Imprensa sul-africana revela nova investigação à morte de Samora Machel
Joanesburgo, 12 dez (Lusa) - Uma nova investigação ao acidente aéreo que vitimou o primeiro Presidente de Moçambique em outubro de 1986 foi lançada pelas polícias da África do Sul e de Moçambique, noticia hoje o jornal "Times" de Joanesburgo.
Segundo o jornal, que obteve confirmação de uma fonte da unidade de investigação "The Hawks" e de uma fonte da Presidência sul-africana, a nova investigação foi aberta depois de a polícia ter recebido "novas informações", fornecidas por uma fonte não identificada, em janeiro deste ano, e que incluem documentos inéditos.
Os documentos, salienta o artigo do "Times", voltam a sugerir a hipótese de as autoridades de o regime do "apartheid" terem interferido na rota do "Tupolev TU-134" presidencial moçambicano com recurso a falsos sinais de rádio - conhecidos em aeronáutica como VOR - e que teriam atraído o aparelho para as montanhas dos Libombos, na zona fronteiriça de Mbuzini, onde viria a embater, com um saldo de 34 mortos e nove feridos.
Uma investigação do jornal apurou que o novo inquérito envolve, para além das polícias dos dois países, o Ministério Público sul-africano e a Autoridade de Aviação Civil sul-africana. Segundo o jornal, especialistas teriam já tirado novas fotografias aéreas do local do acidente, que ocorreu em 19 de outubro de 1986, bem como obtido imagens de satélite e leituras de GPS da zona de Mbuzini.
As novas provas em poder das autoridades incluem alegadamente documentos, gravações de conversas e fotografias, segundo apurou a investigação do jornal.
Uma comissão oficial de inquérito que investigou na altura o acidente, presidida pelo juiz sul-africano Cecil Margo e especialistas e pilotos de várias nacionalidades, entre as quais australiana e norte-americana, concluiu que o acidente resultou de erros de navegação e pilotagem, "indisciplina de cockpit" (um termo que significa que as tripulações não seguem as regras obrigatórias durante um voo) e problemas de comunicação entre o aparelho e a torre.
A partir da análise do conteúdo das caixas negras do aparelho, a comissão disse no relatório ter verificado que a certa altura do voo entre Mbala, na Zâmbia, e Maputo, os pilotos perceberam que se tinham desviado da rota, mas que decidiram não a corrigir - situação que se manteve praticamente até ao ponto de queda - por duvidar dos aparelhos de navegação do "Tupolev".
Com base em fotografias tiradas no terreno logo após o acidente, a comissão concluiu também que os pilotos aterraram contra a montanha, convencidos de que estavam no aeroporto de Maputo.
Para essa conclusão contribuíram não só as conversas gravadas pelas caixas negras, como também o ângulo em que o avião cortou várias copas de árvores no trajeto descendente.
Quer Nelson Mandela, quando foi Presidente da África do Sul, entre 1994 e 1999, quer o seu sucessor, Thabo Mbeki, prometeram em várias ocasiões reabrir o inquérito à morte de Samora Machel e de vários políticos, militares e académicos, no fatídico dia 19 de outubro de 1986, mas nunca o fizeram.
AP // HB