Milhares de indígenas acampados em Brasília na luta pela demarcação de terras e direitos
Mais de 6 mil indígenas do Brasil estão acampados em Brasília para a 22.ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026), numa semana de debates, encontros com autoridades políticas, manifestações e expectativas pelo anúncio de novas terras demarcadas.
Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas (Apib), a edição deste ano tem como tema "Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós", que coloca em perspetiva os desafios das eleições de outubro.
Considerado a principal mobilização dos povos originários brasileiros, o evento iniciou-se no domingo e decorre até sábado.
Em carta aberta divulgada hoje, assinada por oito grandes entidades indígenas, o ATL 2026 endereça recados aos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário brasileiro, reservando críticas duras ao Congresso Nacional brasileiro, a quem chamam "inimigo do povo".
"Repudiamos que o Congresso Nacional funcione como uma máquina de retrocessos, atuando como inimigo dos povos, produzindo ataques cotidianos às nossas vidas e submetendo nossos direitos a um balcão de negócios", lê-se num trecho da carta aberta
Em declarações à Lusa, o coordenador-executivo da Apib pela Amazônia Kleber Karipuna, afirmou que o Congresso brasileiro "continua insistindo na tese do marco temporal" -- tese jurídica segundo a qual os indígenas só têm direito aos territórios que ocupavam em outubro de 1988, quando a Constituição Federal brasileira foi promulgada.
"Isso é uma afronta aos nossos direitos, ao próprio Judiciário que julgou que a tese é inconstitucional", declarou Kleber Karipuna fazendo coro a carta aberta divulgada pelo ATL 2026.
A Apib vai promover duas grandes marchas pela Esplanada dos Ministérios, sendo a primeira em direção ao Congresso Nacional, na terça-feira; e a segunda grande caminhada na quinta-feira, em direção aos demais prédios do Executivo e Judiciário brasileiro, momento em que pretendem entregar uma carta com as conclusões da ATL 2026.
Ainda para esta semana, os organizadores do ATL 2026 e lideranças indígenas têm expectativas de serem visitados por ministros do governo de Lula da Silva, bem como pelo próprio Presidente brasileiro, a exemplo do que aconteceu em outras edições.
Kleber Karipuna explicou ainda que o Governo Federal ficou de entregar um documento chamado de "caderno de respostas" sobre 32 reivindicações da APIB, que se acumulam nos últimos anos, que inclui a efetivação de políticas públicas, o fortalecimento da segurança pública para expulsão de invasores como madeireiros e garimpeiros, além do anúncio de novas terras indígenas.
"Precisamos reconhecer. Houve uma retomada da política de demarcação nos últimos três anos. É o suficiente? não é", enfatizou Kleber Karipuna ao destacar que a Apib entregou ao Governo Federal um levantamento com 110 terras indígenas aptas a serem homologadas ou demarcadas, mas que não foram efetivadas, na sua interpretação, por "imbróglios políticos", que envolvem os governos estaduais, mais lóbi de grandes empresas e do agronegócios.
"O que o movimento indígena vai estar fazendo sempre é estar avaliando, criticando se necessário, apoiando, porque entendemos que há, sim, avanços, mas vamos continuar fazendo as cobranças, porque o próprio Presidente Lula falou isso várias vezes: `me cobrem, cobrem meus ministros, porque se não cobrarem, não vamos saber onde está o gargalo, estão os problemas`. Então, quando o movimento indígena vem, é no sentido de tentar colaborar com o governo federal com as nossas pautas, com as nossas demandas", frisou.
Em relação às eleições de 2026, o coordenador-executivo da Apib pela Amazônia Kleber Karipuna explicou que a entidade pretende apoiar candidaturas indígenas aos legislativos estaduais e federais, mas dessa vez de forma menos pulverizada, diferentemente das eleições de 2022.
"Queremos focar em candidaturas que são possíveis de serem vitoriosas", declarou.