Mais de duas mil raparigas resgatadas de uniões prematuras em Moçambique desde 2019  

Mais de duas mil raparigas resgatadas de uniões prematuras em Moçambique desde 2019  

Pelo menos 2.259 raparigas foram resgatadas de uniões prematuras e reintegradas na escola em Moçambique desde 2019, ano em que foi reforçada a legislação contra o fenómeno, avançou hoje o Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef).

Lusa / Adicionar como fonte informativa

"As taxas de uniões prematuras caem significativamente conforme o nível educacional das raparigas aumenta", avançou a representante da Unicef em Moçambique, Mary Eagleton, falando durante um evento que celebrou o quinto aniversário da Lei de Prevenção e Combate às Uniões Prematuras, que decorreu hoje na capital moçambicana, Maputo.

De acordo com a representante da Unicef, segundo dados oficiais de 2022, uma em cada duas meninas foi "unida maritalmente" antes dos 18 anos, o que correspondente a 4,3 milhões de meninas, e uma em cada oito antes dos 15 anos, o correspondente a um milhão de meninas, num país, atualmente, com mais de 30 milhões de pessoas.

"Entre as raparigas cujo início da vida sexual ocorreu aos 12 anos, 89% casaram-se antes dos 18 anos. Da mesma forma, 90% das raparigas que tiveram o primeiro filho aos 13 anos casaram-se antes dos 18 anos", acrescentou Mary Eagleton, que congratula o Governo moçambicano pelos "avanços alcançados" no combate contra as uniões prematuras, sobretudo com a aprovação da lei em 2019.

Apesar do reforço da legislação, que passou a incluir penas de prisão e multas, o Governo moçambicano reconhece que há ainda "dificuldades".

O ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, Mateus Saize, disse, no discurso de abertura da cerimónia, que fatores socioeconómicos e culturais, "com destaque para o baixo nível de escolaridade, a pobreza absoluta", estão "entre as principais causas do crescente número de uniões prematuras em Moçambique".

Justino Tonela, secretário permanente do Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, explicou que os "casos de denúncias" só chegam ao conhecimento dos tribunais quando "há violação dos acordos entre as famílias".

"Muitas vezes, as autoridades governamentais e policiais têm o conhecimento destas práticas quando não há cumprimento, exatamente, dos pagamentos das multas e fazem chegar às autoridades (...), e quando há consensos entre famílias eles solicitam a retirada da queixa", disse Justino Tonela.

De acordo com dados de 2011, as uniões prematuras prevalecem principalmente nas zonas rurais em Moçambique e, sobretudo, no norte do país, com a província de Cabo Delgado e Nampula com os maiores números de casos, 62% e 61%, respetivamente.

Desde outubro de 2019 que Moçambique tem em vigor a Lei de Prevenção e Combate às Uniões Prematuras, que elimina uniões maritais envolvendo pessoas com menos de 18 anos, punindo com pena de prisão até 12 anos e multa até dois anos o adulto que se casar com uma criança.

A pena é igualmente extensível a adultos que participarem nos preparativos do noivado e a qualquer adulto que aceitar viver numa união arranjada por outras pessoas, quando tenha conhecimento de que o parceiro tem menos de 18 anos.

As sanções estão igualmente previstas para funcionários públicos, líderes religiosos e líderes tradicionais que celebrarem casamentos envolvendo menores de 18 anos, caso em que o servidor público será condenado a pena de até oito anos de cadeia.

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