Governo brasileiro avisa que decisão dos EUA sobre grupos criminosos pode afetar o PIX
O Governo brasileiro afirmou hoje que a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pode afetar o sistema financeiro nacional e inovações como o PIX.
Em nota divulgada pelo Palácio do Planalto, o executivo defendeu que o Brasil trava um "combate permanente" contra fações criminosas e milícias, mas criticou possíveis medidas unilaterais adotadas por autoridades estrangeiras.
Segundo o Governo, o terror causado pelas fações procura o "lucro através do crime" e não pode ser confundido com "ações motivadas por razões ideológicas, políticas ou religiosas associadas ao terrorismo internacional".
No comunicado, também acusou membros da família Bolsonaro de incentivarem a "interferência estrangeira" em assuntos internos do Brasil ao procurarem apoio de autoridades norte-americanas.
"É deplorável que, mais uma vez, integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil", declarou.
Embora não tenha citado nominalmente Flávio Bolsonaro, a nota é uma crítica quanto ao senador e pré-candidato à Presidência do Brasil nas eleições de outubro e ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que mora nos EUA, tendo perdido o mandato na Câmara dos Deputados.
Flávio reuniu-se esta semana, em Washington, com o Presidente norte-americano, Donald Trump, e com o secretário de Estado, Marco Rubio, ocasião em que defendeu a classificação das duas maiores fações criminosas do Brasil como terroristas.
No comunicado, o Governo brasileiro argumentou que "medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida das pessoas que nada têm a ver com os crimes".
Essas medidas, segundo o Palácio do Planalto, podem ainda prejudicar a cooperação internacional no combate ao crime organizado e comprometer o partilha de informações entre forças policiais.
"Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros", salientou.
Esse sistema de pagamento instantâneo, desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, e muito popular no país, entrou na mira da Casa Branca durante uma investigação comercial aberta em julho de 2025.
O PIX foi classificado "uma prática desleal", tendo o Brasil um sistema prejudicial às gigantes de cartão de crédito, como Visa e Mastercard.
O Parlamento Europeu, por sua vez, tem demonstrado forte entusiasmo com o sistema de pagamentos brasileiro, e vê na experiência do Brasil um exemplo para a futura implementação do euro digital na Europa.
Na nota, o Palácio do Planalto refere que apresentou ao Departamento de Estado dos EUA, em abril, uma proposta de cooperação baseada em inteligência e combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico internacional de armas.
Reitera que o Brasil aceita colaboração internacional no combate ao crime organizado, mas rejeita "medidas arbitrárias vindas do estrangeiro" que possam atingir a soberania e a economia brasileira.
"A soberania nacional é inegociável", concluiu.
Antes, durante um evento em Sergipe, o Presidente brasileiro, Lula da Silva, referiu-se a Flávio Bolsonaro como "traidor da pátria" e disse que o Brasil não aceitará ser tratado como "republiqueta" pelos EUA.
Também hoje, o vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, sugeriu que a repercussão da decisão dos EUA, celebrada pelos bolsonaristas, estaria a ser utilizada politicamente, após semanas de desgaste de Flávio devido à polémica do seu envolvimento com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro, do Banco Master.
"Isso é ruim para o Brasil. Pode ter consequências na área do sistema financeiro, na área da economia. Não vai resolver nada em termos de combate ao crime e pode prejudicar a economia", declarou.
O Departamento de Estado dos EUA anunciou que pretende designar as duas maiores fações criminosas do Brasil como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs), ampliando sanções e restrições financeiras contra os grupos.
A medida entrará em vigor no dia 05 de junho.