"Magnifica Humanitas". Papa alerta para poder da IA na guerra na sua primeira encíclica

"Magnifica Humanitas". Papa alerta para poder da IA na guerra na sua primeira encíclica

Leão XIV apresentou a primeira encíclica da própria autoria, com alerta para os riscos da Inteligência Artificial e deixando críticas à "guerra justa" de Donald Trump contra o Irão.

Inês Moreira Santos - RTP /
Yara Nardi - Reuters

Magnifica Humanitas (ou Magnifica Humanidade) é a primeira encíclica de Leão XIV - uma carta solene escrita pelo Papa - e serve como um aviso para os perigos da Inteligência Artificial, principalmente nas mãos de poderosos da tecnologia, ao mesmo tempo que elogia a humanidade e apela à proteção da dignidade humana.

No documento apresentado esta segunda-feira, o chefe da Igreja Católica apela ao "desarmamento" da inteligência artificial para "impedir que esta domine a humanidade". As inovações tecnológicas não são neutras, adverte, já que podem “aumentar a participação e a justiça” e, paralelamente, “ampliar as desigualdades, o controlo e a exclusão”.

"Os principais motores do desenvolvimento são entidades privadas, muitas vezes transnacionais, dotadas de recursos e capacidade de intervenção que superam os de muitos governos. O poder tecnológico assume, portanto, um aspeto sem precedentes, predominantemente 'privado', o que torna ainda mais desafiador discernir, governar e direcionar esse poder para o bem comum”.

Um dos grandes problemas, segundo Leão XIV, é a inteligência artificial “se concentrar nas mãos de poucos”.Tende a tornar-se opaco e a escapar à supervisão pública, aumentando o risco de formas distorcidas de desenvolvimento que dão origem a novas dependências, exclusões, manipulações e desigualdades”.

No primeiro grande documento do seu pontificado, com 110 páginas, aborda um dos principais desafios da atualidade, apelando a “uma ordem social justa na era digital”, com um “quadro jurídico adequado”, “regras justas” e “mecanismos de proteção eficazes”. O papa norte-americano defende, assim, que a IA "não pode ser considerada moralmente neutra" e enfatiza o papel da educação na aprendizagem de como gerir os riscos e a necessidade de um código ético comum.

Alertando para "usos claramente anti-humanos” da IA, “como a manipulação da informação ou a violação da privacidade", chama também a atenção para um engano mais subtil, quando os sistemas, "apresentando-se como neutros e objetivos, refletem e reforçam estereótipos ou posições ideológicas daqueles que os projetaram e programaram".

As encíclicas são uma das mais elevadas formas de ensinamento de um pontífice aos membros da Igreja. O texto divulgado esta segunda-feira, com quase 43.000 palavras, está em desenvolvimento desde a eleição de Leão XIV como papa, há pouco mais de um ano.
Papa repudia teoria de “guerra justa” 
No documento, que abordou a inteligência artificial como tema principal, o líder da Igreja Católica também denunciou o número de guerras que assolam o mundo, lamentou o enfraquecimento das organizações multilaterais e alertou que os lucros da indústria bélica são uma força motriz por trás dos conflitos.

"Os últimos 60 anos foram marcados por conflitos de brutalidade assombrosa, que muitas vezes afetaram populações civis em larga escala", afirmou Leão XIV no texto em inglês. 

"A humanidade está a mergulhar numa cultura violenta de poder, onde a paz não é mais vista como uma responsabilidade a ser assumida, mas como um frágil intervalo entre conflitos
", disse, repudiando a teoria da guerra justa, doutrina que a Igreja usa desde pelo menos o século V para avaliar conflitos globais.

Esta doutrina, que geralmente afirma que as guerras só devem ser travadas para se defender de agressões, também foi invocada por membros da Administração Trump, incluindo o vice-presidente JD Vance, católico, para defender a guerra com o Irão.

"A teoria da 'guerra justa', que muitas vezes tem sido usada para justificar qualquer tipo de guerra, está agora ultrapassada".
"O uso da força, da violência e das armas reflete uma pobreza relacional que sempre tem consequências desastrosas para as populações civis”. 

O papa manifestou ainda preocupação com a possibilidade de os líderes iniciarem guerras para distrair os cidadãos de problemas internos.

“Não podemos descartar a possibilidade de que alguns líderes considerem o conflito armado uma forma eficaz de desviar a atenção dos problemas internos e uma ferramenta cínica para lidar com dificuldades”.

Leão XIV lamentou "a humanidade esteja a resvalar para uma cultura violenta do poder".

"Hoje, mais do que nunca, importa reafirmar a superação da teoria da 'guerra justa', invocada com demasiada frequência para justificar qualquer guerra, sujeita ao direito à legítima defesa no seu sentido mais estrito", escreve na sua encíclica "Magnifica Humanitas".
Papa pede perdão pela demora em condenar escravatura
O Papa Leão XIV, no mesmo documento, "pediu sinceramente perdão" pela demora da Igreja em "condenar o flagelo da escravatura" ao longo da história.

A Igreja "tolerou a escravatura durante muito tempo e só mais tarde passou a condená-la absolutamente", tornando-a "uma ferida na memória cristã da qual não nos podemos considerar estranhos".

Leão XIV denunciou ainda o que chamou de “novas formas de escravatura” enfrentadas por pessoas que operam sistemas de IA e por trabalhadores de fábricas que produzem os dispositivos tecnológicos, como computadores e smartphones, nos quais a IA é utilizada.

"Em algumas regiões do mundo, crianças e adolescentes trabalham em condições perigosas, triturando os materiais dos quais se extraem elementos de terras raras", escreveu o papa.

"Os corpos dessas pessoas estão marcados, feridos e desgastados para que o fluxo computacional possa continuar ininterrupto", disse ainda. "Essa realidade desafia profundamente a consciência moral do nosso tempo".

C/agências
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