Leão XIV assinala um ano de pontificado a desafiar Trump e a recentrar a Igreja

Leão XIV assinala um ano de pontificado a desafiar Trump e a recentrar a Igreja

O Papa Leão XIV assinala esta sexta-feira um ano de pontificado marcado por um confronto inédito com o presidente dos EUA, Donald Trump, fixando o tom de um papado que combina prudência institucional com afirmação moral.

Cristina Sambado - RTP /
Cesare Abbate - EPA

A tensão com Trump, que o acusou de ser fraco e “demasiado liberal” – a que Leão XIV respondeu que "não tem medo" dele - após críticas papais a ameaças contra o Irão, tornou-se o episódio mais mediático dos primeiros 12 meses, com o Papa a insistir que a sua missão é “proclamar o Evangelho, não ser político”.

O jornal digital Sete Margens recorda que Leão XIV não hesitou a afirmar que as que as políticas de imigração dos EUA vão contra os ensinamentos da igreja e escolheu um imigrante que entrou clandestinamente nos EUA como bispo da Virgínia Ocidental.

O Papa também não se inibiu de condenar a “diplomacia da força” após as operações militares na Venezuela e no Irão, defendendo o diálogo como o único caminho para a paz justa.

O embate atingiu o auge há três semanas, quando Donald Trump rotulou publicamente Leão XIV de “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. 

Na resposta, o bispo de Roma procurou descolar do lugar em que Trump o pretendeu colocar – um rival – esclarecendo não ser um político e não pretender entrar em debate com ele. “Não lidamos com política externa na mesma perspetiva que ele talvez a entenda; eu acredito na mensagem do Evangelho, como um pacificador”
Um ano de pontificadoEleito a 8 de maio de 2025 na quarta votação do conclave, o antigo cardeal norte-americano Robert Francis Prevost — primeiro Papa dos EUA e primeiro agostiniano — surgiu como candidato de compromisso, com experiência curial e forte percurso missionário no Peru.

Logo na primeira semana, Leão XIV marcou o estilo: na missa inaugural afirmou que a Igreja deve ser “farol que ilumina as noites do mundo” e, dias depois, lembrou aos funcionários do Vaticano que “os papas passam, mas a Cúria permanece”, sinalizando uma governação mais institucional do que carismática.

Ao longo do ano, Leão XIV procurou equilibrar continuidade e correção face ao legado do seu antecessor, Papa Francisco, mantendo a orientação pastoral e social, mas com maior ênfase na ordem interna e na estabilidade.

Entre as principais reformas, destacou-se a reorganização da Cúria Romana com novos regulamentos, reforço do papel da Secretaria de Estado (a diplomacia do Vaticano) e aposta na coordenação interdepartamental, num modelo descrito por analistas como “reforma por absorção”, mais gradual e menos disruptiva.

No plano doutrinário, Leão XIV reafirmou posições tradicionais — contra o aborto, a eutanásia e a ordenação feminina — e publicou textos como Una caro, defendendo a monogamia, ao mesmo tempo que procurou reduzir conflitos internos ao evitar debates prolongadosAtento aos grandes conflitos globais A agenda internacional revelou um Papa atento aos grandes conflitos globais: na Ucrânia, apelou a “negociações para uma paz justa”; no Médio Oriente, condenou a guerra e denunciou a “ilusão de omnipotência” dos líderes; e, de forma transversal, afirmou que “Deus rejeita as orações de quem promove conflitos”.

A visita a África, em abril, foi um dos momentos altos do pontificado, com particular impacto em Angola, onde criticou a “lógica extractivista” e alertou que o país “não deve ser tratado como uma mina a céu aberto”, numa intervenção que ecoou para além do campo religioso.

No campo emergente da tecnologia, Leão XIV posicionou-se como uma das vozes morais sobre a inteligência artificial, alertando para os riscos da Quarta Revolução Industrial e defendendo que a inovação deve respeitar “a dignidade humana, a justiça e o trabalho”.

Apesar da imagem de moderado, o Papa não escapou a críticas: organizações de vítimas de abusos questionam decisões passadas, teólogos progressistas apontam falta de abertura em temas como o diaconato feminino, e setores conservadores acusam-no de ambiguidade pastoral.

Ainda assim, Leão XIV consolidou-se como uma figura de mediação num mundo fragmentado, com capacidade para dialogar entre correntes internas da Igreja e entre blocos geopolíticos, sustentado numa identidade singular: norte-americano de nascimento, latino-americano por experiência e romano por funçãoAs diferenças com Francisco
Desde o início do pontificado, que se tornou óbvio que Leão XVI não ia seguir os passos do seu antecessor, o Papa Francisco.

Enquanto Francisco preferiu viver na Casa Santa Marta, Leão escolheu regressar ao Palácio Apostólico; se na Quinta-feira Santa Francisco ia sempre a uma cadeia e lavava os pés a 12 reclusos, Leão decidiu, neste primeiro ano, lavar os pés dos padres da diocese de Roma; e se para Francisco não existiam férias, Leão já deve ter passado mais tempo em Castel Gandolfo só nestes 12 meses do que o seu antecessor ao longo de 12 anos de pontificado.

Adotou também uma postura bastante mais conciliadora em relação à Missa Tridentina, tendo autorizado a celebração da eucaristia segundo este rito tradicional na Basílica de São Pedro, naquele que foi visto por muitos como um gesto para diminuir as tensões cismáticas na Igreja Católica.

"Uma coisa Leão XIV já provou ao longo deste ano: é possível dar continuidade a quem nos antecede e simultaneamente trilhar o próprio caminho, estar preso a uma raiz e não deixar de ser livre, reconhecer o valor da tradição e mesmo assim ser profeta", realça a Sete Margens num artigo em que descreve o primeiro ano do papado de Leão XIV.

c/agências 

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