Mundo
Febre amarela pode regressar à Europa?
A resposta é afirmativa segundo um estudo divulgado nesta sexta-feira pela Universidade Nova de Lisboa.
Uma equipa internacional de investigadores em colaboração com o centro de investigação do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa reconstruiu em detalhe a epidemia de febre amarela de 1857, responsável por mais de cinco mil e 600 mortes na capital portuguesa.
O estudo agora publicado na revista científica PLOS demonstra que a febre amarela pode voltar e "propagar-se rapidamente em contextos urbanos europeus quando se combinam fatores ambientais e sociais, num cenário de crescente urbanização, mobilidade global e alterações climáticas — mesmo existindo vacina".
A investigação revela que, no século XIX, o surto teve origem na chegada de navios provenientes do Brasil que transportaram o mosquito Aedes aegypti, principal vetor urbano da febre amarela.
Em poucas semanas, a doença espalhou-se a partir da zona portuária para o resto da cidade, mostrando um elevado potencial de transmissão.
As áreas mais afetadas concentraram-se, então, nas zonas ribeirinhas de Lisboa, sobretudo em áreas densamente povoadas, de baixa altitude e com maior acumulação de água, condições ideais para a proliferação do mosquito.
Ana Sofia Rodrigues / RTP
O estudo mostra que "a propagação da doença não dependeu apenas do ambiente, mas também de determinantes sociais de saúde".
Fatores como a ocupação, o género, as condições de habitação e o acesso a cuidados de saúde "influenciaram de forma significativa o risco de infeção e morte".
Trabalhadores ligados ao porto estiveram entre os primeiros afetados, enquanto muitas mulheres - frequentemente em trabalho doméstico e com menor acesso a cuidados - apresentaram, segundo o estudo, "maior probabilidade de morrer em casa".
A investigação coloca também em evidência o papel dos espaços urbanos e sociais, como zonas de trabalho, alojamentos coletivos e locais de grande circulação, na amplificação da transmissão, mostrando que o risco não se limitava às habitações,
mas estava distribuído pela dinâmica da cidade.
Nuno Patrício / RTP
Atualmente, zonas costeiras e de baixa altitude na cidade de Lisboa continuam entre as mais vulneráveis devido a forte pressão urbana e turística, proximidade de pontos de entrada internacional, condições favoráveis à retenção de água em meio urbano e impacto crescente das alterações climáticas.
Por outro lado, sublinha a investigação, "mosquitos capazes de transmitir a febre amarela já foram identificados em território português, reforçando o alerta de que a doença poderia, em teoria, voltar a emergir em solo europeu".
Apesar da existência de vacina, a febre amarela continua a ser endémica em várias regiões do mundo e não foi ainda erradicada.