FMI revê em baixa previsões de crescimento para a Europa nos próximos anos

FMI revê em baixa previsões de crescimento para a Europa nos próximos anos

A diretora-geral do FMI reviu em baixa as perspetivas de crescimento da Zona Euro e em alta as previsões para a inflação para este ano e o próximo. “Não tomem decisões baseadas na esperança de que isto termine em breve. Tomem decisões com base numa abordagem cautelosa”.

Andrea Neves, RTP Antena 1, Bruxelas /
Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI Foto: Henry Nichols - AFP

No dia em que se soube que o Banco Central Europeu decidiu subir as taxas de juro em 25 pontos base, os ministros das Finanças da Zona Euro ouviram a Diretora-geral do FMI apresentar uma revisão em baixa das previsões económicas para os próximos anos. Kristalina Georgieva explicou que “a Europa está num cenário difícil e já em abril o FMI tinha revisto em baixa o crescimento e em alta a inflação. E a situação mudou e não para melhor” acrescentou.

“Reconhecemos que a economia da zona euro, tal como o resto do mundo, enfrenta um ambiente mais desafiante. O recente choque da guerra no Médio Oriente e a consequente subida dos preços da energia enfraqueceram as perspetivas e agravaram os obstáculos estruturais que a Europa já enfrentava, incluindo o envelhecimento da população e o crescimento moderado da produtividade. Como resultado, já em abril revemos em baixa as nossas projeções de crescimento e em alta as de inflação. Desde então, as perturbações têm-se revelado mais persistentes do que prevíamos. A inflação subiu consideravelmente e a confiança dos consumidores desceu drasticamente”, afirmou Georgieva.

Por isso o FMI reviu em baixa o crescimento e em alta a inflação.

“Isto levou a novas revisões em baixa das projeções de crescimento e em alta das projeções de inflação. Em relação ao crescimento, projetamos agora 0,9 por cento em 2026 e 1,2 por cento em 2027. Isto representa uma revisão acumulada em baixa de cerca de 0,7 pontos percentuais. Para a inflação geral, projetamos 2,8 por cento em 2026 e 2,3 por cento em 2027. Trata-se de uma revisão acumulada de 1,2 por cento nos níveis de preços em relação ao período anterior à guerra”, disse a diretora-geral do FMI.

E mesmo assim, admite o FMI, há riscos associados a esta previsão e todos parecem contribuir para um cenário mais negativo do que positivo.

“Os riscos estão inclinados para o lado negativo. Todos reconhecemos que a incerteza relativamente ao rumo da guerra no Médio Oriente é muito elevada. Se tivermos um choque energético mais persistente, se as tensões geopolíticas aumentarem, se as condições financeiras se tornarem mais restritivas, isso poderá travar ainda mais o crescimento. Os preços da energia mais elevados também manteriam a inflação elevada. Este é o contexto. E o que isto significa para a zona euro é um equilíbrio muito difícil no curto prazo”, alertou responsável pelo FMI.

Kristalina Georgieva diz que se vive um cenário de incerteza que pode ainda piorar por causa da guerra se houver um choque energético maior.

“A prioridade é manter as expectativas de inflação firmemente ancoradas, ao mesmo tempo que se atenua o impacto do choque nas famílias e nas empresas dentro do espaço orçamental disponível. E sabemos que é um espaço apertado. A política monetária necessitará de se manter focada em garantir que o choque energético não conduza a pressões inflacionistas mais amplas ou mais persistentes. Uma comunicação clara e prospetiva por parte do BCE, como fez hoje e continuará a fazer no futuro, é absolutamente essencial neste ambiente de incerteza”, afirmou.

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional reforça o que a Comissão Europeia tem defendido: as medidas devem ser temporárias e bem direcionadas.

Para Georgieva, “a política orçamental deve prestar apoio principalmente através dos programas de proteção social existentes. Se forem necessárias medidas adicionais, estas devem ser temporárias, bem direcionadas para proteger as famílias vulneráveis, preservando os sinais de preços e mantendo a disciplina fiscal. A médio prazo, o ajustamento orçamental será necessário, especialmente nos países com elevado endividamento, para criar espaço para as necessidades de despesa a longo prazo e preservar a sustentabilidade”.

Também o comissário com a pasta da Economia considera que esta questão é fundamental.

“A Comissão Europeia continua a insistir para que aprendamos com as lições das crises anteriores e que as medidas de apoio às famílias e às empresas no atual contexto de choque energético devem ser temporárias e direcionadas” reforçou Valdis Dombrovskis.
O bom, o mau e o péssimo. Os cenários que o FMI tinha em abril

A diretora-geral do FMI recordou que, “já em abril apresentámos aos nossos membros três cenários: um cenário de referência, um cenário adverso e um que poderá ser não muito bom, ou seja, o bom, o mau e péssimo. O lado bom já ficou para trás. O nosso cenário de referência já não é válido, mas ainda não estamos a entrar de vez no cenário adverso”.

“E porque é que isso acontece? Porque, quando analisamos os preços da energia, a inflação e as condições financeiras, sim, os preços da energia subiram, mas não tanto como projetaríamos no nosso cenário adverso, mesmo num cenário adverso. A nossa expectativa de inflação é elevada e exige ação. Isto pode mudar?" questionou. "Sim”, respondeu.

Georgieva admitiu que “se estivermos num período prolongado de interrupções no fornecimento de petróleo e gás, a situação irá agravar-se. E, no nosso pior cenário, podemos ver a economia mundial a entrar em recessão. Até agora, as duas maiores economias, os EUA e a China, estão a sair-se muito bem. Isto mantém a média de crescimento global não muito distante do nosso cenário de referência. Mas se a Zona Euro for mais vulnerável ao choque energético, teremos uma revisão em baixa ainda maior da nossa previsão de crescimento global. O problema mais difícil criado por este choque é a incerteza. E isso coloca os decisores numa posição muito difícil”.
Acelerar as reformas estruturais em matéria de energia
Já o presidente do Eurogrupo, sublinhou que a cláusula de escape nacional que vai permitir aos países apoiar famílias e empresas nos gastos energéticos e fazer investimentos em energia é essencial.

Kyriakos Pierrakakis recordou que foi por causa dos investimentos anteriores em sistemas de energia que não há, agora, um impacto tão grande nos custos que a Europa está a suportar.

“Concordamos plenamente com a estratégia que deve ser adotada em relação à nossa política energética na União. Precisamos de mais interligações. Precisamos de mais armazenamento de energia. Precisamos de mais investimentos nas redes elétricas, pois sabemos o que o FMI afirmou recentemente: os investimentos energéticos que temos vindo a realizar desde 2022 permitiram-nos reduzir em 12% o impacto da crise no Médio Oriente. Por isso, a melhor política social, para todos os europeus, é investir em infraestruturas energéticas”.

A Diretora-geral do FMI reforçou no Luxemburgo que “é crucial não perder o ímpeto na agenda estrutural”

Kristialina Gerogieva revelou que “houve uma discussão muito interessante e participativa sobre o reforço da segurança energética. Acelerar a transição para as energias renováveis. Reduzir a exposição a interrupções no fornecimento externo. Estas medidas eram urgentes antes e tornaram-se ainda mais urgentes hoje para a Europa”.

Valdis Dombrovskis concordou. O comissário da Economia disse que os ministros das Finanças da Zona Euro defendem que se” deve expandir a produção nacional de energia limpa, continuar a eletrificação e reforçar a nossa infraestrutura de redes elétricas.
A Cláusula de escape nacional para a energia
Na reunião do Eurogrupo os ministros das Finanças dos 21 países da Moeda Única analisaram a cláusula de escape nacional para a energia que a Comissão Europeia propõe e que permite aos Estados-membros fazer acomodar as despesas e cos custos do aumentos dos preços da energia sem violar as regras europeias em matéria orçamental.

Mas em que termos?

Vadis Dombrovskis confirma que a Comissão Europeia está “a preparar a nota para a Comissão Económica e Financeira com mais detalhes sobre a implementação desta flexibilidade adicional”.

“A ideia base é que as medidas que reduzam a nossa dependência dos combustíveis fósseis sejam elegíveis, o que inclui tanto grandes projetos de investimento em energias renováveis, redes elétricas, infraestruturas, etc”, explicou.

Mas também “subsídios a famílias ou empresas que reduzam a sua dependência dos combustíveis fósseis, como a substituição do sistema de aquecimento doméstico a gás ou gasóleo por exemplo, bombas de calor, painéis solares, baterias para armazenar a energia elétrica gerada pelos painéis solares". E ainda “melhorias na eficiência energética e apoio à mobilidade elétrica”.

“Estes são os principais parâmetros, mas também forneceremos orientações mais detalhadas aos Estados-Membros” confirmou o Comissário da Economia.

Há uma divisão entre os Estados-membros sobre a possibilidade de ativar esta claúsula de escape. No caso de Portugal o ministro das Finanças confirmou que o governo ia usá-la como fez para os investimentos em defesa.

“A Comissão entende também, a pedido de vários países, que deve criar agora uma cláusula de exceção, como criou para as regras da despesa com defesa. Nós acompanhamos essa decisão” disse Miranda Sarmento.

“Iremos acionar essa cláusula como acionamos para a defesa. Portugal é o quinto país da União Europeia que tem os maiores apoios em percentagem do PIB, decorrentes desta crise do Irão. Portanto, naturalmente, ajuda-nos a poder continuar a robustecer os apoios em função daquilo que seja a evolução do conflito que pode ter, tendo em conta a trajetória da dívida de Portugal”.

“Diria que houve duas críticas principais em relação aos impactos fiscais na sustentabilidade das finanças públicas” confirmou o comissário com a pasta da Economia.

“E é por isso que, em regra, implementámos estas medidas dentro do limite de 1,5 por cento do PIB para as despesas nacionais com a Defesa, que já foi avaliado na perspetiva da sustentabilidade da dívida. E a grande maioria dos Estados-Membros ainda não esgotou esta flexibilidade orçamental e ainda tem margem”.

“Mas é por isso que também oferecemos um mecanismo específico para aqueles Estados-Membros, aqueles poucos Estados-Membros, que possam estar a esgotar o seu espaço orçamental ao abrigo da cláusula de escape nacional para a defesa, possam ter essa flexibilidade para além de 1,5 por cento do PIB, sujeita a uma avaliação adicional da sustentabilidade da dívida”.

A diretora-geral do FMI deixa, sobre este assunto, uma mensagem: “usem a clausula de escape que lhes permite mais medidas para mitigar os preços da energia sem quebrar as regras europeias, mas com muita precaução,

“A nossa mensagem? Sejam muito cautelosos. Simplesmente não sabemos quanto tempo durará esta interrupção no fornecimento, nem quanto afetará as economias. Portanto, não tomem decisões baseadas na esperança de que isto termine em breve. Tomem decisões com base numa abordagem cautelosa que exija a preservação do espaço orçamental”.
E realça: “e, por favor, por favor, por favor, para aqueles que têm défices e dívidas elevados: tenham muito cuidado para não gastar dinheiro que não têm”.

Mas os ministros estão já a pensar no futuro.

“Concordamos que os Estados-Membros devem começar a planear desde já o período posterior à cláusula de escape nacional. Isto é essencial para garantir que os ajustamentos fiscais necessários posteriormente são ordenados e graduais” reforçou o Comissário com a pasta da economia.
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