Jordi Savall diz que União Europeia "não pode virar as costas" aos catalães
Porto, 04 out (Lusa) - O compositor espanhol Jordi Savall considerou hoje que a União Europeia "não pode virar as costas" aos catalães, considerando que sem a teimosia do Governo espanhol o resultado do processo participativo da Catalunha seria igual ao da Escócia.
No dia em que regressa ao palco da Sala Suggia da Casa da Música, no âmbito do ciclo "À Volta do Barroco", o maestro e compositor catalão, que na quinta-feira renunciou ao Prémio Nacional de Música de Espanha, respondeu aos jornalistas sobre a situação atual espanhola, concretamente sobre o processo participativo que decorre no domingo na Catalunha.
"Creio que se o Governo espanhol tivesse sido mais inteligente e não tivesse sido tão teimoso, na Catalunha ia acontecer a mesma coisa que na Escócia porque há muitos catalães que apesar de gostarem da cultura da Catalunha teriam medo de tudo o que representa cortar com a situação atual", sublinhou, criticando "a lenha na fogueira" que foi colocada neste processo pelo poder central.
Na opinião de Jordi Savall a questão da União Europeia só "pode ser um problema se não houver vontade política" e foi perentório: "a União Europeia não pode virar as costas a seis milhões de pessoas que são seguidores da Europa e da democracia e que são uma parte muito importante da cultura europeia".
O musicólogo considera por isso que "há possibilidades de encontrar soluções", uma vez que "não há um precedente assim" no panorama europeu.
"O único que conhecemos é o Kosovo. Claro que não há uma guerra na Catalunha. Há sim uma guerra psicológica que também é muito dura", comparou.
Na opinião de Jordi Savall, a Constituição espanhola "foi feita perante uma situação anómala" e não com a liberdade de todos.
"Por mais que esta Constituição diga que uma região de Espanha não pode fazer um referendo, ninguém pode impedir o direito de se saber o que uma comunidade pensa. O que queremos é simplesmente saber é quantos catalães são a favor da independência e quantos não", observou.
O compositor - que devido à sua agenda de concertos ainda não sabe se no domingo vai votar em Paris ou em Milão - concordou com a ideia de que há um abuso de poder por parte do Governo espanhol já que "não há nenhuma vontade de sentar-se à mesa e encontrar uma solução porque a Constituição foi alterada quando lhes foi conveniente".
"Ninguém pode dizer o que aconteceria com a Catalunha independente mas todos sabemos que os países da Europa que funcionam melhor são os países pequenos porque as pessoas ocupam-se das suas coisas", defendeu.
O porta-voz e conselheiro da Presidência do Governo catalão confirmou hoje que o executivo regional vai manter o processo participativo de domingo apesar da suspensão do Tribunal Constitucional, que admitiu um recurso do Governo espanhol.
"O Governo mantém o processo participativo, que é uma forma de liberdade de expressão. Não se pode proibir o que não se faz. O processo participativo está quase preparado", anunciou Francesc Homs aos jornalistas na sede da Generalitat (Governo regional catalão) depois da reunião do Conselho de Governo, e depois de ser conhecida a decisão do Tribunal Constitucional (TC) aceitar a tramitação do recurso do Governo espanhol à consulta de domingo.