Mais de 7.300 vítimas de minas anti-pessoal em 2005, ano recorde de área desminada

Mais de 7.300 vítimas de minas anti-pessoal em 2005, ano recorde de área desminada

Mais de 7.300 pessoas foram vítimas de minas anti-pessoal em 2005, apesar de nesse ano se ter registado um recorde na área desminada, 740 quilómetros quadrados, segundo um relatório divulgado em Genebra.

Agência LUSA /

No documento, a Campanha Internacional para a Proibição de Minas Anti-pessoal (ICBL, sigla em inglês), coligação de grupos que luta pela erradicação daquele tipo de armamento, alerta também para o decréscimo de fundos doados em 2005.

O relatório indica que pelo menos três governos - da Rússia, do Nepal e da Birmânia - utilizaram minas anti-pessoal este ano e em 2005, tal como grupos rebeldes de uma dezena de países.

"O uso de minas no mundo é cada vez menor, apesar de ainda se poderem encontrar em pelo menos 78 países, e, apesar de pensarmos que o Vietname tenha deixado de as produzir, também sabemos que os Estados Unidos estão a trabalhar num novo tipo, denominado +Spider+", afirmou o director da ICBL, Stephen Goose, em conferência de imprensa na sede das Nações Unidas em Genebra.

A divulgação do documento "Para um mundo sem minas" surge a poucos dias da sétima Conferência dos 151 Estados signatários da Convenção de Otava, na próxima semana, em Genebra.

O objectivo da Convenção de Otava é a proibição de utilização, armazenagem, produção e transferência de minas anti-pessoal e sua destruição, à qual aderiram este ano o Brunei, as Ilhas Cook, o Haiti e a Ucrânia.

Os responsáveis pela ICBL manifestaram-se satisfeitos com o "caminho percorrido em 2005 para [conseguir] esse mundo sem minas", ano em que, segundo Goose, foi desminado mais terreno, num total de 740 quilómetros quadrados, superfície similar à de Nova Iorque.

Dessa superfície, quase 145 quilómetros quadrados eram áreas minadas, e 190 campos de combate, o que, no total, supõe a retirada e destruição de mais de 470.000 minas terrestres, incluindo cerca de 450.000 minas anti-perssoal, e mais de 3,75 milhões de artefactos explosivos.

Entre os avanços alcançados, o relatório destaca o facto de a Guatemala e o Suriname terem concluído a limpeza de todas as áreas minadas em 2005.

Ainda assim, em 2005 aumentou em 11 por cento o número de novas vítimas, que ascenderam a 7.328 em 58 países, disse Goose, alertando que "normalmente o número real de feridos é o dobro do registado".

Mais de 80 por cento das novas vítimas eram civis, 24 por cento morreram e 21 por cento eram crianças, segundo o relatório, que atribui o aumento ao agravamento dos conflitos na Birmânia, Índia, Nepal, Paquistão, e Colômbia, país onde houve mais feridos em 2005 (1.110).

Em 2005, sete novos países (Chile, Honduras, Quénia, Moldávia, Marrocos, Namíbia e Peru) registaram vítimas de minas anti-pessoal.

Os fundos destinados a iniciativas contra minas diminuíram pela primeira vez (passando de 315 para 296 milhões de euros), o que gera preocupação entre os responsáveis pela campanha, por temerem não poder eliminar as minas e assistir devidamente os mais de meio milhão de sobreviventes de incidentes com aquele tipo de armamento.

Até ao momento, em 10 dos 58 países onde se registaram novas vítimas de minas, os programas para as assistir não são suficientes, segundo o documento.

A União Europeia (UE), os Estados Unidos e outros oito grandes doadores reduziram, em 2005, o seu apoio à acção contra as minas, que inclui a desminagem, educação sobre os perigos das minas, destruição de reservas de minas, ajuda às vítimas e promoção da proibição.

Na sequência desses cortes, o Iraque recebeu menos 31,5 milhões de euros (uma diminuição de 53 por cento), o Afeganistão menos 20 milhões (27 por cento) e o Camboja 14 milhões (43 por cento).

Vinte e nove países ainda têm por cumprir o objectivo, traçado pelo Tratado para a Eliminação de Minas, de limpar o seu território de todas as minas anti-pessoal até 2009 ou 2010, mas "parece que 13 deles terão dificuldades", entre os quais a Bósnia-Herzegovina, o Camboja, Moçambique e a Tailândia, lamentou Goose.

Os signatários do Tratado - entre os quais não se encontram os Estados Unidos, a China e a Rússia - comprometeram-se a acabar com o processo de desminagem em 10 anos.


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