tropas no terreno
Segundo a edição online do jornal brasileiro O Globo, a cidade de Teresópolis, escolhida para a instalação da uma base de operações, recebeu nas últimas horas 226 operacionais destacados pelo Comando Militar do Leste. A coordenação das missões, que estão a ser levadas a cabo por efetivos do Exército, da Marinha e da Força Aérea, está a cargo do general Oswaldo de Jesus Ferreira.

O Exército é apoiado nas operações por 38 veículos, entre os quais duas ambulâncias, e seis helicópteros. Para além de prestar apoio ao hospital de campanha da Marinha erigido em Nova Friburgo, a Força Aérea começou a instalar um centro de comunicações em Itaipava. O Globo adianta que pelo menos 110 famílias isoladas na localidade de Brejal e Vieira, em Teresópolis, foram ontem resgatadas por via área, numa operação que contou com a participação de 150 soldados.

A par dos homens das Forças Armadas, há 225 operacionais da Força Nacional de Segurança a trabalharem no terreno. Os militares vão colaborar na identificação de cadáveres e no resgate de sobreviventes, mas também em operações de patrulhamento, de forma a responder às pilhagens. Na periferia de Nova Friburgo, grupos de assaltantes estão a percorrer as casas abandonadas em busca de valores.

“Um pesar muito grande”
Em declarações à agência Lusa, o presidente da Associação Brasileira de Portugal (ABP), Ricardo Amaral Pessoa, deixou ontem um apelo à comunidade oriunda do Brasil para que ajude “naquilo que verdadeiramente já faz”: “Remessas de dinheiro para o Brasil, remessas de dinheiro para os seus familiares. Não vejo uma outra situação, porque retorno não ajuda”.

A tarefa de reconstrução, admitiu o responsável, é “muito difícil”. Entre a comunidade brasileira em Portugal há “um pesar muito grande”. “É uma parte de nós que está a ser soterrada, que está a perder todos os bens”, sublinhou Amaral Pessoa, acrescentando que muitos dos brasileiros que residem em Portugal - a ABP calcula que a comunidade abarca 200 mil pessoas, metade das quais indocumentadas - são naturais das regiões atingidas pelas enxurradas.

“Temos aqui muitos pais, muitas mães, muitos irmãos que vieram em busca de uma vida melhor e para tentar ajudar aqueles que lá ficaram. Anda muita gente preocupada, porque sentem que pode algum parente estar a sofrer”, afirmou.
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