Galinhas à mesa do novo Ano Lunar, apesar da gripe das aves
Milhões de trabalhadores migrantes chineses viajaram hoje de volta às províncias de origem, para celebrar com a família o novo Ano Lunar, e, apesar da gripe das aves, levam na bagagem um elemento essencial do jantar desta quadra - a galinha.
A Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) já avisou que a mistura de milhões de pessoas e animais é explosiva.
"Os festivais que causam o movimento de pessoas e animais são períodos de maior disseminação de micróbios patogénicos", alertou a FAO antes do final do Ano Lunar, mas pouca gente parece disposta a ouvir.
Segundo o governo chinês, estão previstas 2 mil milhões de viagens durante os 40 dias das celebrações do novo Ano Lunar, o Ano do Cão, que começa no próximo domingo.
Só de comboio, viajarão 4 milhões de pessoas por dia, e muitas delas vão levar galinhas. Se algumas delas estiverem infectadas pelo H5N1, a estirpe mais perigosa do vírus que causa a gripe das aves, o pesadelo da FAO e da Organização Mundial de Saúde pode tornar-se realidade.
Leow Chi-hwa é um dos quatro milhões de chineses que hoje viajaram de comboio. Aos 40 anos, tem poucas razões para celebrar.
Ganha pouco, vive sozinho, longe de casa, sem a mulher e as duas filhas.
Por empurrar carros de carga durante 10 horas por dia numa fábrica nos arredores de Pequim, ganha por mês 81 euros (833 reminbi), abaixo da média chinesa de 114 euros, calculada pelo governo.
Mas o que vale é o novo Ano Lunar. Leow vai voltar a casa, ver a família. É a única vez no ano que tem os 45 euros para pagar a viagem de ida e volta à terra.
Não admira que esteja contente enquanto espera, sentado no chão, que chegue a sua vez na fila de centenas de pessoas para comprar o bilhete de comboio para a província de Sichuan, no sudoeste do país.
Leow leva toda a roupa a que chama sua dentro de uma saca de cimento, que já viu melhores dias. E, numa caixa de papelão com buracos, o presente mais precioso que poderia levar para casa: uma galinha.
"Tem de ser. Por causa da gripe, há muitos meses que ninguém da minha família come galinha, mas, durante o novo Ano Lunar, temos de ter um prato de galinha. Para trazer prosperidade", explica Leow.
Na China, no novo ano, a galinha é cozida com patas, cabeça e cauda e, depois de oferecida ao altar doméstico, é servida à família.
Uma tradição indispensável para quem tem pouco e só vai a casa uma vez por ano.
O Ano Lunar que acaba (o do Galo, por ironia) foi para esquecer, quanto ao consumo de aves.
Na passada quarta-feira, a China anunciou a sétima morte devido à gripe das aves desde o início de 2004. Mais de 80 já morreram na Ásia, depois de contactos com aves de capoeira infectadas.
Duas das vítimas mortais eram da província de Leow. Em consequência, as galinhas são caras e raras em Sichuan, como em grande parte da China.
"O Ano Novo é uma grande alegria. Junto-me à família, finalmente comemos juntos, rebentamos fogo de artifício e penduramos os caracteres da boa sorte na parede", diz Leow, uma das 300 mil pessoas que, só hoje, abandonaram a cidade de Pequim de comboio.
As carruagens vão cheias, a rebentar de gente, comida e animais. É mesmo impossível ir à casa de banho nos comboios. Os viajantes com mais experiência compram fraldas para adultos.
Segundo a imprensa chinesa, a venda de fraldas disparou mais de 50 por cento esta semana.
Para Leow, são 30 horas em pé, até chegar a casa. Com sorte, vai poder encostar-se a uma parede do comboio, no meio dos milhares de pessoas que vão encher a carruagem, nas prateleiras em cima dos bancos, entre as carruagens e dentro das casas de banho.
Milhares de milhões de pessoas, milhões de aves de capoeira. O pesadelo das autoridades de saúde.