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Milhares de organizações alertam para "consequências devastadoras" do fim de controlo de abuso sexual online

Milhares de organizações alertam para "consequências devastadoras" do fim de controlo de abuso sexual online

Mais de 2.400 organizações alertam hoje para "a lacuna profundamente alarmante e irresponsável na proteção das crianças" com o fim do regime europeu que permite detetar abuso sexual de menores `online`, a partir de 03 de abril.

Lusa /
Falta de consenso na UE compromete proteção de menores contra abuso sexual online | Thomas Trutschel - Reuters

"Nós, uma coligação de mais de 2.464 organizações que trabalhamos na promoção dos direitos das crianças e no combate a violência sexual, condenamos veementemente a falha dos decisores políticos europeus em prorrogar a base jurídica que permitia estas atividades de deteção. Esta falha cria uma lacuna profundamente alarmante e irresponsável na proteção das crianças. As consequências serão devastadoras - na Europa e para além dela", lê-se no comunicado conjunto, divulgado hoje.

Entre as mais de 2.400 entidades está a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), membros da INHOPE (Associação de Prestadores de Serviços de Linhas de Apoio na Internet) ou a Victim Support Europe (VSE), a principal organização europeia de defesa dos interesses de todas as vítimas de crimes, independentemente do tipo de crime ou da identidade da vítima.

Num comunicado conjunto, esta coligação aponta que a interrupção desta autorização legal coloca milhões de crianças em risco e dificulta a identificação de vítimas e abusadores.

Segundo as organizações, a deteção em larga escala é indispensável para combater os milhões de imagens e vídeos de abuso sexual que circulam online.

Estes mecanismos permitem às plataformas remover conteúdos ilegais, impedir a redistribuição e encaminhar denúncias às autoridades, desencadeando investigações que protegem crianças e responsabilizam abusadores.

A coligação recorda que, quando o enquadramento jurídico esteve inativo, em 2021, durante apenas sete meses, as denúncias sobre abuso sexual de crianças online caíram 58%, não por diminuição do abuso, mas por falta de deteção.

"Cada imagem ou vídeo representa uma criança a sofrer violações repetidas dos seus direitos fundamentais, incluindo o direito à privacidade", sublinha o comunicado.

A APAV defende que a proteção das crianças não é opcional, mas um dever consagrado nos quadros jurídicos europeus e internacionais.

"O mandato dos cidadãos europeus tem de ser respeitado; as crianças não podem continuar a pagar o preço do impasse político", acrescenta a organização, reforçando a urgência da adoção de um quadro jurídico permanente e ambicioso.

A Linha Internet Segura, coordenada pela APAV, continuará a receber denúncias do público, analisar conteúdos e colaborar com as 56 `hotlines` europeias, com o objetivo de tornar a internet um espaço mais seguro.

A coligação destaca que a ausência de deteção não só reduz denúncias e impede investigações, como também permite a circulação incontrolável de conteúdos abusivos, forçando as vítimas a reviver traumas repetidamente.

O comunicado salienta ainda que a não renovação da derrogação da `ePrivacy` em 3 de abril ameaça toda a infraestrutura de proteção infantil online.

Sem esta base legal, as plataformas não podem detetar proativamente material de abuso sexual de crianças nem comportamentos de aliciamento, comprometendo a segurança das crianças.

A coligação de organizações subscritoras - incluindo instituições de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e dezenas de outros países --- apela aos decisores políticos europeus para que ajam com responsabilidade, garantindo a deteção eficaz de conteúdos abusivos e cumprindo o dever de proteger crianças, tornando a proteção infantil uma prioridade inequívoca.

Na semana passada, no dia 26 de março, a União Europeia decidiu que não seriam prolongadas as regras de deteção de abuso sexual infantil `online`, que expiram em 03 de abril, após o Parlamento Europeu ter rejeitado uma proposta da Comissão Europeia.

A decisão vem no seguimento de o Conselho da UE e o Parlamento Europeu não terem chegado a acordo sobre o mecanismo legal da União Europeia que autorizava os prestadores de serviços online a identificar e reportar material de abuso sexual infantil, no âmbito de um regime temporário, enquanto não é aprovado um quadro legislativo permanente.

Estas regras provisórias, em vigor desde 2021 e que expiram em 03 de abril, permitiam que, em casos específicos de deteção de conteúdos com abusos sexuais sobre crianças, não se aplicasse temporariamente a chamada diretiva `ePrivacy`, que regula a privacidade nas comunicações eletrónicas.

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