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Michelle Bachelet - Uma presidente pouco convencional

Michelle Bachelet - Uma presidente pouco convencional

A futura presidente do Chile Michelle Bachelet, vencedora das presidenciais de hoje, é uma chilena pouco convencional, socialista, separada e agnóstica.

Agência LUSA /

O percurso de Michelle, que se candidatou pela Concertação Democrática, a coligação de socialistas, radicais e democratas cristãos no poder há 16 anos, confunde-se com a história recente do Chile, apesar de, das suas experiências dolorosas, ter retirado mais energia e calor humano do que azedume.

De acordo com os que a rodeiam, Michelle, 54 anos, trabalha bastante, dorme pouco e, ao mesmo tempo, gosta de divertir-se, adorando dançar. Ao contrário de muitos dos seus compatriotas, não é tímida, mas antes espontânea, directa e fala gesticulando com as mãos.

A popularidade desta mãe solteira de três filhos - nascidos de dois pais diferentes de quem se separou, num país que só legalizou o divórcio em 2004 - surpreendeu até o presidente Ricardo Lagos, segundo uma biografia não oficial de Michelle.

Nascida em 29 de Setembro de 1951 em Santiago, Verónica Michelle percorre todo o Chile durante a sua infância, ao sabor das colocações do seu pai, piloto militar. Em 1970, inicia estudos de medicina e adere à Juventude Socialista.

Em 11 de Setembro de 1973, data do golpe de Estado de Augusto Pinochet, o seu pai, um general da Força Aérea muito próximo do presidente socialista Salvador Allende, é preso, morrendo seis meses depois, torturado pelos seus pares.

Michelle prossegue os estudos, enquanto ajuda secretamente pessoas perseguidas pelo regime. Contudo, em 10 de Janeiro de 1975, a sua mãe e ela são presas pelos serviços secretos e conduzidas à Villa Grimaldi, centro de tortura da ditadura.

"A tortura é terrível, sobretudo do ponto de vista psicológico, porque nos humilha", afirma, acerca deste período.

Libertadas em finais de Janeiro, mãe e filha exilam-se na Austrália e, depois, na antiga RDA, onde Michelle prossegue os estudos.

Em 1979, jovem mãe de Sebastian, nascido um ano antes, regressa ao Chile, onde obtém em 1982 o seu diploma de cirurgia, mas vê fecharem-se-lhe as portas do sistema público de saúde "por razões políticas".

Graças a uma bolsa, especializa-se em pediatria e saúde pública. A sua filha Francesca nasce em 1984. Paralelamente, Michelle trabalha para uma ONG que apoia os filhos de vítimas da ditadura.

Depois da transição democrática (1990), empenha-se a fundo como médica do serviço público, membro da Comissão Nacional da SIDA e consultora da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Considerando que o Partido Socialista, onde milita, conhece mal o papel do exército, estuda estratégia militar em Santiago e, depois, defesa continental em Washington.

Em 2000, o presidente Lagos confia-lhe o Ministério da Saúde e uma grande reforma do sector. Em 2002, é a primeira mulher ministra da Defesa da América Latina e, no 30º aniversário do golpe de Pinochet, defende uma reconciliação histórica entre civis e militares.

É nesta altura que a sua popularidade entra em crescendo.

O advogado Andres Chellew, filho de um oficial de Marinha próximo do regime de Pinochet, é um defensor fervoroso de Michelle desde que a conheceu, em 2001.

Para ele, o êxito de Michelle Bachelet nada tem de misterioso e a sua eleição marca o fim de um domínio de 40 anos da mesma oligarquia política e económica.

"Michelle sintetiza muitas coisas: representa a classe média, o reencontro do Chile com o seu exército, com ela abre-se um novo capítulo da história chilena. O país vai mudar muito em quatro anos, mesmo que alguns não o queiram", garante.

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