FMI alerta para riscos no crédito e defende reforço de funcionários no Banco Central do Brasil
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou hoje para os riscos associados ao crédito pessoal no Brasil e defendeu medidas para enfrentar a escassez de funcionários do Banco Central (BC) brasileiro.
Segundo a instituição, a solidez do sistema financeiro foi confirmada pelas conclusões do Programa de Avaliação do Setor Financeiro (FSAP, na sigla em inglês) realizado pelo organismo.
"O setor financeiro continua resiliente, com bancos bem capitalizados e líquidos. É importante manter a vigilância, sobretudo no que diz respeito aos riscos no crédito a pessoas físicas", segundo o comunicado.
O FMI enviou uma equipa técnica ao Brasil entre os dias 18 e 29 de maio para analisar políticas e perspetivas económicas do país, o que incluiu encontros com autoridades locais.
No final de cada missão aos países-membros, o FMI divulga um comunicado com "constatações preliminares" e elabora um relatório técnico, ainda a ser aprovado pela Direção Executiva da instituição.
A equipa técnica do FMI afirmou hoje que os bancos brasileiros continuam bem capitalizados e com níveis adequados de liquidez, mas, apesar desse cenário, recomendou a manutenção da vigilância sobre potenciais vulnerabilidades no mercado de crédito.
A instituição destacou especialmente os riscos relacionados com as operações de crédito pessoal.
O último levantamento do Banco Central brasileiro, divulgado no final de abril, aponta que o endividamento das famílias atingiu 49,9%, um recorde na série histórica iniciada em 2006.
No relatório, o BC informa ainda que a percentagem do rendimento das famílias brasileiras com dívidas alcançou 29,7%.
Mais uma vez, o Banco Central brasileiro voltou a repetir que o cartão de crédito, a linha de crédito mais cara do mercado financeiro, é o vilão do endividamento das pessoas.
O juro médio total cobrado pelos bancos no cartão de crédito caiu de 435,9% ao ano em fevereiro para 428,3% em março.
Em resposta ao endividamento das famílias e aos seus efeitos na popularidade do Presidente brasileiro, Lula da Silva, o Governo lançou, no início do mês passado, um novo programa de renegociação de dívidas.
O fortalecimento dos quadros de funcionários do Banco Central brasileiro também foi destacado no comunicado divulgado hoje pelo corpo técnico do FMI.
"É prioridade reforçar a supervisão do sistema financeiro e do mercado de capitais -- inclusive enfrentando a questão da escassez de pessoal do BCB e fortalecendo a proteção legal dos seus funcionários", afirma.
A declaração do FMI ocorre depois do BC ter decretado, em novembro passado, a liquidação do Banco Master devido a crise de liquidez e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Um juiz do Tribunal de Contas da União, indicado para o cargo por políticos influentes ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, usou a função para pressionar de forma intimidatória agentes do BC, mas recuou após repercussão negativa do seu comportamento.
Pivô da crise, Vorcaro está preso por múltiplos crimes, entre eles corrupção, suborno a agentes públicos, e por financiar milícias digitais para atacar o BC e defender o Master.
Dois diretores do Banco Central também foram afastados, suspeitos de receberem imóveis e recursos para favorecerem o Master.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, declarou há duas semanas, durante uma audiência no Senado, que o Master não representa risco para o sistema financeiro e comparou o banco a uma equipa da terceira divisão do futebol brasileiro.
Na ocasião, Galípolo pediu aos senadores reforço estrutural do BC por estar sem recursos para investir em tecnologia e com um défice de mil funcionários.
"A gente vai ter que começar a fazer uma gestão de risco dizendo assim: `Não há cobertor para cobrir tudo. O que é mais sistémico vamos passar a analisar`", frisou.
O escândalo do Master levou o BC a mudar regras que limitam o uso do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) pelos bancos como estratégia para atrair investidores e captar recursos no mercado financeiro.
O banco de Vorcaro prometia altos rendimentos aos investidores, usando o FGC - espécie de colchão de proteção do sistema financeiro - como garantia aos investidores em caso de quebra.
A liquidação do Master causou prejuízos da ordem dos 52 mil milhões de reais (cerca de 8,89 mil milhões de euros), valor que representa 30% do valor total do FGC para ressarcir os credores.