Gaza mantida por improvisação humanitária e perseverança palestiniana diz ONU

Gaza mantida por improvisação humanitária e perseverança palestiniana diz ONU

A ONU alertou hoje que Gaza está a ser mantida unida apenas por "soluções humanitárias improvisadas e pela perseverança palestiniana", numa "situação insustentável", pedindo a remoção imediata das restrições israelitas a artigos de sobrevivência.

Lusa /
Ramadan Abed - Reuters

O Conselho de Segurança da ONU reuniu-se para abordar a situação humanitária na Faixa de Gaza, com o subsecretário-geral para Assuntos Humanitários, Tom Fletcher, a descrever um quadro sombrio do enclave, sublinhando que os palestinianos continuam privados do básico: segurança, abrigo, água potável, assistência médica e educação.

Apesar da redução dos combates ativos, civis continuam a ser mortos e mutilados em ataques aéreos diários, bombardeamentos e tiroteios, disse, lembrando que, desde o cessar-fogo, quase mil palestinianos foram mortos, incluindo mais de 250 crianças, de acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

"É isto que acontece quando as crianças são descritas como danos colaterais e potenciais terroristas, em vez de seres humanos e potenciais vizinhos", criticou Fletcher.

Já para os trabalhadores humanitários, Gaza continua a ser o local mais perigoso do mundo para prestar auxílio, disse o representante da ONU, lembrando que quase 600 trabalhadores humanitários foram mortos em Gaza em cerca de três anos de conflito, mais de metade do número total registado em todo o mundo.

Fletcher observou que o Plano de Paz para Gaza do Presidente norte-americano, Donald Trump, aprovado pelo próprio Conselho de Segurança da ONU, afastou o enclave palestiniano de uma situação catastrófica, mas não levou à satisfação das necessidades fundamentais da população.

Setenta por cento da população precisa de abrigo adequado e os serviços essenciais estão à beira do colapso.

E menos de um quarto do apelo humanitário para Gaza foi atendido, advertiu o chefe humanitário da ONU.  

Tom Fletcher instou o Conselho de Segurança a garantir a proteção dos civis, incluindo os trabalhadores humanitários; o acesso humanitário seguro, sustentado e sem entraves em toda a Faixa de Gaza; e um financiamento que seja oportuno, flexível e proporcional à dimensão desta crise. 

Insistiu igualmente na remoção imediata das restrições israelitas aos artigos essenciais de sobrevivência, especificamente equipamentos médicos, incluindo ferramentas de diagnóstico, mas também peças de substituição críticas para água e saneamento, fornecimento constante de combustível e óleo de motor, equipamentos de comunicação e proteção para os trabalhadores humanitários.

"Os civis não podem esperar por um momento diplomático mais conveniente para receber o básico para a sobrevivência", insistiu.

Na mesma reunião esteve presente Bushra Khalidi, chefe de Políticas Humanitárias da OXFAM Internacional, uma confederação global de mais de 20 organizações não-governamentais independentes, que, num discurso emocionado, afirmou que o "cessar-fogo está a fracassar".

Bushra Khalidi falou ao Conselho também no papel de mãe palestiniana de Jerusalém, que vive na Cisjordânia, e cuja família do marido está presa em Gaza e cujo filho conhece a família apenas "através da separação, do deslocamento forçado e da perda".

"Partilho isto não porque a minha história seja excecional, mas porque reflete uma realidade palestiniana mais vasta. Gaza não está separada de Jerusalém ou da Cisjordânia. É governada pelo mesmo sistema de ocupação ilegal de Israel", afirmou perante o corpo diplomático, incluindo o embaixador israelita junto da ONU.

"Um sistema que regula e nega a circulação, restringe as passagens, ameaça os lares e divide famílias como a minha. Não podemos viajar livremente e Gaza é onde este sistema atinge a sua expressão mais devastadora", acrescentou. 

Khalidi afirmou que as forças israelitas continuam a matar palestinianos e a levar Gaza a uma nova fragmentação, onde uma parcela cada vez maior da população está comprimida numa fração cada vez menor e onde os civis permanecem presos, deslocados, famintos e desprotegidos. 

"A paz não pode ser medida por declarações", insistiu, sublinhando que deve ser medida pela capacidade das pessoas de viverem em paz.

 

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