Moçambique. Pelo menos 662 mil pessoas continuam deslocadas
Pelo menos 662 mil moçambicanos continuavam deslocados em fevereiro, essencialmente pelo conflito armado em Cabo Delgado, enquanto 722 mil regressaram às zonas de origem, segundo as Nações Unidas, que alertam para o défice de financiamento ao apoio humanitário.
De acordo com um relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), divulgado hoje, a resposta humanitária em Moçambique enfrenta um agravamento das necessidades, que aumentaram no último mês, para este ano, para 534 milhões de dólares (490 milhões de euros), enquanto apenas 145 milhões de dólares (125,7 milhões de euros) foram mobilizados até maio, 27% das necessidades.
No relatório, o OCHA sublinha que "Moçambique continua a enfrentar múltiplos desafios humanitários sobrepostos, impulsionados pelo conflito, choques climáticos e surtos de doenças".
O conflito armado na província de Cabo Delgado mantém-se como o principal fator da crise humanitária, tendo provocado novos movimentos populacionais e dificultado a estabilização das comunidades afetadas, que enfrentam recorrentemente situações de deslocações forçadas, devido aos ataques de grupos insurgentes ou por receio da sua atuação.
O mesmo relatório destaca que 97% das famílias "foram deslocadas múltiplas vezes, evidenciando a natureza prolongada da crise", o que agrava os riscos de vulnerabilidade, incluindo perda de meios de subsistência, separação familiar e acesso limitado a serviços básicos.
Além do conflito armado em Cabo Delgado, que se arrasta desde 2017, fenómenos climáticos extremos têm vindo a intensificar a pressão sobre a situação humanitária, alerta-se no documento. Acrescenta que entre janeiro e maio de 2026, cerca de 899 mil pessoas foram afetadas por cheias, que resultaram em destruição de infraestruturas, perdas agrícolas e vítimas mortais.
O relatório refere que "mais de 518 mil hectares de terra cultivada foram afetados, incluindo 312 mil hectares destruídos", com impactos significativos na segurança alimentar e nos meios de subsistência das populações.
A insegurança alimentar continua a ser uma preocupação central, com 25 distritos classificados na fase 3 (crise) do IPC - sistema internacional que classifica de 1 a 5 a gravidade da insegurança alimentar de uma população em diferentes níveis para orientar decisões humanitárias - , enquanto vastas áreas do país permanecem na fase 2 (pressão).
No documento é referido igualmente que as Nações Unidas acompanham com preocupação as previsões climáticas para o próximo período, indicando uma elevada probabilidade de ocorrência do fenómeno El Niño em 2026 -- 2027, cenário poderá "aumentar a probabilidade de chuvas acima da média no norte e centro de Moçambique, ao mesmo tempo que eleva o risco de condições mais secas no sul, agravando a vulnerabilidade das populações".
Apesar dos esforços em curso, a resposta humanitária continua limitada pela escassez de recursos. O financiamento disponível é canalizado maioritariamente através de mecanismos coletivos e organizações humanitárias, com a maior parte das intervenções implementadas por organizações não-governamentais.
O OCHA alerta que, sem um aumento substancial do financiamento, milhões de pessoas continuarão sem acesso adequado a assistência essencial, incluindo alimentação, água potável, cuidados de saúde e proteção em Moçambique.