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Marca histórica, blackout e eclipse solar. Os dez dias da missão Artemis II no espaço

Marca histórica, blackout e eclipse solar. Os dez dias da missão Artemis II no espaço

Os quatro astronautas da missão Artemis II, a bordo da cápsula Orion, estão já perto de amarar na Terra, ao fim de dez dias no espaço. Foram os humanos a voar mais longe da Terra na história, assistiram a um eclipse, ao pôr e nascer da Terra e até nomearam uma cratera em homenagem à esposa falecida do comandante da Artemis II.

Mariana Ribeiro Soares, Nuno Patrício - RTP /
Os astronautas da missão Artemis II da NASA abraçam-se dentro da nave Orion a caminho de casa | NASA via Reuters

Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen deverão amarar no Oceano Pacífico, perto de San Diego, na Califórnia, pelas 17h07 locais desta sexta-feira (01h07 de sábado em Portugal).

Os astronautas preparam-se para reentrar na atmosfera numa “bola de fogo”, atingindo uma velocidade de até 38.365 km/h. Esta será mais uma fase de alto risco da missão que colocará o escudo térmico da Orion à prova, uma vez que será atingido pelo intenso atrito atmosférico.

Uma série de paraquedas reduzirá a velocidade da Orion de Mach 32 (cerca de 34.000 km/h) para quase menos de 15 km/h em aproximadamente 20 minutos, encerrando uma missão que terá percorrido mais de 1.000.000 quilómetros. As equipas de resgate, já posicionadas na zona de pouso prevista, estarão prontas para resgatar a tripulação do Oceano Pacífico.

"Na verdade, tenho pensado na reentrada desde 3 de abril de 2023, quando fomos destacados para esta missão", disse o piloto da missão Artemis II, Victor Glover, quando questionado sobre como se sentia em relação ao regresso.
Os humanos que voaram mais longe na história
O voo lunar da Artemis II foi histórico, desde logo porque foi a primeira órbita lunar completada por uma mulher (Christina Koch), um astronauta negro (Victor Glover) e um não americano (o canadiano Jeremy Hansen).

Juntos, os quatro tripulantes completaram a primeira órbita em torno da Lua em mais de meio século na segunda-feira, 6 de abril, observando o nascer e o pôr da Terra, bem como um eclipse solar.


Os quatro astronautas ultrapassaram a marca da Apollo 13, em 1970, e alcançaram o ponto mais distante alguma vez atingido por um ser humano em relação à Terra. Atingiram a distância máxima da Terra, de aproximadamente 406.600 quilómetros, cerca de 6.606 quilómetros para além do recorde detido por Jim Lovell e a sua tripulação da Apollo 13 durante 56 anos.

No mesmo dia, os astronautas atravessaram o lado oculto da Lua. Durante 40 minutos, as comunicações foram interrompidas no momento em que sobrevoavam as regiões inexploradas do satélite e o seu lado oculto.
Nomear uma cratera e sanita avariada
O momento mais emotivo da missão ocorreu quando a tripulação nomeou uma cratera da Lua em homenagem à esposa de Reid Wiseman, comandante da Artemis II.

Numa mensagem de rádio para o controlo da missão em Houston, na segunda-feira, quando a tripulação se avizinhava do ponto mais próximo da superfície lunar, Hansen sugeriu dar o nome de uma cratera recém-formada na Lua em homenagem à falecida esposa de Wiseman, Carroll, que morreu de cancro em 2020.


“Perdemos alguém querido. Chamava-se Carroll, esposa do Reid, mãe da Katie e da Ellie. Se quiserem encontrar este local, olhem para Glushko, e fica a noroeste desse ponto, à mesma latitude que Ohm — é uma mancha brilhante na Lua. Gostaríamos de lhe chamar Carroll”, disse Hansen, explicando que a cratera pode ser vista “em certos momentos do trânsito da Lua ao redor da Terra”.



Wiseman disse aos jornalistas que os seus companheiros de tripulação o abordaram com a ideia de nomear a cratera de Carroll enquanto estavam em quarentena antes do lançamento para o espaço. "Aquele foi um momento emocionante para mim", disse Wiseman.

Por sua vez, o momento mais insólito ocorreu logo no início da viagem, quando a sanita avariou em pleno espaço.

“Sou a canalizadora do espaço. Tenho orgulho em dizer que é provavelmente o equipamento mais importante a bordo. Por isso, todos respiraram de alívio quando percebemos que estava tudo bem. Era apenas um problema de arranque, acho que por ter estado muito tempo parado e precisar de algum tempo para funcionar. Inicialmente pensamos que poderia haver algo a bloquear o motor. Felizmente está tudo operacional”, explicou Christina Koch.
Não há “lado negro”
Os primeiros olhares humanos sobre o outro lado da Lua em 50 anos mostram que afinal não existe um “lado negro da Lua”. Prova disso mesmo são as fantásticas fotos enviadas pelos quatro astronautas que estão a bordo da cápsula espacial Orion.

Na verdade, a afirmação “The dark side of the Moon” é o resultado da interpretação humana à ocultação do lado não visível por nós do satélite natural da Terra. Uma invisibilidade quebrada pelas imagens registadas nesta viagem pelo espaço, entre a Terra e a Lua.

Nestes dez dias, os astronautas vislumbraram em exclusivo, e após mais de 50 anos da última viagem à Lua por seres humanos, um olhar mais profundo sobre o nosso planeta no escuro espaço e uma Lua cravejada de cicatrizes feitas por impactos de meteoritos ao longo da sua formação.

Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando a nave foi reposicionada e os astronautas observaram a Terra ao pôr-do-sol. O comandante Reid Wiseman contou que foi um instante inesperado, que acabou por parar toda a tripulação.

“O Centro de Controlo em Houston reorientou a nossa nave enquanto o sol se punha atrás da Terra. E não sei o que todos nós esperávamos ver naquele momento, mas conseguíamos ver o globo inteiro, de polo a polo. Conseguíamos ver África, a Europa e, se olhássemos com atenção, até as auroras boreais. Foi o momento mais espetacular e deixou-nos a todos parados”, comentou.

Mas as imagens mais desejadas - as do outro lado da Lua - iluminadas pelo sol, foram registadas pela primeira vez pelos olhos dos viajantes da Orion.

Desde a Bacia de Orientale (Mare Orientale) – o enorme impacto circular, com cerca de 930 km de diâmetro - à Bacia do Polo Sul–Aitken, observada parcialmente durante o sobrevoo da Orion, os quatro astronautas puderam também assistir ao pôr e ao nascer da Terra, durante os 40 minutos que viajaram por detrás do astro cinzento e “redondo” que circunda o nosso planeta azul. Pode acompanhar

"Vimos coisas simplesmente extraordinárias", disse Jeremy Hansen, para quem aquele era o seu primeiro voo espacial. Desse ponto de vista privilegiado, a Terra pareceu-lhes "um planeta frágil", quase perdido "no vazio e na imensidão do espaço".

"O que posso dizer é que foi muito intenso, e são memórias que vou guardar para o resto da vida", exclamou Victor Glover. "Com certeza, vou pensar e falar sobre isto para o resto da vida", acrescentou.
O que se segue?
A próxima missão programada é a Artemis III, em 2027. Esta nova missão de demonstração em órbita terrestre baixa testará um ou ambos os módulos de pouso comerciais da SpaceX e da Blue Origin, respectivamente.

Por sua vez, a NASA continua a prever o início de 2028 para o primeiro pouso lunar do programa Artemis, uma data que permanece inalterada desde meados de 2025.
Após alcançar a órbita lunar, a tripulação fará a transferência da Orion para um módulo de pouso lunar comercial para a descida até a superfície da Lua.

A missão Artemis IV, prevista para 2028, seria a primeira alunagem tripulada do programa e a primeira desde a Apollo 17, em 1972. O objetivo é estabelecer uma presença americana, antes da China, a longo prazo na próxima década, construindo uma base lunar para potenciais missões futuras a Marte. 

Utilizando a configuração padrão do foguete SLS (Space Launch System), a NASA espera lançar a missão Artemis V à superfície lunar até o final de 2028, com missões subsequentes planeadas aproximadamente uma vez por ano.

Podem acompanhar a missão Artemis II em tempo real neste link.
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