Legisladores paraguaios rejeitam declarações de Lula sobre a Guerra da Tríplice Aliança
Deputados e senadores paraguaios rejeitaram declarações do Presidente brasileiro, Lula da Silva, que defendeu as despesas militares do país com o argumento de que o Brasil foi invadido pelo Paraguai na Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870).
"Lula, estás a falar com demasiada ligeireza da maior tragédia da nossa história, do maior genocídio do nosso continente", afirmou o presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, da Asociación Nacional Republicana (ANR), ou Partido Colorado, no poder, citado num comunicado institucional divulgado este domingo.
Latorre indicou que a Guerra da Tríplice Aliança, que opôs o seu país à Argentina, ao Brasil e ao Uruguai, provocou a perda de 60% da população local e de 90% da sua população masculina, "teve início com a intervenção militar do Brasil no Uruguai" e que o conflito "deixou o Paraguai devastado".
"Uma vez disseste que ias acabar com a guerra na Ucrânia `com uma cervejinha`. Hoje voltas a falar com ligeireza sobre conflitos armados na América; se te acabaram as `jabuticabas` [referência jocosa em relação a alguma coisa que só pode acontecer no Brasil], podemos enviar-te algumas. Nós conhecemos o verdadeiro valor da paz, porque a pagámos com o nosso sangue", concluiu o político.
Lula defendeu na última sexta-feira que as forças armadas brasileiras devem ser "bem preparadas e treinadas" como força de dissuasão porque, segundo disse, "há loucos pelo mundo que querem fazer a guerra", ao mesmo tempo que defendeu a necessidade de possuir "poderio armamentista" para "falar de paz".
"Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, um dia, o Paraguai decidiu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não ia dar em nada, durou cinco anos", afirmou em seguida o Presidente.
As declarações de Luiz Inácio Lula da Silva suscitaram também a reação da senadora da oposição paraguaia Celeste Amarilla, que indicou este domingo na rede social X que teria pedido a Lula "que devolvesse o canhão cristão e os arquivos roubados do Paraguai" durante a guerra, mas lembrou que Lula "também não devolveu a casa de praia que recebeu como suborno" no Brasil.
Também o ex-guarda-redes da seleção paraguaia José Luis Chilavet rejeitou os termos de Lula na rede social X, apelando aos brasileiros para que votem nas eleições presidenciais de outubro em Flávio Bolsonaro e não no Presidente brasileiro, que, segundo afirmou, "não sabe nada de história e, como todo o esquerdista corrupto, mente".
O deputado da oposição Rubén Rubín também se pronunciou este sábado, repudiando as declarações e acusando Lula de tentar "distorcer a história".
"Um povo que esquece a sua história permite que outros a reescrevam à sua conveniência. E é precisamente isso que Lula tenta fazer hoje", afirmou na X.
Já a senadora da oposição Esperanza Martínez referiu no sábado, na mesma rede social, que as declarações de Lula são "resquícios de imperialismo que tentam ocultar uma guerra criminosa e uma política histórica de domínio e abuso por parte da elite brasileira" contra o seu país.
Da mesma forma, o senador da oposição e historiador Eduardo Nakayama afirmou na sexta-feira na X que Lula "esqueceu-se" de mencionar que, antes de o Paraguai iniciar a chamada campanha militar do Mato Grosso, na qual invadiu o sul do Brasil, "o exército imperial brasileiro invadiu o Uruguai", o que desencadeou a guerra "mais sangrenta" da história da América do Sul.
O Brasil invadiu o Uruguai em 1864 para depor o então presidente Bernardo Berro (do partido Blanco, aliado do ditador paraguaio Francisco Solano López) e colocar no poder Venancio Flores (do partido Colorado, aliado do Brasil). Em consequência o Paraguai invadiu o Brasil e mais tarde a Argentina, inicialmente neutra, que não autorizou a passagem pelo seu território das tropas paraguaias, que pretendiam abrir outra frente de guerra no Brasil.
Brasil, Argentina e Uruguai aliaram-se então contra o Paraguai, cuja capital tomaram em 1869 e derrotaram definitivamente em 1870 com a morte de Solano López.