Moçambique. Mortos devido à insurgência chegam a 6.515 desde 2017
A organização ACLED estima que a província moçambicana de Cabo Delgado registou dois eventos violentos nas duas últimas semanas, um envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que provocaram 13 mortos, elevando para 6.515 os óbitos desde 2017.
De acordo com o último relatório da organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês), com dados de 09 a 22 de março, dos 2.342 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, 2.172 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM).
Estes ataques provocaram em oito anos e meio 6.515 mortos, refere-se neste novo balanço, incluindo as 13 vítimas reportadas neste período de duas semanas, pescadores visados por disparos de militares das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), conforme noticiado anteriormente pela Lusa.
"Uma patrulha da Marinha das FADM disparou contra seis barcos de pesca ao largo de Mocímboa da Praia, a 15 de março, matando pelo menos 13 pessoas. Este ataque dá continuidade a uma série de investidas das FADM contra embarcações civis nas águas costeiras de Cabo Delgado, que aumentou significativamente desde 2024", alerta o relatório.
Refere igualmente que foram visados seis barcos de pesca nesta ação e que as vítimas eram da zona de Ntende, no bairro de Nabubussi, na vila de Mocímboa da Praia, incidente que se seguiu a outro semelhante, em 06 de março, quando militares das FADM "abriram fogo contra um barco perto de Lucete, a norte de Calugo", neste caso sem vítimas.
"As FADM pretendem afirmar o controlo marítimo, mas a eficácia da sua abordagem agressiva é questionável. Seis dias depois, segundo fontes da aldeia, um grupo de militantes do EIM celebrou o Eid al-Fitr na aldeia de Ulo, mais a norte, ao longo da costa, e a apenas 12 quilómetros da vila sede de Mocímboa da Praia. É evidente que as comunidades costeiras não estão a virar as costas aos insurgentes. É improvável que as mortes contínuas no mar façam com que a opinião pública se incline a favor das FADM", alerta.
O relatório também acrescenta que "noutras partes da província, as operações contra militantes do EIM continuaram na floresta de Catupa", palco de vários combates desde o início do ano.
"Mais a sul, no distrito de Meluco, as Forças de Defesa do Ruanda (RDF) estabeleceram um novo posto avançado na N380, mesmo quando o ministro dos Negócios Estrangeiros do Ruanda levantou a possibilidade de retirada de Cabo Delgado".
A província de Cabo Delgado, rica em gás, é alvo de ataques extremistas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 05 de outubro de 2017, no distrito de Mocímboa da Praia.
O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, afirmou em 08 de dezembro, em entrevista à Lusa, não descartar uma solução pela via do diálogo para o terrorismo no norte do país, porque o que Moçambique quer "é a paz".
"Vamos continuar a trabalhar e, havendo esta linha, esta possibilidade, não há problemas nenhuns que se encontre alguma solução. O que nós queremos é a paz para o povo moçambicano", disse Chapo, no Porto, em entrevista à margem da cimeira com Portugal.
"O que nós queremos é a paz e Moçambique é uma nação com uma experiência extraordinária nesta área. Se se recordar, tivemos uma guerra [entre as forças governamentais e a guerrilha da Renamo] de desestabilização que durou cerca de 16 anos, matou mais de um milhão de pessoas, destruiu bens públicos e privados, mas acabou através do diálogo. Portanto, foi assim que houve a assinatura dos Acordos Gerais de Paz em Roma, a 04 de outubro de 1992", acrescentou.