Ingrid Betancourt desiste de reclamar indemnização ao Estado colombiano

Ingrid Betancourt desiste de reclamar indemnização ao Estado colombiano

A dirigente política colombiana Ingrid Betancourt recuou na sua anunciada intenção de processar o Estado colombiano por alegadas responsabilidades no sequestro que sofreu durante seis anos por parte das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Betancourt tinha desencadeado um coro de críticas ao anunciar que pediria ao Estado uma indemnização equivalente a 6,3 milhões de euros.

RTP /
Leonardo Munoz, Epa

O fundamento invocado por Ingrid Betancourt para processar o Estado colombiano era a retirada de parte da segurança pessoal que esse Estado lhe disponibilizava. Em entrevista à estação de televisão colombiana Caracol, Betancourt reiterou a censura por lhe ter sido retirada essa segurança, mas não a conclusão de que iria processar o Estado.

"Retiraram-me os guarda-costas. Se o Estado achava que era tão perigoso, deveria ter-mos deixado (...) e se achavam que era tão perigoso, deviam ter-me retido no posto de controlo e não me ter deixado lá ir". Em Fevereiro de 2002, Betancourt encontrava-se em campanha eleitoral no sul da Colômbia, na região de San Vicente de Caguán, que confina com um território controlado pela guerrilha das FARC.

As acusações de "ingratidão" contra Betancourt

Aparentemente, o governo de Andres Pastrana aconselhou-a a não levar a cabo a sua campanha nessa região insegura, mas a candidata insistiu. Entretanto, malograram-se as negociações que na altura tinham lugar entre o governo e as FARC. Na sequência do malogro e ruptura das negociações, as FARC raptaram Betancourt e conservaram-na em cativeiro, bem como à sua secretária Clara Rojas, durante seis anos.

Todas as posteriores tentativas de intermediação para libertar as reféns em troca de prisioneiros políticos e sindicais reclamados pelas FARC malograram-se igualmente. Como cidadã colombiana e francesa, com dupla nacionalidade, Betancourt beneficiou nessa fase duma atenção e diligências empenhadas do governo francês.

Acabou, no entanto, por ser libertada em Julho de 2008 por uma operação militar do exército colombiano. Desde então tem vidido com a família em Paris, protegida por uma aparatosa segurança que o governo francês tomou a seu cargo custear.

As notícias sobre o milionário pedido de indemnização ao Estado colombiano desencadearam um clamor indignado nos círculos políticos de Bogotá. O vice-presidente Francisco Santos falou por si próprio e pelo presidente cessante, Álvaro Uribe, classificando a reclamação de Betancourt como "um acto de cobiça, ingratidão e oportunismo que merece o repúdio dos colombianos e da opinião munidal". E acrescentou, em declarações citadas pelo diário espanhol El Pais, que a indemnização seria "um prémio à ingratidão e à desfaçatez". Também o dirigente da oposição Gustavo Petro condenou o pedido de indemnização.

Perante a veemência das reacções negativas, Betancourt declarou-se, na citada entrevista à televisão Caracol, "arrependida" por ter levantado a questão da indemnização e declarou que "nunca, nunca, pensámos em atacar quem nos libertou".

Uma polémica inoportuna para o governo

A polémica sobre a indemnização pretendida por Betancourt surge entre a eleição e a tomada de posse do novo presidente, Juan Manuel Santos, antigo ministro da Defesa do governo de Uribe e, como tal, figura decisiva da campnha anti-FARC. Neste interregno, as FARC intensificaram as suas acções com  um saldo, só no dia de ontem, domingo, de 22 pessoas mortas - 10 soldados e 12 guerrilheiros das FARC.

O exército destacou a importância das perdas infligidas às FARC, por se tratar de membros da segurança do máximo dirigente da guerrilha Alfonso Cano. Entre eles contava-se a comandante Magaly Grannobles, considerada uma das personalidades decisivas das FARC.

O facto de o grupo de guerrilheiros mortos não ter retirado nem evitado o confronto directo com uma importante unidade do exército ao ver atacado o seu esconderijo, constitui um comportamento excepcional, a indicar, segundo o correspondente da BBC, que Alfonso Cano poderia estar próximo e necessitar de tempo para escapar.

As FARC são a principal organização da guerrilha colombiana, que combate desde 1960 e conta actualmente cerca de 8.000 militares.
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