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Marchas pela paz e contra os raptos reúnem milhares de pessoas em Moçambique

Marchas pela paz e contra os raptos reúnem milhares de pessoas em Moçambique

Milhares de pessoas marcharam em Maputo e na cidade da Beira contra o governo do Presidente Armando Guebuza, a quem acusam de ficar "mudo" perante a onda de raptos que amedronta o país e a ameaça da guerra. A "Marcha pela paz e contra os raptos" uniu transversalmente a sociedade moçambicana na recusa da violência.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Manifestantes erguem um cartaz com a palavra "Basta" no protesto pacífico contra a instabilidade e violência que ameaçam Moçambique e a aparente incapacidade das autoridades e do governo António Silva/EPA

Vestidos com camisolas brancas ou vermelhas, com frases como "abaixo a violência, o racismo, a corrupção, os raptos", os manifestantes concentraram-se, ao inicio da manhã, junto à estatua de Eduardo Mondlane, na avenida com o mesmo nome, seguindo em direção à Praça da Independência.

"Abaixo a polícia corrupta, abaixo o Governo mudo, abaixo o racismo", gritavam os manifestantes.

"Depois de terem sido raptadas a toda a hora, as pessoas são deixadas em pânico, apesar da guerra já estar a acontecer. Isto é pior do que a Líbia. As pessoas não vão viver nunca com todos os chefes (de Estado), vamos ter de passar por guerras? Não estamos para isso. Estamos para a paz", disse à agência Lusa Mohamed Asif, da organização do protesto.

O reacendimento do conflito entre a Renamo e o exército moçambicano, com a ameaça da guerra, tem estado confinado à zona da Gorongosa, no centro de Moçambique e, apesar do medo que provoca, não atinge para já diretamente a maioria da população moçambicana. O número de turistas no Parque da Gorongosa, que tem estado a ser recuperado, rondou os 900 desde janeiro de 2013. Foi o pior resultado desde 2007, quando o número de visitantes rondou os 1500. Os responsáveis do Parque atribuem a quebra à ameaça da guerra, apesar da zona do Parque não estar a ser afetada pelos combates entre a Renamo e a Frelimo

A onda de raptos, pelo contrário, está a tornar-se uma verdadeira ameaça à estabilidade, sobretudo perante a cumplicidade das forças de segurança nos sequestros, que poderá chegar a figuras próximas do Presidente.

Guebuza não só nada disse às vítimas dos raptos como defendeu a polícia, dizendo que mantém a sua confiança na hierarquia. Os moçambicanos reagiram com indignação.

Tsunami de raptos
Desde dia 21 de outubro foram raptados nas cidade de Maputo, Matola e Beira pelo menos sete cidadãos moçambicanos, homens e mulheres adultos assim como crianças de ambos os sexos. Uma delas, um adolescente da Beira, acabou assassinado, sendo o corpo, mutilado e queimado, abandonado numa beira da estrada, a cerca de 30 quilómetros da cidade da Beira.

O adolescente foi executado apesar dos pais terem conseguido reunir, com grande dificuldade, a quantia exigida para o resgate - um milhão de meticais (cerca de 24.000 euros) - e depois do próprio pai, acompanhado com alguns dos seus funcionários, ter conseguido identificar o local onde estariam os sequestradores, informando a polícia, que se mostrava incapaz de intervir.

"Logo que a chefe das operações da PIC teve a informação, os bandidos ligaram-nos a dizer que já sabiam do nosso contacto com as autoridades e acabaram por assassinar a criança," afirma Kulsum Ismael, denunciando mais uma vez a cumplicidade de agentes da polícia com os raptores.




Uma das recentes vítimas de rapto, em Maputo, conseguiu escapar ao cativeiro e, acompanhada de família e de amigos, foi denunciar o caso à esquadra de Machava, do bairro onde tinha estado sequestrada. A polícia identificou a casa dos raptores, detendo uma pessoa e apreendendo grande quantidade de armas. Mas entre os agentes da polícia, a vítima identificou um dos seus raptores.

Cumplicidade da policia
Segunda-feira três polícias foram condenados por integrarem uma rede de sequestradores. Mas face à falta de resultados na maioria dos sequestros, o alívio da população foi escasso.

A corrupção da polícia tem sido um dos fatores mais inquietantes da onda de raptos que dura desde 2011 e que muito já consideram um tsunami.

As forças de segurança pedem tempo para as investigações e a colaboração da população, mas as pessoas têm cada vez mais medo. Os primeiros raptos atingiram sobretudo famílias de empresários mas nos meses mais recentes ninguém parece a salvo.

O modus operandi dos raptores tem sido sempre semelhante. Quatro homens armados rodeiam a vítima, forçando-a a seguir num carro com eles. Os resgates exigidos pelas vítimas são sempre milionários. Há também suspeitas de que funcionários de instituições bancárias estejam a passar informações aos sequestradores.

O clima de intimidação está a permitir que um simples telefonema se torne uma ameaça, para os cidadãos abastados de Maputo e da cidade da Beira. "Estou, é o senhor fulano, temos o seu nome na nossa lista para ser sequestrado. Se nos pagar não o levamos" denunciam vários visados.
"No tempo de Samora..."
Quarta-feira o Presidente Guebuza veio anunciar que mantém a confiança na polícia do país. "Tenho confiança na Guarda Presidencial e no comandante-geral da polícia", disse Armando Guebuza, falando numa conferência de imprensa, no final da sua presidência aberta na província de Manica, centro de Moçambique.

"Sei que a nossa polícia está a usar de todo o seu poder para resolver estes casos. Alguns dos raptores foram levados a tribunal e foram julgados, mas isto não chega e temos que fazer muito mais", acrescentou Guebuza.

Um dos condenados na segunda-feira passada era membro da Guarda Presidencial, a unidade policial de elite responsável pela segurança do Presidente da República, o que fragiliza Armando Guebuza e o seu governo.

A antiga primeira-dama Graça Machel manifestou também quarta-feira a sua "profunda preocupação perante "o silêncio do Governo" face à onda de raptos. "Não houve sequer uma palavra do nosso Governo. O que pedimos é que as autoridades falem com o povo, falem com as comunidades", disse Graça Machel.

"O silêncio do Governo faz as pessoas sentirem-se abandonadas e desprotegidas", acrescentou.

"No tempo de Samora não acontecia isso. No tempo de Chissano não acontecia isso, só agora no tempo de Guebuza é que está acontecer isto" afirmou a mãe do adolescente assassinado.

"Ele (Guebuza) diz que está a desenvolver Moçambique. Ele esta é a destruir Moçambique" acusou, fazendo um apelo dramático à mobilização popular. "Eu sou a mãe da criança mas não deito nenhuma lágrima e apelo a todas as mães de Moçambique para que façam greve contra o Estado, contra o Governo".
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