Inferno no Paraíso

Inferno no Paraíso

Goa, a “Pérola do Índico”, é um dos estados mais belos da Índia e destino turístico de eleição tanto para indianos como para estrangeiros do mundo inteiro. Mas a exploração ilegal do minério de ferro e o tráfico de droga estão a pôr em causa a liderança política e a segurança locais. Entre as denúncias nos jornais, o Partido do Congresso Nacional, o principal partido político da Índia, vai aproveitar a comemoração do Jubileu em Pangim, capital de Goa, para demonstrar o seu total apoio aos governantes do estado: a sua Presidente, Sonia Ghandi, deverá participar das celebrações.

Graça Andrade ramos, RTP /
Festa em Goa. São famosas pela livre circulação de droga. gatelessgate.wordpress.com

Yaniv Benaim (alias Atala) é um dos mais conhecidos barões de droga de Goa. Em finais de 2010 o israelita saltou de repente para as páginas dos jornais, após a publicação de um vídeo em que revelava, candidamente, o apoio que recebia da brigada antidroga local.

O vídeo tinha sido publicado na Internet pela namorada sueca de Atala e tornou-se um sucesso instantâneo. O traficante afirmava que os polícias lhe recomendavam que nunca usasse telemóveis em seu nome e para trocar de número várias vezes, já que as chamadas eram vigiadas.

Atala classificava ainda como “máfia” a rede que unia a polícia, os políticos e os cartéis de droga locais. “Ninguém me pode tocar, porque eu pago grandes subornos”, afirmava Atala no vídeo.

Foi imediatamente preso, assim como seis agentes, incluindo o Inspetor-chefe Ashish Shirodkar. Mas Atala continuou a embaraçar as autoridades. Confessou que a polícia lhe tinha vendido 24 quilos de haxixe apreendidos algum tempo antes. Só que o ministro do Interior de Goa, Ravi Naik, havia explicado que a droga desaparecida tinha sido ”comida por formigas-brancas”.

Um caso de insucesso

Goa separou-se dos territórios de Damão e Diu em 1987 sendo então elevada a estado, um dos mais ricos da Índia, com um PIB per capita duas vezes e meia maior do que a média do país. A sua população está calculada em 1 300 000 habitantes.50 anos de droga

Goa transformou-se num conhecido paraíso para o consumo de drogas nos anos 60, sob influência hippie, no rescaldo da anexação do território pela União Indiana. Rapidamente a sua fama superou mesmo a Indonésia, Singapura ou a Tailândia.

No início do século XXI, o Times of India denunciou a existência de um sindicato de droga que, operando a partir do Nepal e do vizinho Paquistão, usava Goa como plataforma não só de consumo mas também de tráfico.

Na altura, substâncias como o ecstasy, o LSD, a cocaína e variantes locais de haxixe circulavam livremente, nas raves noturnas realizadas nas praias e frequentadas não só pelos jovens turistas ocidentais mas igualmente pelos yuppies de Nova Deli, de Cachemira, do Punjab ou de Bombaim.

Apesar de algumas detenções e de investigações às atividades do referido sindicato, as autoridades locais pareciam impotentes para deter o flagelo. E o jornal mencionava ligações entre o submundo e a política para justificar a impunidade dos barões da droga.

10 anos depois, a única mudança é o reconhecimento tácito de que Goa se tornou um dos principais centros do tráfico internacional de droga, além de local de consumo, servindo de plataforma de ligação entre o sudoeste asiático, a África e a Europa.

O episódio de Atala é caricato mas as autoridades goesas afirmam estar a investigar ainda a compra ilegal de mais de 400 propriedades por parte de estrangeiros, na sua maioria russos, como lavagem de dinheiro.

Os russos serão também responsáveis pelo tráfico de droga por via aérea. Mas a polícia afirma que 70% da droga entra em Goa por via marítima, aproveitando a extensa linha costeira e relativamente pouco vigiada.

Aparentemente o destino de Goa ficou traçado quando o combate ao narcotráfico nas costas de Bombaim foi reforçado.


Dotada de grandes belezas naturais, depósitos de minério de ferro, monumentos centenários e uma cultura típica e colorida recheada de festas e de celebrações de três religiões diferentes, Goa tem motivos de atração de sobra.

A maior fonte de rendimento é o turismo, que em 2007 superou a exploração do minério de ferro. Com duas grandes épocas, verão e inverno, Goa atrai sozinha 12% de todas as chegadas turísticas de estrangeiros à Índia. Estes vêm sobretudo da Europa, durante o inverno goês. Já os indianos preferem o verão local, na época das chuvas.

O estado é igualmente um dos mais avançados, com um grau de literacia a rondar os 85%. As suas escolas superiores gozam de boa reputação sobretudo as de engenharia e são procuradas por indianos de outros estados.

Desde 1962 que a língua oficial de Goa é o inglês. Mesmo assim a influência portuguesa mantém-se. Todos os anos, cerca de 400 goeses obtêm passaporte português, sobretudo com o fito de emigrar e trabalhar em Portugal e no Reino Unido e apesar de perderem automaticamente a cidadania indiana.

Muitas vozes críticas levantam-se para denunciar a falta de democracia em Goa. O sistema de “padrinhos” para obter vantagens em questões jurídicas, laborais ou comerciais parece não ter sofrido alterações desde o tempo dos “regedores”, chefes das aldeias nomeados sob domínio português e que eram conhecidos por abusar do poder.

Corrupção

A denúncia da corrupção política é igualmente forte. A elite local tem desde o início fortes ligações às empresas de exploração do minério de ferro. E as principais empresas indianas de exploração de minas são grandes financiadoras dos órgãos partidários de vários estados, incluindo Goa.

O primeiro ministro-chefe (designação na Índia do líder do governo local), a ser eleito em Goa, em 1963, era um magnata do sector. Com o seu partido, o Maharashtrawadi Gomantak Party, dominou o território até à sua morte em 1973, tendo-lhe sucedido a filha, que governou por sua vez até 1979. A década seguinte foi dominada pelo Partido do Congresso mas os anos 90 inauguraram um período conturbado, com 14 governos em 15 anos.

A situação só estabilizou após 2005 mas, o principal partido da oposição, o BJP (Bharatiya Janata Party) tem multiplicado as acusações de corrupção contra os rivais do Partido do Congresso.

Escândalo Mineiro

Nos últimos anos, a procura chinesa por minério de ferro fez aumentar a produção em quase quatro vezes. Segundo a Associação de Exportadores de Minério de Ferro de Goa, saíram do território, em 2010/11, 54,45 milhões de toneladas de minério. Foi a maior quantidade exportada em toda a Índia, superando em quase nove milhões o ano anterior. Em comparação, em 1995/96 só tinham saído de Goa 15,12 milhões de toneladas.

O problema é que toda esta produção não saiu apenas das minas legalizadas. Num total de 336 licenças de exploração mineira em Goa, emitidas ainda pela administração portuguesa nos anos 50, apenas nove foram renovadas, segundo novas regras, em 2007. Destas nove, quase nenhuma obteve a autorização obrigatória do Conselho Nacional para a Vida Selvagem.

A oposição goesa diz que muitas empresas têm estado a usar recibos falsos de minas paradas para escoar a produção e acusa o governo de acobertar o esquema. O Presidente Nacional do BJP, Nitin Gadkari, diz que “muitos dos ministros do atual gabinete estão envolvidos no esquema da mineração ilegal. Vão interferir com a investigação”, acrescenta, pedindo a demissão do governo goês.

Gadkari lembra que o próprio governo central indiano reconhece que terão saído ilegalmente de Goa 18,9 milhões e toneladas de minério de ferro nos últimos quatro anos.
O escândalo Atala foi apenas um dos pretextos para a oposição atacar o atual governo, acusando o ministro do Interior, Naik e o filho deste, Roy, de terem ligações à mafia da droga. Ambos negam, naturalmente, mas, um criminoso detido pela polícia confessou aparentemente, mais tarde, ter sido subornado por um político do sul de Goa, para assassinar Roy.

Recentemente foram ainda descobertas várias ilegalidades na indústria goesa da exploração mineira que provocaram mesmo a formação de uma Comissão de investigação que ameaça suspender a atividade em Goa.

O estado tem cinco por cento das reservas de minério de ferro da Índia mas exporta 40% da produção do país.

Quase todas as ilegalidades são um forte embaraço para os dirigentes goeses. E como a indústria cresceu exponencialmente nos últimos anos e emprega agora milhares de pessoas nas minas e no transporte do minério, a paralisação pode trazer consequências económicas sérias.

A produção mineira está ainda a provocar um enorme problema ambiental. As explorações praticamente selvagens produziram autênticas montanhas de terra, lama e minério de ferro, não tratadas e altamente instáveis, que ameaçam abater-se a qualquer momento sobre aldeias e campos e poluem rios e cursos de água.

Estão calculadas em 750 milhões de toneladas. Mas não há legislação clara sobre o destino a dar-lhes, nem quanto às penalizações dos mineiros que não cumprem a obrigação de voltar a repor a terra nos buracos abertos quando uma mina se esgota.

Celebrações do Jubileu
Goa vai celebrar os 50 anos da intervenção militar da União Indiana com uma manifestação em Campal, Pangim, onde são esperadas cerca de 50 mil pessoas e onde deverá falar Sonia Ghandi, a Presidente do Comité do Partido do Congresso. Presentes igualmente o ministro indiano do Trabalho Oscar Fernandes e o ministro indiano da Defesa A.K.Anthony.

Uma sessão extraordinária do Congresso Nacional está marcada para a meia noite de dia 19. O retrato de T.B.Cunha, considerado o pai do movimento de libertação de Goa será pendurado no Parlamento e uma referência solene ao Jubileu será feita em ambas as casas do Parlamento indiano.

Os militares indianos que primeiro entraram em Goa vão ser igualmente homenageados e deverá ser ainda divulgado um plano de desenvolvimento do estado para os próximos 25 anos.
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