Mia Couto pede centros de acolhimento em Moçambique para evitar uso de escolas como refúgio
O escritor moçambicano Mia Couto defendeu hoje a construção de centros de acolhimento para evitar que escolas sirvam de refúgio para vítimas de desastres naturais, o mais recente com quase 300 mortos e mais de um milhão de afetados.
"Estamos a ver só uma repetição daquilo que é realmente a metáfora do que é que pode ser uma escola. É bonito, mas não como num momento em que é trágico porque a escola não deve servir para isso", disse o escritor Mia Couto, durante uma aula aberta na Universidade Pedagógica de Maputo, onde abordou os impactos das cheias e a necessidade de soluções estruturais para proteger populações em risco.
O escritor sublinhou que, apesar de as escolas funcionarem como abrigo por falta de alternativas, essa realidade deve ser superada com investimento em infraestruturas adequadas para o acolhimento de deslocados.
"Na verdade, serve porque não temos outra alternativa, mas temos que acabar com esta situação em que não temos mais alternativa. É preciso construir centros de acolhimento apropriados de maneira que a escola não seja sacrificada, de maneira que os alunos não tenham que ser sacrificados", frisou.
Segundo o escritor, a ausência dessas infraestruturas leva a um duplo impacto negativo, afetando tanto as populações deslocadas, como o funcionamento normal do sistema educativo.
O escritor defendeu que esses centros podem ter uso multifuncional ao longo do ano, servindo atividades culturais, educativas e comunitárias, garantindo, assim, utilidade contínua e melhor aproveitamento dos recursos públicos.
Durante a intervenção, Mia Couto abordou também desafios do país, defendendo maior reflexão sobre políticas públicas e prioridades de desenvolvimento, num contexto marcado por vulnerabilidades sociais e económicas.
O total de número de mortos na atual época das chuvas em Moçambique subiu para 296, com mais de um milhão de pessoas afetadas, desde outubro, segundo atualização, com data de domingo, do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).
De acordo com informação da base de dados do INGD, contabilizam-se mais sete mortos em 24 horas, tendo sido afetadas 1.015.904 pessoas (mais 10.000 face ao balanço anterior) na presente época das chuvas - que se prolonga ainda até abril -, correspondente a 232.280 famílias, havendo também 17 desaparecidos e 351 feridos.
Desde outubro, o instituto de gestão de desastres moçambicano ativou 184 centros de acomodação, que chegaram a albergar 127.426 pessoas, dos quais 31 continuam ativos, com pelo menos 10.000 pessoas.