Líder dos lefebvristas considera injustas excomunhões decretadas pelo Vaticano
O superior-geral da Fraternidade São Pio X, Davide Pagliarani, classificou hoje como "injustas e inválidas" as excomunhões de membros da congregação ultraconservadora, na sequência da ordenação de quatro bispos sem autorização do Papa.
Numa carta dirigida ao Papa Leão XIV e divulgada pela Fraternidade, com sede em Écône, na Suíça, Pagliarani afirmou que as sanções impostas pelo Vaticano evidenciam "o contexto extremamente trágico em que se encontra a Igreja universal".
O responsável argumentou que a Fraternidade São Pio X atua apenas para "ajudar as almas no meio da confusão doutrinal e moral" que, na sua perspetiva, afeta atualmente a Igreja Católica, rejeitando qualquer intenção de substituir a autoridade da Igreja ou romper com Roma.
Apesar de considerar as excomunhões "objetivamente injustas e inválidas", Pagliarani assegurou que a congregação não as recebe "com espírito de amargura ou rebeldia", afirmando que vai continuar a servir a Igreja Católica e oferecendo o sofrimento causado pelas sanções "para o bem da Igreja universal" e do pontificado de Leão XIV.
Na quinta-feira, o Dicastério para a Doutrina da Fé confirmou a excomunhão dos quatro novos bispos da Fraternidade, Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier, ordenados na quarta-feira em Écône sem mandato pontifício.
Foram igualmente excomungados os bispos Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay, por participarem na consagração episcopal considerada um ato cismático.
Poucas horas depois, o mesmo Dicastério enviou aos bispos de todo o mundo orientações sobre o processo de readmissão na plena comunhão da Igreja Católica para sacerdotes e fiéis da Fraternidade que decidam abandonar o grupo.
A Fraternidade São Pio X foi fundada em 1970, em Friburgo, na Suíça, pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, em oposição às reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II.
Em 1988, João Paulo II excomungou Lefebvre e os quatro bispos que este ordenou sem autorização pontifícia, sanções que viriam a ser levantadas em 2009 por Bento XVI.
Nos últimos anos, as divergências entre a Fraternidade e o Vaticano intensificaram-se durante o pontificado do papa Francisco, sobretudo após a publicação do documento "Traditionis Custodes", que restringiu a celebração da missa segundo o rito tridentino, medida fortemente contestada pelos setores tradicionalistas.
De acordo com a própria congregação, a Fraternidade São Pio X está presente em mais de 60 países, contando com 733 sacerdotes, 250 religiosas, 145 monges, 264 seminaristas e cerca de 500 mil fiéis.