Fosso entre Brasília e Buenos Aires alarga-se. Ministro brasileiro chama "palhaço" a Milei

Fosso entre Brasília e Buenos Aires alarga-se. Ministro brasileiro chama "palhaço" a Milei

“O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil e falou de Brasil, quando o risco-país da Argentina é muito mais alto”, devolveu o titular da pasta da Fazenda no Governo de Lula, Dario Durigan.

Carlos Santos Neves - RTP / Adicionar como fonte informativa
Javier Milei ao lado de Flávio Bolsonaro na convenção do Partido Liberal em São Paulo | Isaac Fontana - EPA

Acentua-se o mal-estar do poder executivo em Brasília face a Buenos Aires. Depois de Javier Milei ter apadrinhado, ao vivo, o arranque da candidatura presidencial do filho mais velho de Jair Bolsonaro, Flávio, o ministro brasileiro da Fazenda não poupou, esta segunda-feira, na dureza da resposta. O Brasil, reagiu Dario Durigan, está em melhor situação do que o país vizinho, ao contrário do que sugeriu “o palhaço do presidente da Argentina”, nas suas palavras.

Em matéria de solvência, a Argentina de Milei está muito aquém do Brasil de Lula. Foi a partir desta ideia que o ministro brasileiro da Fazenda - o equivalente ao ministro das Finanças na estrutura governativa em Portugal – quis responder a Javier Milei.

“O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil e falou de Brasil, quando o risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação lá é muito”, retorquiu, em entrevista à Rádio Jornal, Dario Durigan, referindo-se ao indicador de capacidade de pagamento da dívida externa.Durigan lançou mão de diferentes dados sobre o desempenho económico e fiscal da Argentina, nomeadamente a inflação e o endividamento, advogando que o Brasil apresenta menos desemprego, uma inflação controlada e uma robusta balança comercial.

Foi no passado sábado que Javier Milei marcou presença, em São Paulo, num evento do Partido Liberal que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência do Brasil. O presidente argentino manifestou então a expectativa de que o filho do antecessor de Lula da Silva possa “travar o lixo socialista”.

Numa diatribe contra “esquerdistas”, Milei acusaria mesmo o atual presidente brasileiro de se abster de ajustar as contas públicas: “O desperdício paga-se e esperamos que quem o causou pague nas urnas em outubro”.

“Hoje o socialismo está a ser erradicado na Argentina, na Colômbia, no Chile, no Equador e esperamos que também o seja no Brasil em outubro. Outras nações estão a despertar, mas esta ideologia continua agarrada ao Brasil”, insistiu.

Outra das farpas do populista presidente argentino visou o juiz do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, relator do processo que conduziu à condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, na sequência da derrota nas presidenciais de 2022.“Lixo careca” foi o insulto dirigido por Milei ao juiz, que impediu Bolsonaro, em prisão domiciliária, de receber a visita do presidente argentino.


Depois da prestação de Milei em solo brasileiro, o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para dar explicações.

“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao poder judiciário, e ao povo brasileiro”, reagiu o Itamaraty em comunicado.

“É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial", concluiu o gabinete de Vieira.

Também o presidente do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Luiz Edson Fachin, repudiou, logo no sábado, as palavras do presidente argentino.

Trata-se de uma referência desrespeitosa a um magistrado da mais alta instância judicial do país, feita em solo brasileiro, por causa de um ato jurisdicional praticado em conformidade com a Constituição e as leis da República Federativa do Brasil”, apontou, para lamentar declarações “incompatíveis com a civilidade” que deve reger as relações internacionais.

c/ Lusa
Tópicos
PUB