Moção de censura do Vox a Sánchez chumbada no Congresso

Moção de censura do Vox a Sánchez chumbada no Congresso

O resultado já era esperado. A votação confirmou-o. A moção de censura apresentada pelo partido de extrema-direita Vox contra o executivo foi chumbada. Apenas os 52 deputados do Vox votaram a favor. Sem nenhuma abstenção, todos os outros votaram contra (298).

RTP /
A moção precisava de 176 votos favoráveis para ser aprovada. Em vez disso, teve apenas os 52 votos que cabem ao Vox Reuters

A moção precisava de 176 votos favoráveis para ser aprovada. Em vez disso, teve apenas os 52 votos que cabem ao Vox e ganhou o epíteto de menor apoio a uma moção da censura na história da democracia espanhola. Esta era a quinta moção de censura que o pais democrático assistiu.

Foram dois dias de intervanções duras no Parlamento, marcados por um discurso de demarcação da extrema-direita por parte do líder dos populares e, mesmo no final do debate, depois do discuso de Pablo Casado, por uma tentativa de Sánchez de aproximação e diálogo com o PP.
“Não somos como vocês”
Só esta manhã, no segundo dia da discussão da moção de censura, é que desaparecia a dúvida que ainda persistia: se o PP votava contra a moção de censura ou se abstinha.

“Faz-nos vir aqui perder tempo em plena segunda onda” da pandemia. Foi assim que Pablo Casado, o líder do PP deu início à sua intervenção. “Senhor Abascal, o que que quer não é mudar o Governo, é suplantar o PP. Abandone toda a esperança. Não é o primeiro que o tenta, mas será o último”, argumentou Casado.

O líder do PP elaborou a sua intervenção dizendo que a moção de censura serve a Sánchez para que se mantenha no poder. “Esta moção é uma mentira mais do Vox para que Sánchez continue na Moncloa”, afirmou Casado, entre argumentos duros para distanciar o PP da extrema-direita.

“Não somos como vocês. Somos a força tranquila dos espanhóis. Esta força sensata que voltará a representar este país quando os espanhóis tiverem a oportunidade de eleger o seu Governo”, disse, entre aplauso, num discurso muito forte contra Santiago Abascal, presidente do Vox.

“Não somos ruído, não alimentamos fraturas. Queremos unir os espanhóis de novo (…) queremos uma Espanha unida e diversa, senhor Abascal, senhor Sánchez”.

“Votamos não à sua candidatura para presidir ao Governo de Espanha. Votaremos não à polarização que necessita. Não a esse engenho antiespanhol. Dizemos não porque dizemos não a Sánchez e aos seus sócios: os visíveis e os que estão na sombra”, disse Casado.

Vocês deram um bonus track a este Governo para os próximos meses”, disse.

Em resposta, Santiago Abascal acusou-o de “ter tentado colocá-lo no meio daqueles que pactuam com a ETA e com os outros. É uma infâmia que me indigna politicamente. Trataremos de emendar esse erro. Os eleitores do PP podem ficar tranquilos, vamos continuar estendendo-lhes a mão, apesar de tudo”, referindo-se aos acordos de Governo em várias regiões autonómicas.

“Os andaluzes, murcianos, e madrilenos podem estar tranquilos a respeito da responsabilidade histórica do Vox”, disse.

Apesar destas palavras, soube-se depois que o Vox suspendeu a negociação dos orçamentos andaluzes, após o discurso do presidente do PP.

O PSOE aproveitou este distanciamento entre PP e Vox para reclamar que os populares rompam com o partido nos executivos autonómicos, desmarcando-se do “fascismo”.

Sánchez aproveitou o afastamento em relação à ultra-direita para lançar uma proposta ao PP. “Senhor Casado, precisamos de diálogo. Renovemos o poder judicial. Como todo o esforço é pouco, hoje dou um passo mais. Anuncio que vamos parar o relógio na reforma do conselho do judiciário”, avançou Pedro Sánchez. Interrompe a tramitação parlamentar da proposta de eleição de membros da CGPJ para que o PP se reúna para negociar a renovação do quadro de magistrados. Esta era uma iniciativa contestada pelo PP e criticada pelas instituições europeias.


Pablo Iglesias, o número dois do executivo, elogiou o discurso do presidente do PP contra a extrema direita. “Fez um discurso brilhante, mas chega tarde”.
"Negligente e criminoso"
Na véspera, Pedro Sánchez tinha pedido que Casado votasse “não”. “Convido-o a cortar com a extrema-direita. Peço formalmente que vote não nesta moção de censura, que proclame que a direita espanhola nada tem a ver com a extrema-direita”, disse Sánchez a Casado. “O resultado deve ser construtivo”, disse.

O líder do Vox tinha optado por idêntico caminho. Tinha na véspera lançado um apelo ao voto favorável à moção por parte do PP, o partido que na altura ainda não tinha definido claramente o sentido de voto antes do debate.

“Agora é tempo de pedir-vos o voto”, disse Santiago Abascal, presidente do Vox, depois de uma longa intervenção. “Está nas vossas mãos demonstrar que entre todos se deve construir uma alternativa a este desastre que temos à nossa frente”.

Estendeu o apelo à bancada socialista. “Sabia que iam rir, mas vou pedir seriamente. Tenho a certeza que partilham o diagnóstico sobre este governo que foi feito por antigos dirigentes”, disse, dizendo que essas críticas eram feitas pelos deputados em privado.

“Apresentamos esta moção porque temos uma obrigação de consciência”, disse, acusando o Governo de ter “abandonado os espanhóis”.

“Espanha resistirá, seguirá adiante, recuperará. O futuro dos nossos filhos assim o exige”, disse a fechar o discurso. “Os espanhóis querem viver unidos, em paz e liberdade. Temos de lhes devolver a união, a liberdade, a palavra e o voto. Viva o Rei e viva a Espanha”, disse.

Santiago Abascal apresentou uma Espanha em “ruína e decomposição” como argumento diante do Congresso para conseguir apoio à moção de censura.

Abascal repetiu o argumento de que o Governo foi “o pior em 80 anos de História”, “negligente e criminoso”. “Diga-me um outro país, um outro governo que tenha feito pior do que vocês, com maior confinamento ou taxas de mortalidade. Não há”, reiterou.

Entre os vários ataques, Abascal considerou Sánchez um “mentiroso sem escrúpulos”, um “incapaz” e argumentou que a salvação não virá de Bruxelas, ao mesmo tempo que lançava farpas à China e à Organização Mundial de Saúde e fazia comparações com Hitler ou a China. Referiu-se ao vírus num espelho do que são as palavras de Trump, classificando-o de “vírus chinês”.

"Não são um Governo, são uma frente popular, social comunista, aliado com separatistas e terroristas. Uma máfia", atirou.

“Algum dia, a História vai julgá-los pelo abandono dos moribundos, sem a despedida que mereciam nos últimos momentos. Sem a extrema-unção, sem a mão dos filhos”.

Abascal fez uma proposta de eleições antecipadas. “Se esta moção for aprovada, convocaríamos eleições antes que terminasse este ano trágico. É urgente que os partidos se dirijam aos cidadãos com este novo cenário. Apresento-me como candidato para devolver o voto aos espanhóis”, afirmou. “Trata-se de travar o processo de destruição de Espanha”.

“Você não manda. Apenas gere o projeto de uma máfia internacional”, disse, chamando até ao discurso as mafias em torno dos migrantes.

“Este Governo trouxe a ruína, a miséria e a pobreza”, considerou Ignacio Garriga, a quem coube a abertura do debate. “Não houve nenhuma demissão, nenhuma desculpa ao povo espanhol”, considerou. O Vox justificou a moção como “um dever nacional”, perante a “inação” do PP.

Nos discursos, no entanto, o Vox não apresentou qualquer proposta concreta em nenhuma área. Somente referências genéricas como por exemplo, “baixar todos os impostos” e “eliminar muitos” dos impostos ou eliminar o Estado autonómico para pagar pensões.

"Não são um Governo, são uma frente popular, social comunista, aliado com separatistas e terroristas. Uma máfia", atirou.
Sánchez. “Não vamos embarcar em nenhuma das suas provocações”
“Uma declaração de intenções, senhor Abascal. Por muito que provoque, não vamos embarcar em nenhuma das suas provocações”, começou por dizer o primeiro-ministro, olhando fixamente para o líder do Vox. Dizendo que a moção de censura é procedimento legítimo em democracia, Sánchez classificou esta proposta concreta como “tudo menos construtiva”.

“Não houve sequer uma proposta na sua intervenção”, reforçou. Perante os problemas reais como pobreza ou tensão territorial, “só tem um alarido e um par de insultos. Desenvolvimento, emprego, saúde, igualdade de género ou a pandemia: não tem programa”, argumentou o presidente do governo espanhol.

“Sabe que não tem a menor hipótese de ter confiança para a proposta. Pelo tom brusco e inquietante do conteúdo que expôs, não me parece que houve sequer interesse em obter confiança”. “Observamos um chorrilho de propaganda que não beneficia a nação que diz defender, e só serviu para semear a discórdia e distrair energias”.

“Querem dividir-nos, provocar-nos, enfrentar-nos. Essa é a razão da moção”, disse.

Acusou Abascal de “se aproveitar das regras da democracia”. “Crê que pode usar o parlamento como um grande palco para brilhar. Nesta Câmara está representada Espanha real, como é, não como você gostaria que fosse”.

Sánchez enumerou os desafios colocados a Espanha com a pandemia, considerando que o dever é “continuar com uma política económica expansionista e solidária”. “Não vejo que a Europa seja semelhante à China ou a Hitler como disse na sua intervenção”, lançou Sánchez a Abascal.

“Creio que ficou claro que não conta com nenhum apoio, porque não conta com nenhum projeto para este país”, concluiu Sánchez esta quinta-feira. Sánchez considerou que Abascal não apresentou uma única proposta sobre este tema. “Nenhuma ideia como reforçar o sistema sanitário nem como combater o vírus”, acusou.

Não é o salvador de Espanha, felizmente para a Espanha. O país já tem milhões de salvadores nas escolas, nos supermercados, nas fábricas. Você está só. Sobra-lhe orgulho e falta-lhe modéstia”.

“Esta moção foi a iniciativa menos construtiva que poderíamos imaginar”, acrescentou.

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