Médicos Sem Fronteiras alertam para clima de medo causado por ataques com `drones`
Os Médicos Sem Fronteiras alertam para o clima de medo no Sudão causado pelo aumento dos ataques com `drones`, particularmente em El Obeid, capital do Cordofão do Norte, o estado onde já se registaram 141 investidas este ano.
"Em El Obeid reina um clima de medo. Os ataques com `drones` [aeronaves não-tripuladas] não se limitam a alvos militares. Muitas vezes atingem zonas civis, causando mortos e feridos entre a população", afirmou a coordenadora de emergências dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Sudão, Liesbeth Aelbrecht, segundo um comunicado publicado pela organização na segunda-feira.
"Desde junho, os bombardeamentos atingiram escolas, um mercado, estações e depósitos de combustível, pontos de abastecimento de água e a principal central elétrica de El Obeid, provocando graves interrupções no fornecimento elétrico e apagões, embora a rede tenha podido ser restabelecida parcialmente", lamentou.
Segundo dados da organização International NGO Safety Organisation (INSO), citados pela Organização Não-Governamental (ONG), o Cordofão do Norte tem sido o estado que testemunhou o maior número de ataques com `drones` em 2026, com pelo menos 141 ataques registados até 08 de julho.
De acordo com os MSF, 51% desses ataques ocorreram desde junho, principalmente contra El Obeid e a estrada que chega à cidade a partir de leste.
Os MSF sublinham que essas ofensivas estão a afetar os serviços básicos, encarecendo o transporte e o combustível - sendo que o preço de um litro de gasolina chegou a quase 15 dólares norte-americanos, cerca de 13 euros, podendo ser ainda mais elevado no mercado negro - e limitando o acesso à água potável e aos cuidados de saúde.
A situação da água é particularmente crítica e, segundo a ONG, as pessoas esperam horas pela possibilidade de recolha de água e o seu preço disparou.
Pelo menos um quarto da população sudanesa vive com menos de dois dólares por dia (cerca de 1,75 euros ao câmbio atual), segundo dados da ONU publicados em abril deste ano.
"Num dos campos para pessoas deslocadas que visitei recentemente, as famílias sobrevivem com pouco mais de um litro de água por pessoa por dia. Há muito poucas latrinas e a defecação ao ar livre está muito generalizada", afirmou Aelbrecht, que salientou que "depois de mais de três anos de violência, deslocações e perdas, as pessoas estão simplesmente exaustas".
El Obeid, que conta com cerca de meio milhão de habitantes, tornou-se também refúgio para cerca de 100.000 pessoas deslocadas de outras zonas do país, segundo dados das Nações Unidas.
"Com a intensificação dos combates em El Obeid e arredores, fazemos um apelo tanto às [Forças de Apoio Rápido] RSF como às Forças Armadas do Sudão para que garantam a proteção da população civil e do pessoal humanitário que tenta prestar assistência", declarou Aelbrecht.
O conflito no Sudão eclodiu a 15 de abril de 2023 devido às fortes divergências em torno do processo de integração do grupo paramilitar no seio das Forças Armadas, situação que provocou o descarrilamento da transição que decorria após o derrube, em 2019, do regime de Omar al-Bashir.