Itália ameaça controlar bases usadas contra a Líbia

Itália ameaça controlar bases usadas contra a Líbia

Numa reunião hoje realizada de ministros dos Negócios Estrangeiros europeus, destacaram-se especialmente as objeções do búlgaro Boïko Borissov e do italiano Franco Frattini à operação em curso contra a Líbia. Frattini ameaçou mesmo impor um controlo da Itália sobre as bases aéreas italianas até aqui utilizadas para a operação e a Noruega proibiu os seus aviões de realizarem missões enquanto não for claro quem manda.

RTP /
Manifestante grego contra a guerra na Líbia queima bandeira europeia Manolis Pakias, Epa

A reunião decidiu o reforço de sanções contra a Líbia, mas o consenso a esse nível foi insuficiente para dissimular as divergências que se aprofundam sobre a operação propriamente militar. O chefe da diplomacia búlgaro Boïko Borissov apontou o dedo a interesses da indústria petrolífera, que estariam a ocasionar, segundo citação da Agência France Press, uma "aventura".

Menos incisivo, o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle, não deixou contudo de observar que as objeções de última hora da Liga Árabe, pela voz do seu presidente Amr Moussa, confirmavam as reservas alemãs a uma operação com o carácter que esta está a assumir: "Infelizmente, constatamos que tínhamos razões para estar preocupados".

Matar ou não matar Kadhafi

Em relação ao destino do ditador líbio Muamar Kadhafi, registam-se também declarações desencontradas dos dirigentes europeus. O chefe da diplomacia britânica, William Hague, insinuou, depois do bombardeamento do quartel-general de Kadhafi, que este poderia legitimamente ser tomado como alvo de novos ataques aéreos.
Também o ministro da Defesa, Liam Fox, respondia no mesmo sentido a perguntas da BBC.

Ambos contradiziam desse modo o general David Richards, chefe de Estado Maior do Exéricto britânico, que se referira à hipótese de uma eliminação de Kadhafi em termos categóricos: "Isso não é autorizado pela resolução da ONU e não vou discutir mais [sobre o assunto]".

Já o primeiro-ministro britânico, David Cameron, mais em linha com Juppé, prometeu que o Reino Unido "se cingiria estritamente ao mandato da ONU. E acrescentou, também segundo a AFP, que a resolução do Conselho de Segurança "não fornece a base legal para demitir o coronel Kadhafi das suas funções por meios militares".

Por seu lado, também o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Alain Juppé, admitiu que a resolução do Conselho de Segurança não dá cobertura ao derrubamento de Kadhafi.

Itália ameaça tomar conta das bases aéreas

Muito mais longe foi o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Franco Frattini, que hoje reclamou uma assunção do comando da operação pela NATO como tal, ameaçando com uma revisão da participação italiana caso isso não suceda: "Se a NATO não garantir rapidamente  a coordenação das operações militares, temos de estudar uma forma de a Itália assumir, ela própria, a responsabilidade do controlo das bases [aéreas]".

E acrescentou, ameaçador: "Se há uma multiplicação de comandos, a Itália tomará a responsabilidade de controlar ela própria a utilização das bases aéreas".

O ministro italiano do Interior, Roberto Maroni, apelou aos EUA a que não se imiscuam nos assuntos da Líbia e a que deixem o assunto nas mãos dos europeus: "Devíamos assegurar-nos de que a Líbia não se torne um novo Afeganistão, mas para isso é preciso que o Americanos se acalmem".

A Noruega tomou já uma outra medida drástica que foi a de instruir os seus seis F-16 destacados para a missão no sentido de permanecerem em terra até que se esclareça quem comanda a missão. Segundo a ministra norueguesa da Defesa, Grete Faremo, "a sua [dos aviões] participação na operação terá de esperar novas ordens e pressupõe que se estabeleça um sistema de comando. Isso levará vários dias".

Luís Amado mostra desconforto

O ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, tomou devida nota desta cacofonia de declarações de diversos dirigentes europeus dos 27 Estados-membros da União Europeia reunidos em Bruxelas: "Há de facto algumas tensões relativamente à forma como a UE se deve posicionar relativamente à crise líbia", acrescentanado que houve, "apesar de tudo, um compromisso".

E justificou o consenso alcançado: "As conclusões refletem um compromisso relativamente ao que a UE pode fazer. É óbvio que será sobretudo na área humanitária que a UE tem uma missão a desempenhar, assumida pela generalidade dos membros do Conselho, e é sobretudo nesse domínio que a UE vai concentrar-se nesta fase".

Relativamente à participação portuguesa, Amado lembrou: "Portugal sempre disse que, tendo apoiado a aprovação da resolução no Conselho de Segurança, no quadro das responsabilidades que tinha, não participaria na implementação do segmento que envolve operações militares; participaria quer no controlo do embargo de armas, quer nas operações humanitárias".

O mal-estar da diplomacia portuguesa, foi ainda manifestado pelo ministro, ao confessar: "Gostaria que a NATO não se envolvesse expressamente numa situação como esta".

Obama e Clinton debaixo de fogo

Na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, várias vozes se levantaram contra a política de Obama e Clinton, submetendo-os a um fogo cruzado.

Por um lado, o congressista democrata Michael Honda denuncia que o Pentágono lançou os ataques aéreos por considerações relativas à segurança energética,  o que é particularmente claro quando se sabe que a Líbia dispõe das sétimas reservas mundiais de petróleo". Assim, a mensagem enviada ao mundo é, segundo Honda, que "a América faz pouco caso dps direitos humanos e da liberdade dos povos em países como a República Democrática do Congo, o Oeste do Sudão ou da Costa do Marfim, que não têm recursos energéticos cruciais".

A congressista republicana Candice Miller criticou, como Honda, o facto de a operação ter sido lançada sem autorização da Câmara dos Representantes e o seu correligionário John Barrasso perguntou, além disso: "Qual é o objetivo? Qual é o nosso papel?", sugerindo a falta de estratégia que vem sendo assacada à coligação atacante.
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