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Imprensa saudita acusa EUA de terrorismo e violação dos direitos humanos

Imprensa saudita acusa EUA de terrorismo e violação dos direitos humanos

Depois de, esta semana, o Departamento norte-americano de Estado ter divulgado um relatório mencionando o que considera ser abusos e violações dos direitos humanos na Arábia Saudita, o país do Médio Oriente retorquiu alegando que os Estados Unidos são o "maior violador dos direitos humanos". Segundo uma investigação, a imprensa saudita não poupa nos ataques aos EUA e acusa o país de "apoiar o terrorismo, cometer crimes contra a humanidade e violar os direitos humanos".

Inês Moreira Santos - RTP /
Jonathan Ernst - Reuters

As relações menos amistosas entre os Estados Unidos e o Reino da Arábia Saudita não são de agora. Mas depois de as autoridades norte-americanas terem divulgado um relatório sobre o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, sugerindo a forte probabilidade de o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, ter dado ordem para "capturar ou matar" o jornalista, as tensões entre Washington e Riade aumentaram.

Na terça-feira, o relatório anual do Departamento de Estado dos EUA revelava que, na Arábia Saudita, as autoridades civis mantêm na generalidade um controlo efetivo sobre as forças de segurança, mas com os seus membros a cometerem diversos abusos. O documento referia ainda que os ministérios do Interior e Defesa e todas as forças de segurança reportam diretamente ao rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, em simultâneo chefe de Estado e de Governo.

Mas os ataques e as graves acusações são mútuas. O Instituto de Pesquisa dos Media do Médio Oriente (MEMRI, na sigla em inglês) revelou, na quarta-feira, que a imprensa saudita ataca  frequentemente os EUA alegando que as críticas à Arábia Saudita são "hipócritas".

"Artigos publicados recentemente na imprensa saudita têm criticado de forma ostensiva e mordaz os Estados Unidos, acusando-os de apoiar o terrorismo, cometer crimes contra a humanidade e violar os direitos humanos", lê-se num relatório do MEMRI, divulgado um dia depois de Washington acusar Riade de violências e crimes contra a humanidade.

De acordo com a investigação, os media sauditas "afirmam que as administrações anteriores dos EUA visaram a Arábia Saudita ao serviço de países hostis como o Irão, Qatar e Turquia, e que a atual Administração é especialmente culpada disso".

Os EUA são ainda acusados de apoiarem "opositores sauditas islâmicos 'terroristas'" e de "interferirem nos assuntos internos do Reino sob o pretexto de defender os direitos humanos".
"A história dos EUA está repleta de crimes contra a humanidade e o país ignora as violações dos direitos humanos em países como o Irão. Portanto, as suas críticas às violações dos direitos humanos na Arábia Saudita são hipócritas".

O MEMRI cita casos em que a imprensa saudita afirma que a Administraçãp de Biden está a tentar ajudar países hostis como o Irão, o Qatar e a Turquia, enquanto difama a Arábia Saudita como violadora dos direitos humanos.

Os artigos mencionados na análise do MEMRI têm como pano de fundo a tensão entre a Administração Biden e a Arábia Saudita e os seus aliados, especialmente após vários desenvolvimentos e declarações nos últimos tempos como: a publicação do relatório de inteligência dos EUA sobre o assassinato de Jamal Khashoggi; a declaração de Washington de que a questão dos direitos humanos na Arábia Saudita seria uma questão-chave nas relações EUA-Arábia Saudita; a política de apaziguamento em relação ao Irão e aos seus aliados Houthi, que perpetram terror contra a Arábia Saudita; e o fim do apoio dos EUA à coligação liderada pelos sauditas que lutava no Iémen.
"Ocidentais hipócritas"
O jornalista Muhammad Al-Sa'ed, por exemplo, escreveu na sua coluna no diário saudita 'Okaz que a Administração e os media norte-americanos de esquerda estão numa guerra aberta contra a Arábia Saudita e a apoiar os opositores sauditas. Al-Sa'ed criticou especialmente o Washington Post, onde Jamal Khashoggi costumava escrever.

"Não são [os norte-americanos] que estão a fazer vista grossa ao hábito do Irão de pendurar ativistas e jornalistas em postes de eletricidade?", escreveu o jornalista saudita num artigo chamado "Ayatollah Biden".

"Será que eles se lembram que os opositores turcos são sequestrados em [várias] capitais mundiais e [depois] unidos às suas famílias nas prisões de Erdogan?", acrescentou o jornalista.

O colunista descreve ainda a "campanha de propaganda existencial contra a Arábia Saudita" como uma tentativa de fazer o Reino "abraçar as agendas terroristas" e as ideologias de organizações com as quais os EUA estão atualmente a negociar para reduzir as escaladas.

"Vocês acreditam, sauditas, que aqueles que enviaram os filhos para o Iraque, a Síria, o Afeganistão, a Somália e a Bósnia para lutar em guerras civis agora lutam pela liberdade?", escreve ainda. "Nós conhecemo-los melhor do que vocês, seus ocidentais hipócritas".

No passado dia 8 de março, Al-Sa'ed publicou outro artigo, onde afirmava que o relatório da inteligência sobre o assassinato de Khashoggi era um movimento político dos Estados Unidos com a intenção de apaziguar o Irão.

Outros jornalistas sauditas, como Hamoud Abu Talib, afirmam que os EUA fazem tudo o que fazem para defender o Direito Internacional, mas ao mesmo tempo "violam-no abertamente".

"Vários governos dos Estados Unidos do terceiro milénio adotaram esse padrão primitivo de pensamento que lança uma sombra negra sobre a elite cultural ideológica, científica e independente da sociedade dos Estados Unidos", escreveu Talib numa análise recente.

"Um país cujas universidades de prestígio ensinam Direito Internacional e está a violar de forma flagrante este direito e todas as leis, cartas e acordos [aceites] nas relações internacionais".


"Ao mesmo tempo, a elite política [norte-americana] fala sobre a sua intenção de interferir na soberania, nas leis e nos processos legislativos de outros países, ao serviço de agendas malignas, flagrantes e repugnantes".

Segundo Abu Talib, "a mentalidade política de algumas [figuras] que se juntaram à Administração dos EUA é uma mentalidade de cowboy". Os EUA "pensam e tratam o mundo e os países e povos, da mesma maneira arrogante e bárbara que costumavam adotar no passado".

"Estranhamente, falam como se os países prejudicados [pelas suas ações] fossem repúblicas das bananas como nos países em que os EUA costumavam controlar os governantes e agentes corruptos há umas décadas".

Já para o jornalista Ibtisam Al-Qahtani a Adminsitração norte-americana parece sofrer de 'Alzheimer político', "cujos sintomas são claros nas declarações e nas decisões que emite e às quais se opõe depois".

"A mudança na ação dos Estados Unidos e nos laços mútuos na região mostra que a [Administração] democrática serve como uma plataforma para o lançamento de mísseis iranianos contra a Arábia Saudita, e que o herdeiro [do trono] do Partido Democrata, [Joe] Biden, não vai agir contra o programa nuclear do Irão", escreveu também. "Pelo contrário, será o maior aliado e apoiante, visto que o Irão é especialista em [instigar] lutas, conflitos e caos".

"O governo dos Estados Unidos deve aprender com os acontecimentos, para evitar a repetição dos seus erros como parte de seu complicado [caso de] Alzheimer político", concluiu, segunto o MEMRI.

Se durante a Adminstração Trump parecia que as relações EUA-Arábia Saudita estavam mais harmoniosas, parece que, agora, com a Administração democrática de Joe Biden, Washington e Riade estão num impasse.
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