Indonésia e Timor acusam Austrália de espionagem

Indonésia e Timor acusam Austrália de espionagem

A Indonésia chamou para consultas o seu embaixador em Camberrra e vai suspender a cooperação com a Austrália nos domínios militar, dos serviços de informações e do controlo da imigração, após a revelação de escutas australianas sobre o telemóvel do presidente Susilo Bambang Yudhoyono. Entretanto, o primeiro ministro timorense, Xanana Gusmão, anunciou que o seu país aguarda, para Dezembro, o resultado de uma arbitragem internacional que pediu sobre a possível nulidade de contratos de exploração de gás e petróleo assinados com a Austrália, devido à espionagem australiana durante o processo de negociações.

RTP com Lusa /
O presidente indonésio, Susilo Bambang Yudhoyono Ahim Rani, Reuters

O presidente indonésio acusou a Austrália de se comportar como nos tempos da “Guerra Fria”, e adoptou uma abordagem musculada para lidar com um caso em tudo semelhante ao das escutas norte-americanas sobre o telemóvel da chanceler alemã Angela Merkel: chamou para consultas o seu embaixador na capital australiana e mandou suspender a cooperação com a Austrália em diversas áreas. Dessa suspensão resultará o congelamento de exercícios militares já agendados e da troca de informações entre os dois países.

O mais preocupante, do ponto de vista australiano, é a suspensão da cooperação no que diz respeito ao controlo de fluxos migratórios, em boa parte alimentados por um intenso tráfico de pessoas em direcção à Austrália. O número de candidatos a asilo que chegam por barco tem-se tornado um tema quase obsessivo no país, sendo a cooperação indonésia um dos poucos mecanismos com que conta o Governo de Camberra para controlar a situação.

Apesar desta resposta fulminante a documentos revelados por Edward Snowden, o presidente indonésio não fechou a porta a um restabelecimento da cooperação entre as duas maiores potências regionais e afirmou, segundo citação de Al Jazeera: “Ainda espero, e tenho a certeza de que a Austrália ainda espera, que possamos trabalhar juntos quando este problema estiver resolvido”.

E,com efeito, o primeiro ministro australiano, Tony Abbott apressou-se a prometer que responderá ao pedido de explicações indonésio “rapidamente, plenamente e cortezmente”, continuando embora a recusar a apresentação de um pedido de desculpas. Acrescentou ainda que tenciona fazer os possíveis para “construir e reforçar a relação com a Indonésia, que é tão importante para ambos os países”.

Por seu lado, Xanana Gusmão afirmou hoje que conta com uma reunião em Dezembro do trio de arbitragem do diferendo entre Timor-Lorosae e a Austrália, causado também por alegações de espionagem australiana. O trio é composto por um juiz britânico indicado por Timor, um juiz indicado pela Austrália e um terceiro indicado por consenso entre ambos. Mas, depois da reunião de Dezembro, Timor deverá apresentar um memorando em Fevereiro e, depois disso, a parte australiana deverá ainda ter um prazo de resposta – tudo bem diferente da rápida resposta indonésia.

No caso de Timor discute-se a possível nulidade do Tratado sobre Determinados Ajustes Marítimos no Mar de Timor, que desde 2007 é instrumento regulador da exploração de gás e petróleo no Mar de Timor, na zona fora da Área Conjunta de Desenvolvimento do Petróleo.

Já desde Abril que Timor notificara a Austrália sobre a sua vontade de fazer anular o Tratado, por ter havido espionagem australiana enquanto este era negociado. Mesmo a anulação do Tratado não impediria, contudo, que a petrolífera australiana Woodside explorasse a plataforma Greater Sunrise, como está estipulado que faça, durante 50 anos, mediante um pagamento de metade das suas receitas de exploração.

O Governo maubere tem manifestado preferência pela construção de um gasoduto que contribua para desenvolver a costa sul do país, ao passo que a Woodside optou pela plataforma flutuante. Timor tem nesta crise poucos meios de pressão sobre a Austrália e nada indica que venha a registar-se uma renegociação das cláusulas acordadas, mesmo que a arbitragem considere viciado aquele acordo.
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