Há 70 anos, nazis iludiram o Mundo com os Jogos Olímpicos de Berlim
Há 70 anos, com a espectacular organização dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, os nazis conseguiram momentaneamente iludir o resto do mundo, que demorou a despertar para as suas atrocidades.
A 01 de Agosto de 1936, o dia em que Hitler inaugurou os Jogos, cerca de um milhão de pessoas encheu a parte final do percurso da prova da Maratona, em Grunewald, a sul da capital alemã, para ovacionar os corredores.
O Estádio Olímpico de Berlim, ainda hoje, já depois de modernizado para acolher recentemente a final do Mundial de Futebol 2006, uma construção imponente, esteve esgotado em todos os dias das provas, e as bandeiras com a cruz suástica que enchiam o recinto ainda não atemorizavam a opinião pública mundial.
Na Unter den Linden, a avenida mais emblemática de Berlim, grupos de pessoas juntavam-se junto de altifalantes para ouvirem a transmissão directa das competições na rádio.
Nas 26 "salas de televisão" distribuídas pela cidade, os berlinenses podiam até ver imagens dos duelos olímpicos, com bilhetes adquiridos gratuitamente nos postos de correio.
Foi também na altura que se assistiu, embora sem usar o termo, ao nascimento do chamado Public Viewing, de que tanto se falou recentemente, para designar o espectáculo das multidões que assistiram nas ruas ou em grandes recintos às transmissões televisivas dos jogos de futebol do Alemanha 2006.
Os dois ecrãs no formato 100 por 120 centímetros, gigantes para a época, tinham sido instalados no Ministério dos Correios do Império, na Leipziger Strasse e na "Deutschland-Ausstellung" (Exposição sobre A Alemanha), nos terrenos da Feira de Berlim.
O espectáculo montado pelos nazis, para tentarem corrigir a má imagem que já tinham pelo mundo fora, depois de terem chegado ao poder em 1933 e suprimido a democracia pluripartidária na Alemanha, foi um modelo de perfeição, com tanto sucesso que ainda hoje se fazem grandes eventos desportivos obedecendo quase à mesma pauta.
Por exemplo, o transporte do facho por atletas de várias Nações, da Grécia até Berlim, para acender no Estádio a pira olímpica, no dia da inauguração, foi uma ideia do chefe do Comité Organizador, Carl Diem, que passou a ser parte integrante do programa de todas as Olimpíadas subsequentes.
"Ouvíamos rádio de manhã à noite, estávamos presos ao que acontecia nas provas", recorda Klaus Loewe, um berlinense que na altura era ainda adolescente.
"As meninas saiam para a rua e brincavam aos Auslaender (estrangeiros), trocavam entre si palavras em finlandês, ou noutra língua, e, quando as abordavam em alemão, fingiam que não percebiam nada", conta a mesma testemunha.
Durante os Jogos, havia em Berlim muitos estrangeiros, o que era pouco normal para a época, e também muitos afro-americanos.
Muitos deles chegaram a dizer, segundo relatos da altura, que se sentiam melhor em Berlim, onde só eram considerados "exóticos", do que nos Estados Unidos, onde eram fortemente discriminados.
Mesmo o célebre Jesse Owens, o velocista negro que fez furor nos Jogos, não considerou racismo o facto de Hitler não o ter querido cumprimentar após o seu triunfo, dizendo até, na sua Biografia, que o ditador lhe tinha acenado amigavelmente.
"Nós esperávamos que, graças aos Jogos Olímpicos, a sociedade alemã se voltasse a abrir, voltasse a ser mais livre", lembra Klaus Loewe.
Nos bastidores dos Jogos, que não eram acessíveis ao grande público, os nazis prosseguiam, no entanto, a sua odiosa política, sem esquecer os preparativos para a guerra.
No mesmo dia em que Hitler inaugurou os Jogos, seguiram os últimos soldados alemães da legião Condor para Espanha, para combater ao lado das tropas fascistas de Franco.
Cerca de 90 "desportistas operários", ligados a partidos de esquerda ou aos sindicatos, foram detidos antes de começarem os Jogos.
Da lista de prisioneiros chegou a fazer parte o ginasta Werner Seelenbinder, mas, à última hora, os dirigentes nazis, receando um escândalo por causa da sua popularidade, decidiram deixá-lo em liberdade e participar nos Jogos.
Já na altura, apesar de o ministro da propaganda Joseph Goebbels ter dado instruções aos jornalista para não comemorarem vitórias de atletas nazis "com o habitual júbilo nacionalista", presos políticos do II Reich estavam a construir em Oranienburg, às portas de Berlim, o que viria a ser protótipo dos campos de concentração.
Noutro acto de repressão que ilustra bem o carácter xenófobo do regime hitleriano, o ministro do Interior anunciou abertamente que queria apresentar durante os Jogos Berlim como uma "cidade aberta ao mundo, mas livre de ciganos".
Todos os ciganos foram levados então para um campo de reclusos em Marzahn, a 10 quilómetros de Berlim, e a maioria acabou por ser assassinada no campo de concentração e extermínio de Auschwitz- Birkenau, já depois de ter começado a II Guerra Mundial.