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MNE de Bolsonaro embaraçado por história de protecção a criminoso nazi

MNE de Bolsonaro embaraçado por história de protecção a criminoso nazi

Em 1978, Henrique Fonseca de Araújo, o então procurador-geral da República durante a ditadura militar do Brasil, pai do atual ministro Ernesto Araújo, dificultou a extradição do nazi Gustav Franz Wagner, responsável pela morte de 250 mil pessoas entre 1942 e 1943.

RTP /
Reuters

Henrique Fonseca de Araújo, escolhido para o cargo de procurador-geral por Ernesto Geisel, 29º presidente brasileiro, deu pareceres negativos à extradição de Gustav Franz Wagner, subcomandante do campo de concentração nazi de Sobibor, na Polónia.A história de um criminoso de guerra
Nascido em Viena, em 1911, Wagner ingressou no partido nazi com 20 anos e era conhecido pela sua eficácia no uso de monóxido de carbono, utilizado para assassinar judeus e outros prisioneiros nas câmaras de gás do campo de concentração da Polónia.

No final da Segunda Guerra Mundial, o ex-comandante nazi conseguiu fugir da Europa, como vários outros membros da SS. Depois de uma passagem pela Síria, chegou ao Brasil em 1952 e foi trabalhar para Atibaia, município de São Paulo.

Em 1978, numa festa no hotel de Itatiaia a festejar o aniversário de Hitler, foi descoberto por Simon Wiesenthal, sobrevivente do Holocausto que ficou conhecido pelo seu trabalho de perseguição a nazis. Wagner, com medo de ser apanhado pela Mossad, serviço secreto israelita, entregou-se à polícia brasileira.

Foram vários os países que pediram ao Brasil a extradição do ex-comandante nazi. O pai de Ernesto Araújo analisou quatro pedidos: da Polónia, onde estava sedeado o campo de concentração de Sobibor; da Áustria, país de origem de Wagner; da Alemanha, berço da ditadura nazi; e de Israel, Estado do povo judeu.

No parecer de outubro de 1978, Henrique Araújo disse que Israel “não tinha competência” para pedir a extradição de Wagner, uma vez que só foi considerado Estado depois de os crimes terem sido cometidos. Os pedidos de extradição formulados pela Polónia e pela Áustria foram igualmente recusados pelo procurador-geral Henrique Araújo.

Wagner ficou conhecido como “fera humana”, devido à sua crueldade ao executar e torturar judeus.

“Talvez fora do campo fosse civilizado, mas em Sobibor a sua ânsia de matar não conhecia limites”, contou Moshe Bahir, sobrevivente de Sobibor, no livro “The Operaton Reinhard Death Camps” (“Os Campos de Morte da Operação Reinhard”), de Yitzhak Arad.

“Vi-o a espancar dois homens até à morte porque não cumpriram as suas instruções corretamente, por não compreenderem alemão. Lembro-me, também, de um jovem de 15 anos, Abraham, que não ouviu Wagner a acordá-lo. Furioso, Gustav levantou-o da cama, começou a espancá-lo e, quando se cansou, deu-lhe um tiro na cara, em frente ao seu irmão mais novo”, afirma Bahir no livro de Yitzhak Arad.

Em 1980 Wagner foi encontrado morto com uma facada no coração, após várias tentativas de suicídio.
Proteção aos responsáveis nazis no Brasil
A autora do livro “Les Amnésiques” (“Os amnésicos”), Geraldine Schwarz, lembra que “os regimes militares na América Latina foram benevolentes com os criminosos nazis e isso não é um mistério. Numa época em que o Brasil parece ter perdido a memória, é sempre útil relembrar isto”, acrescenta.

O jornal francês Le Monde relembrou que em 2012, durante um programa de televisão, Bolsonaro admitiu que considera Hitler um grande estratega e referiu que os judeus iriam morrer de fome e de frio, de qualquer forma.

O ministro Ernesto Araújo, num artigo publicado em 2017, caracterizou a ditadura nazi como um regime de esquerda com um “sentimento nacional autêntico”, destacou ainda o jornal francês.

O MNE que proferiu estas palavras, hoje defende a mudança do local da embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém.

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