Lula e Sheinbaum criticam ingerência externa num contexto de divergência com EUA

Lula e Sheinbaum criticam ingerência externa num contexto de divergência com EUA

O presidente do Brasil e a homóloga mexicana pronunciaram-se contra as ingerências de outros países nas políticas internas, num contexto de divergências dos dois líderes com os Estados Unidos, que acusaram anteriormente dessas práticas.

Lusa /
Foto: AFP

Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum "reafirmaram a importância e o valor que atribuem ao fortalecimento e à preservação do multilateralismo, do direito internacional, da democracia e do princípio da não ingerência, particularmente no complexo contexto global atual", lê-se num comunicado divulgado na quarta-feira pela Presidência brasileira.

O comunicado faz um apanhado dos assuntos abordados pelos governantes dos dois países mais populosos da América Latina na videoconferência de 40 minutos, que realizaram na quarta-feira.

Lula e Scheinbaum também criticaram a ingerência externa em Cuba.

"Os dois mandatários confirmaram a sua posição a favor do fim do embargo a Cuba e compartilharam a sua preocupação com a grave situação humanitária no país caribenho", acrescenta-se no comunicado.

As críticas conjuntas à ingerência externa surgem uma semana depois de o Governo brasileiro, num comunicado oficial, ter atribuído a uma "tentativa de ingerência" a decisão do Governo dos Estados Unidos de propor tarifas adicionais às importações provenientes do Brasil devido a alegadas práticas comerciais desleais.

A proposta de novas sanções foi feita depois de o Departamento de Comércio dos Estados Unidos ter concluído uma investigação sobre questões como o trabalho forçado no Brasil, a desflorestação, o sistema de pagamentos automáticos e até acordos com o México e a Índia que seriam desfavoráveis aos EUA.

"Essa investigação teve início em julho de 2025 por instigação da família Bolsonaro [do candidato presidencial da oposição Flávio Bolsonaro] e está associada à tentativa de ingerência nos assuntos internos do nosso país", refere-se num comunicado do Ministério das Relações Exteriores, que dá a entender que as sanções também têm motivações eleitorais.

Da mesma forma, Sheinbaum denunciou há dez dias uma tentativa de ingerência dos Estados Unidos na política do país vizinho devido à acusação de um governador mexicano e a uma operação não autorizada da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) no México, na qual morreram dois agentes norte-americanos.

Foi uma reação à decisão do Ministério Público de Nova Iorque de solicitar a detenção e a extradição do governador de Sinaloa (noroeste), Rubén Rocha, membro do partido governamental Morena e acusado de ligações a um cartel de narcotraficantes.

"Quando se dita do exterior quem é culpado e quem não é, quando se procura pressionar as nossas instituições a partir de fora, quando se normaliza a ideia de que outro país pode intervir em assuntos que dizem respeito apenas aos mexicanos, já não estamos a falar de cooperação, estamos a falar de ingerência", afirmou a Presidente mexicana.

Na videoconferência, Lula e Sheinbaum analisaram os avanços nos compromissos de cooperação e diálogo político assumidos pelos dois governos nos últimos meses.

Entre esses avanços, citaram a agenda de cooperação energética, que inclui desde a cooperação na produção de biocombustíveis até à negociação de um acordo entre as duas petrolíferas estatais - Petróleos Mexicanos (Pemex) e a brasileira Petrobras - para a exploração de hidrocarbonetos em águas profundas.

"Também concordaram em aprofundar as conversas que permitam revisar e atualizar o marco jurídico bilateral comercial", afirma-se ainda na nota.

Com o objetivo de acelerar a aproximação, os dois líderes solicitaram aos ministros dos Negócios Estrangeiros que agendem, o mais rapidamente possível, uma nova reunião da Comissão Binacional México-Brasil, o principal mecanismo bilateral de diálogo e cooperação.

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