Leão XIV virá "de certeza" a Fátima, falta avaliar agenda
O núncio apostólico em Lisboa afirmou que Leão XIV virá, "de certeza", ao Santuário de Fátima, mas tudo vai depender da agenda das viagens do líder da Igreja Católica.
"Quando estive com ele, falei sobre Fátima", disse, em entrevista à Lusa Andrés Carrascosa Coso, recordando a resposta dada por Leão XIV: "Eu vou".
Agora, "quando vai ser, vai depender da agenda do Papa e ela nunca é simples e depende de tantas coisas", mas "que [ele] vai vir, vai vir, pode ter certeza", disse à Lusa o representante da Santa Sé em Portugal.
Nomeado no início do ano, o primeiro espanhol nomeado núncio em Portugal na história da Igreja aterrou em Lisboa dias depois da passagem da depressão Kristin pelo centro do país e foi logo confrontado com a situação.
"Eu cheguei aqui em plena crise" e "no mesmo dia da minha chegada, o bispo de Leiria [que é também presidente da Conferência Episcopal Portuguesa] falou-me dos desastres que vieram de lá e convidou-me" para visitar a zona, coisa que fez depois de apresentar as credenciais ao Estado português.
Visitou vários locais, deu apoio à população e procurou estar presente no trabalho da Igreja local, para que as pessoas "percebam que o representante do Papa está próximo e se interessa".
É esse "o meu papel, ser um representante presente", justificou.
Desde então, tem-se reunido com bispos, movimentos e fiéis católicos, uma política de abertura que rompeu com a tradição dos núncios em Portugal, normalmente mais distantes.
"Cada um tem o caráter tem que tem" e "eu tenho o meu, sempre tive uma maneira de ser núncio com proximidade às pessoas e às situações", justificou o diplomata, em português, a língua que aprendeu no Brasil.
Apesar de "em Portugal se dizer que, `de Espanha nem bom vento nem bom casamento`, fui muito bem acolhido", disse, entre sorrisos, Carrascosa Coso, que prometeu uma "atitude de escuta" e de "caminho conjunto" com a hierarquia católica portuguesa e com os fiéis.
Um "núncio é um representante do Papa, mas é um pouco como um irmão maior que acompanha e que em tantos momentos pode ser uma ajuda", resumiu o diploma, que compara Portugal com o Equador, onde esteve os últimos cinco anos.
A "Igreja na América Latina é mais jovem, com as virtudes e os defeitos que isso implica" e, "na Europa, há uma Igreja um pouco mais cansada, sem essa vitalidade da juventude", mas, "como Igreja, a grande questão é ir ao evangelho, anunciar o Evangelho de Jesus Cristo".
"Aqui temos umas tradições de séculos, mas se ficarmos somente nas tradições de séculos, a secularização vai levar tudo" na sociedade contemporânea, avisou o núncio, que recomenda aos crentes um esforço para "a fé ganhar raiz" na vida concreta.
Depois, os media acabam por dar "muito menos atenção às coisas que dizem os bispos" ou a Igreja e deu como exemplo o alerta da Comissão Nacional de Justiça e Paz portuguesa, nas vésperas das eleições presidenciais.
"Gostei muito do comunicado, que avisava, com muita serenidade, que temos de fazer atenção à não utilização da religião para promover o discurso de ódio", disse.Media dá menos atenção a Leão XIV porque ele não grita
O núncio apostólico em Lisboa afirmou ainda que os media não estão a dar tanta atenção ao Papa Leão XIV como a Francisco, porque tem um estilo diferente, "não grita", apesar de ter discursos igualmente "fortes e lúcidos".
Na entrevista à Lusa, Andrés Carrascosa Coso, que foi colega de universidade do então sacerdote Robert Prevost, lamentou que a opinião pública esteja desatenta sobre o que tem dito o Papa.
Os "media não estão dando tanta importância às palavras de Leão XIV, porque não grita", ao contrário do que sucedia com o estilo de Francisco e a "maneira como se expressava atraía os media", explicou o núncio, nomeado em janeiro para Portugal.
O "Papa Leão fala com grande serenidade mas isso não faz notícia", apesar de estar a "dizer coisas enormes", nas suas intervenções públicas.
"Não estou a ver tantos líderes que falem tão claro, sem ofender, sem faltar à claridade e sem faltar à verdade" e "ele está a falar coisas muito fortes" e "assertivas" sobre os problemas do mundo, considerou Carrascosa Coso, que recordou a recente visita papal.
Leão XIV "falou coisas muito fortes na Turquia e no Líbano, mas quem seguiu esses temas? Os nossos media não estão a dar atenção", disse o arcebispo espanhol, que apontou mais uma diferença de estilo do que de substância.
"Percebo que não está resultando interessante" para os jornalistas porque Leão XIV "não é uma pessoa de gestos impactantes, é uma pessoa que fala com muita serenidade", mas também não foge ao confronto, como sucedeu no passado.
Quando era apenas cardeal, Robert Prevost reagiu às alegações do vice-presidente norte-americano JD Vance sobre a fé católica, hierarquizando o amor cristão pelo próximo.
"É uma explicação que não tem sentido na doutrina católica" e "lembro-me que o cardeal Prevost respondeu no Twitter com um texto muito simples: `senhor vice-presidente, o senhor está errado`", recordou Carrascosa Coso.
"Ele sentiu que deveria dizer a um católico que isso não é doutrina católica, mesmo que tenha sido eleito vice-presidente" dos EUA e agora, como Papa, "está a falar com muita clareza, mas o mundo não está escutando".
Agora, em abril, segue-se a primeira viagem apostólica definida durante o pontificado de Leão XIV, que inclui a Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
"Numa viagem faz diferentes Áfricas e quatro línguas", resumiu Carrascosa Coso.
Começa pela Argélia, "porque é a terra de Santo Agostinho e ele é agostiniano" e Leão XIV aproveita para promover o diálogo com o norte de África.
"O Magrebe é uma região particular, porque foi uma das primeiras zonas onde a cristandade foi mais forte, mas que, depois, o islão varreu" na sua conquista, recordou o núncio, salientando que, hoje, a região é de transição e de convívio inter-religioso.
"Há um erro grande que é achar que todos os muçulmanos são radicais terroristas", disse, dando o exemplo do "Magrebe, uma sociedade normal onde há uma relação saudável entre muçulmanos, cristãos e judeus".
E "quando começa a haver terrorismo, com esse extremismo e radicalismo, o maior número de vítimas são os muçulmanos", recordou.
Depois, nos Camarões, Leão XIV não se vai limitar a visitar a capital e vai à "parte anglófona de um país partido numa guerra civil", procurando respeitar as diferentes culturas do continente.
Finalmente, Leão XIV vai terminar a visita "num país lusófono", Angola, e no único país que "fala espanhol", a Guiné Equatorial.
"É uma forma de percorrer África numa viagem", disse.Francisco lançou debate sobre reformas, Leão XIV tem de tomar decisões
O núncio apostólico em Lisboa confia que Leão XIV irá tomar as decisões pendentes sobre as reformas pedidas por vários setores católicos, num debate aberto pelo Papa Francisco e que divide a Igreja entre conservadores e progressistas.
Leão XIV "vai decidir" e vai colocar em prática a ideia da sinodalidade", uma referência ao processo iniciado por Francisco para ouvir as bases da Igreja católica sobre temas como a participação dos leigos, a comunhão para divorciados, as relações homossexuais, o celibato dos padres ou o papel das mulheres, afirmou à Lusa Andrés Carrascosa Coso, que foi nomeado em janeiro representante do Vaticano em Portugal.
Os dois papas "são muito diferentes no caráter, mas não tão diferentes no resto", explicou o arcebispo espanhol, que foi colega de curso de Leão XIV.
"Este Papa eu conheço bem: tem uma boa capacidade de decisão, mas não decide sem ouvir, sem refletir e sem orar sobre aquilo que deve fazer", afirmou.
Na Igreja e na sociedade, as "franjas radicais que querem impor visões mais radicais", mas o "Papa Francisco sempre disse que a sinodalidade não é um parlamento", já que a decisão final cabe ao líder católico.
O processo sinodal constitui numa auscultação das bases das estruturas da Igreja até chegar ao topo da hierarquia e foi iniciado na Alemanha, tendo sido estendido a todo o mundo católico.
"Ficou muito claro que não é uma Igreja que impõe aos outros os conteúdos dogmáticos ou disciplinares que podem ser determinados" pelo sínodo e, "no final, será o Papa a conduzir a direção de toda a Igreja".
Alguns movimentos ultraconservadores, como a Comunidade São Pio X, tem recusado qualquer mudança e defendem o regresso à missa em latim, prévia ao Concílio Vaticano II, e incorrem no risco de excomunhão e de cisma.
"A missa tridentina [em latim] é autorizada em certos casos", mas existir um "grupo que quer ordenar bispos sem autorização do Papa, isso já representa um cisma que leva à excomunhão", avisou o núncio.
Sobre o papel dos divorciados na Igreja, o Vaticano "já definiu as regras", disse Carrascosa Coso, salientando que "cada bispo deve avaliar os casos individuais".
"Há situações muito diferentes: uma coisa é quebrar a relação ou destruir a família e outra coisa são pessoas que foram abandonadas sem culpa nenhuma", exemplificou, salientando que alguns dos temas polémicos já estão resolvidos "caso a caso".
Há quem defende que "todo o mundo pode fazer o que quiser, mas a Igreja não pode aceitar" isso.
Contudo, em paralelo, têm aumentado os casos de casamentos declarados nulos pela Igreja, com regras mais tolerantes decretadas por Francisco.
Ao longo dos seus 46 anos de sacerdócio, "vi nascer muito matrimónio" que "não tinha condições para ser válido aos olhos de Deus", recordou o diplomata.
Sobre o celibato dos padres, a decisão, "para já", também está tomada e não é possível, até porque a consagração absoluta de cada religioso "dá uma liberdade total para servir", que não é condicionada pela existência de uma família.
Em relação ao papel das mulheres, Carrascosa Coso salientou que tem havido uma grande abertura a novos papéis como leigas, mas ainda não está a ser discutida a sua ordenação sacerdotal.
"Já houve comissões" com peritos que concluíram que o modelo de funcionamento da Igreja não está preparado para essa mudança, explicou o núncio.
"Entendo a crítica de que [a decisão de não ordenar mulheres) é mais sociológica que teológica", mas "o Papa ainda não decidiu mudar de posição" da Igreja.
E dá o caso da Igreja Anglicana, cuja decisão de nomear mulheres bispos está a causar saída de fiéis e religiosos em muitos países africanos, como a Nigéria ou o Gana.
Basta ver "a quantidade de padres que estão a deixar a Igreja Anglicana para entrar na Igreja Católica como leigos", disse o diplomata.
c/Lusa