Leão XIV com imigração e discurso inédito no parlamento na agenda
O Papa Leão XIV chega a Espanha no sábado para uma "viagem apostólica" com uma carga política inédita, que inclui um discurso no parlamento nacional e dois dias dedicados à imigração e ao fenómeno das `pateras`.
Esta é a primeira visita de um Papa a Espanha em 15 anos e Leão XIV vai concretizar o desejo do antecessor, Francisco, de ir às Canárias, ilhas que lidam diariamente com a chegada de migrantes em embarcações precárias oriundas de África conhecidas como `pateras` ou `cayucos`.
A visita de Leão XIV e este foco na imigração coincide ainda com um processo extraordinário de regularização de imigrantes lançado pelo Governo do socialista Pedro Sánchez, que a Igreja Católica reivindicou e apoiou publicamente e que desencadeou um confronto entre os bispos do país, incluindo a cúpula da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), e o terceiro maior partido no parlamento nacional, o Vox, de extrema-direita.
Durante os dois dias que estará nas Canárias, em 11 e 12 de junho, Leão XIV vai encontrar-se com imigrantes e com organizações não-governamentais (ONG) e outras entidades e autoridades que resgatam e acolhem pessoas que viajam nas `pateras`.
Um dos momentos mais simbólicos será a ida ao porto de Arguineguín, na ilha de Gran Canária, "conhecido como o cais da vergonha em 2020", no início de um novo pico de `pateras` com direção às Canárias, "pela forma como se geriu a realidade que ali se viveu" naquele ano, com milhares de pessoas amontoadas e à intempérie no local dias a fio, explicou esta semana numa conferência de imprensa `online` uma das coordenadoras da visita de Leão XIV às ilhas, Enélida Hernández.
"Queremos que esse porto deixe de ser o cais da vergonha para ser o porto da esperança" e mostrar "a realidade caritativa" atual, com "milhares e milhares de pessoas que foram acolhidas, foram integradas e fizeram a sua vida em conjunto com o resto dos habitantes das Canárias", acrescentou.
Cerca de 1.800 pessoas imigrantes vão estar neste porto para receber o Papa, serão ouvidos vários testemunhos e Leão XIV fará uma homenagem aos mortos no mar e a quem salva vidas, como os pescadores das ilhas. Será ainda benzida uma cruz feita com madeira de `pateras`.
Noutro porto, em Tenerife, Leão XIV celebrará uma missa com `pateras` ancoradas no mar, que serão o cenário do altar da celebração, e em que serão feitas orações em vários idiomas, incluindo alguns falados na costa ocidental de África, de onde saem estas embarcações.
Em 2025, segundo dados oficiais, chegaram 17.788 pessoas em `pateras` às Canárias, depois dos recordes de 2023 e 2024, quando foram 39.910 e 46.843, respetivamente. Outras 3.100 morreram no mar no ano passado, segundo a ONG Caminando Fronteras, que classifica a "rota das Canárias" a rota de imigração mais mortal do mundo.
Leão XIV passará também por Barcelona e Madrid e será na capital espanhola, logo nos primeiros dias da visita, que o Papa irá ao parlamento nacional de Espanha e fará um discurso inédito perante os deputados e senadores de um país com um discurso político muito polarizado.
Cinco deputados, quatro do Podemos e o único do Bloco Nacionalista Galego (BNG), ambos de esquerda, anunciaram que não vão estar na sessão.
A bancada do Vox confirmou a presença, depois de semanas em confronto com os bispos espanhóis por causa da imigração.
Os dirigentes da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), além de apoiarem a regularização extraordinária de imigrantes, têm criticado os discursos anti-imigração de dirigentes do Vox e os recentes acordos desta força de extrema-direita com o Partido Popular (PP) para coligações de governo em regiões autónomas, que incluem a defesa de um princípio de "prioridade nacional" para aceder a serviços e apoios públicos. O objetivo, assumido pelo Vox, é discriminar os imigrantes.
A imigração e a regularização dos fluxos migratórios "é um assunto maior que precisa de referências éticas que se chamam dignidade humana e bem comum", disse recentemente o presidente da CEE, Luis Argüello, questionado sobre ataques do Vox a vários bispos.
Sobre o risco de a visita do Papa se transformar numa batalha ideológica, o bispo Luis Argüello disse acreditar que os discursos de Leão XIV "serão mais elevados e mais profundos" para que "as possibilidades de manipulação interessada sejam menores".
"Mas fazem parte da vida", reconheceu.
Entre Madrid e as Canárias, o Papa passará por Barcelona, em 09 e 10 de junho, neste caso, com o foco da viagem colocado na arte de Antoni Gaudí.
O Papa celebrará uma missa na Sagrada Família, onde inaugurará também formalmente a Torre de Jesus Cristo, o ponto mais alto da basílica desenhada pelo arquiteto catalão.
Com a conclusão desta torre, no início deste ano, a Sagrada Família passou a ser também a igreja mais alta do mundo. Por outro lado, em 10 de junho, assinala-se o centenário da morte de Gaudí.
Durante toda a viagem, o Papa terá ainda encontros institucionais, com honras de Estado, incluindo com os Reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, e com o primeiro-ministro, celebrará várias missas no centro de Madrid e em estádios e terá outros encontros mais de âmbito social, com pessoas em situação de sem-abrigo, ONG e presos.
A CEE admitiu também encontros do Papa com vítimas de abuso sexual no seio da Igreja em Espanha que, porém, só deverão ser noticiados `a posteriori`.