Hong Kong prende dona de livraria independente por "sedição"
A polícia de Hong Kong deteve Leticia Wong, ex-vereadora e proprietária da livraria independente Hunter, por suspeita de sedição e branqueamento de capitais.
As autoridades irromperam na noite de quarta-feira no estabelecimento, situado no bairro operário de Sham Shui Po, e apreenderam livros que alegadamente incitavam ao ódio contra o Governo e a magistratura.
Wong, antiga integrante do Partido Cívico - uma das maiores formações pró-democracia da cidade, já dissolvida -, e outro homem detido enfrentam acusações de sedição e branqueamento de capitais, por receberem transferências de "organizações políticas estrangeiras".
O espaço estava há meses sob escrutínio das autoridades. Em 2025, após organizar uma feira do livro independente, a imprensa pró-governamental acusou-a de praticar "resistência suave", termo a que o Executivo recorre cada vez mais para assinalar formas não violentas de dissidência ideológica ou cultural.
A livraria tinha atraído a atenção policial em 2024, quando desafiou o veto oficioso à memória histórica ao vender velas e exibir cartazes de "35/5", numa referência velada ao 35.º aniversário da repressão militar de Tiananmen de 4 de junho de 1989, cuja vigília anual foi durante anos o maior símbolo das liberdades do território semiautónomo.
O processo reflete o impacto da Lei de Segurança Nacional imposta por Pequim em 2020, após protestos massivos a favor da democracia, e de novos regulamentos de defesa de segurança nacional impostos em 2024.
Ambos os enquadramentos legais redefiniram os limites da legalidade no centro financeiro ao tipificar crimes políticos como a sedição, com penas que podem chegar à prisão perpétua.
Como resultado, o ecossistema editorial de Hong Kong sofreu uma asfixia sistemática, com bibliotecas públicas a expurgar centenas de títulos, enquanto o setor independente tem denunciado um padrão de assédio através de inspeções sucessivas e novas exigências de licenciamento.
Estas dinâmicas, alertam, instauraram uma constante insegurança jurídica e um profundo desgaste anímico entre os criadores da ex-colónia britânica.