Mundo
Ilhas Canárias preparam-se para possível chegada do navio de cruzeiro com hantavírus
A resposta está a ser coordenada com agências nacionais e internacionais. Navio considera a possibilidade de atracar na Gran Canária ou Tenerife, depois de Cabo Verde ter recusado a autorização.
As autoridades de saúde espanholas mantêm um sistema de vigilância ativa face à possível chegada às Ilhas Canárias do navio de cruzeiro MV Hondius, afetado por um surto de hantavírus que pode ter causado a morte de três pessoas durante a travessia do Atlântico.
O navio deverá atracar em Las Palmas de Gran Canária ou Santa Cruz de Tenerife, depois de Cabo Verde ter recusado a entrada por razões de "segurança pública nacional".
A bordo estão cerca de 150 pessoas de 23 nacionalidades, incluindo 14 espanhóis - 13 passageiros e um tripulante -, segundo o operador holandês Oceanwide Expeditions, proprietário do navio.
A empresa confirmou também que, na sequência das mortes e da transferência de um passageiro para a África do Sul para tratamento numa unidade de cuidados intensivos, há atualmente dois membros da tripulação com sintomas respiratórios agudos - um ligeiro e outro grave - que "requerem cuidados médicos urgentes".
O cruzeiro partiu de Ushuaia, na Patagónia, Argentina, a 20 de março, e passou pela Antártida, Falklands, Geórgia do Sul, Ilha Nightingale, Tristão de Acuna, Santa Helena e Ascensão, antes de chegar a Cabo Verde, a 3 de maio.Saúde organiza resposta e medidas
Tendo em vista a possível escala do navio afetado pelo surto de hantavírus nas Ilhas Canárias, o Serviço de Saúde Externo espanhol já está a coordenar a resposta com várias organizações nacionais e internacionais.
De acordo com fontes da Delegação do Governo nas Ilhas Canárias, estes contactos fazem parte do mecanismo ativado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Estão a ser realizadas reuniões com a Subdireção de Saúde Externa do Ministério da Saúde e com o Centro de Coordenação de Alertas e Emergências Sanitárias para definir as medidas a tomar "em caso de escala nas Ilhas Canárias".
Sobre a possível origem do surto, fontes do Ministério da Saúde sublinham que "os dados atuais sugerem que terão sido infetados no próprio barco. O hantavírus propaga-se principalmente através de excrementos de ratos em zonas onde o vírus circula. A zona de aventura onde se encontravam os falecidos é uma zona de ratos infetados com hantavírus. No entanto, acrescentam que "não se pode excluir que alguém tenha sido infetado no interior do barco por ratos ou que o médico tenha sido infetado através do contacto próximo com um dos falecidos".
O departamento recorda ainda que, embora a transmissão seja sobretudo zoonótica - transmite-se dos animais para os seres humanos - "a Região das Américas tem uma história que sugere a transmissão pessoa-a-pessoa, principalmente associada ao vírus dos Andes", com surtos documentados na Argentina e no Chile em contextos de contacto próximo e prolongado.
No mesmo sentido, o professor emérito de Saúde Animal, Juan José Badiola, disse à RTVE Noticias que "no caso em questão, o mais provável é que uma pessoa infetada tenha entrado no barco e que essa pessoa tenha transmitido o vírus ao resto da tripulação". Existem algumas variantes do vírus que podem ser transmitidas de pessoa para pessoa, e fazem-no através da via respiratória, razão pela qual um espaço fechado, como este barco, se torna um ambiente de alto risco", adverte.
Badiola considera plausível que "tenha havido um caso de uma pessoa infetada, um passageiro ou membro da tripulação, e que esse tenha sido o foco inicial", lembrando que "está descrito: há casos registados na Argentina".
Relativamente à possível escala em Gran Canaria ou Tenerife, insiste na necessidade de prudência: "O lógico seria não deixar os passageiros saírem à rua, mas mantê-los em quarentena no navio, e retirar as pessoas que desenvolvem sintomas compatíveis com a doença, levá-las para um hospital, onde ficariam numa zona de isolamento".
Neste sentido, sublinha a gravidade dos casos mais graves afectados por esta patologia: "Não só precisam de isolamento, mas sobretudo de UCIIS, porque há um problema pulmonar grave e se não for feita ventilação assistida, o doente morre".Risco para a população local quase nulo Numa entrevista ao canal de notícias Canal 24 Horas, o epidemiologista Amós García Rojas concorda em sublinhar as dificuldades na gestão clínica da doença causada por este vírus: "Não existe um tratamento específico. Este é outro elemento que complica a abordagem e, de momento, não existe nenhuma vacina disponível, embora existam algumas em investigação". O vírus tem duas formas de apresentação: uma americana, que é mais grave, e uma europeia, que é menos grave. Neste caso, "tudo aponta para a variante americana, que é a mais grave".
No entanto, García Rojas é mais cético quanto à transmissão entre humanos: "Existe apenas uma subvariante do vírus em que está descrita, mas também é extremamente difícil que ocorra. Basicamente, porque requer um contacto muito próximo, muito direto e muito intenso com uma pessoa doente".
Na sua opinião, as hipóteses mais prováveis são outras: "Penso que há duas possibilidades: uma é que tenham sido infetados numa das escalas que o navio de cruzeiro teve na Argentina, onde houve hantavírus. Outra é que existe um problema nesse cruzeiro: a presença de roedores que são responsáveis por estes casos".
Quanto ao possível desembarque nas Ilhas Canárias, insiste que será estritamente controlado: "O fundamental é compreender que, se for decidido que as pessoas têm de ser retiradas do barco, é porque as condições já permitem essa possibilidade e as autoridades sanitárias assim o determinaram". "Em todo o caso, o mais sensato é pensar que, se alguém for retirado, são as pessoas que estão doentes e que necessitam de uma vigilância sanitária significativa e precisam de ser levadas para um hospital", acrescentou.
Quanto ao risco para a população local, é tranquilizador: "Em rigor, não. Devido aos mecanismos de transmissão do vírus, a possibilidade de tal situação é praticamente nula".
Samuel A. Pilar / 5 maio 2026 06:14 GMT+1
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa