Morreu Antonio Tejero, protagonista do golpe falhado em Espanha em 1981

Morreu Antonio Tejero, protagonista do golpe falhado em Espanha em 1981

O antigo guarda civil Antonio Tejero, que em 1981 sequestrou durante 17 horas o Governo e os deputados espanhóis dentro do parlamento, numa tentativa falhada de golpe de Estado, morreu hoje, aos 93 anos.

Lusa /

A morte do ex-tenente-coronel Antonio Tejero Molina da Guardia Civil (correspondente à GNR portuguesa) foi confirmada a meios de comunicação social espanhóis pelo advogado da família, Luis Felipe Utrera Molina.

Antonio Tejero protagonizou em 23 de fevereiro de 1981 uma tentativa de golpe de Estado filmada pelas câmaras da televisão pública espanhola (RTVE) instaladas dentro da sala do plenário do parlamento de Espanha.

A imagem do então guarda civil a entrar nesse dia no Congresso dos Deputados (câmara baixa do parlamento/Cortes) de pistola em punho ficou na história de Espanha e o 23-F (como é conhecida a tentativa falhada de golpe de Estado de 1981) é um dos episódios considerados mais marcantes e determinantes da designada "transição espanhola" da ditadura franquista (liderada pelo general Francisco Franco, que morreu em 1975) para a democracia.

Após a tentativa de golpe, Tejero foi julgado e condenado por rebelião militar, a par de dois antigos generais Alfonso Armada e Jaime Milans del Bosch.

Tejero foi condenado a 30 anos de prisão e saiu da cadeia, com liberdade condicional, em 1996, após ter cumprido metade da pena.

Surgiu pela última vez em público em 2019, no dia em que o corpo de Franco foi retirado da basílica do Vale dos Caídos (local nos arredores de Madrid que é um dos maiores símbolos da ditadura espanhola) e levado para um cemitério na localidade de El Pardo.

Tejero juntou-se nesse dia aos saudosistas da ditadura em protesto contra a retirada do corpo de Franco do Vale dos Caídos junto à entrada do cemitério.

Em 23 de fevereiro de 1981, Tejero, que chefiava cerca de 200 guardas civis que o acompanhavam, interrompeu a sessão parlamentar durante a qual devia ter sido investido Leopoldo Calvo-Sotelo como novo líder do Governo de Espanha, na sequência da demissão do então primeiro-ministro Adoldo Suárez.

Para a história ficaram, entre outros momentos, o grito "Todos quietos!", que Antonio Tejero lançou ao subir à tribuna do parlamento depois de afastar o ministro da Defesa e superior hierárquico general Manuel Gutierrez Mellado, que o enfrentou e tentou travar.

Seguiram-se 17 horas de sequestro dentro do parlamento dos 350 deputados e de todos os membros do Governo, assim como de funcionários e jornalistas, entre ouras pessoas, até à rendição de Tejero e dos seus homens, por volta do meio-dia de 24 de fevereiro.

Nessas horas, os guardas civis chegaram a disparar tiros para o teto e a pedir a todos os presentes que se deitassem no chão, ordem que três homens não acataram: Adolfo Suárez, Gutierrez Mellado e o então líder do Partido Comunista espanhol, Santiago Carrillo, que se mantiveram sentados nos respetivos lugares no plenário, sendo esta outra das imagens daquele dia que ficaram na história recente de Espanha.

Para o falhanço do golpe e a rendição de Antonio Tejero foi considerado determinante o curto discurso que o então Rei de Espanha Juan Carlos I fez pela televisão durante a madrugada, em que defendeu a ordem constitucional e a democracia.

O 23-F transformou Juan Carlos I num dos heróis da transição espanhola e garante da democracia em Espanha, embora em anos recentes tenha sido questionado o verdadeiro papel neste episódio por diversos protagonistas, incluindo o próprio Tejero, que disse que foi usado por Alfonso Armada, antigo tutor do Rei e chefe da Casa Real.

Alfonso Armada pretendia chefiar um governo de unidade que saísse do golpe de Estado, algo que, na versão de Tejero, o general tinha dito estar acordado com Juan Carlos I.

Juan Carlos I, que abdicou em 2014, deu pela primeira vez publicamente a própria versão do 23-F no livro de memórias que publicou no ano passado, onde garante ter sido traído por Alfonso Armada.

"Alfonso Armada esteve ao meu lado 17 anos. Gostava muito dele e traiu-me. Convenceu os generais de que estava a falar em meu nome", relatou.

O que a justiça espanhola deu como provado é que o golpe tinha sido orquestrado pelos dois generais e por Tejero, com Alfonso Armada a negar sempre ter sido o cérebro da operação.

"A Coroa, símbolo da permanência e da unidade da pátria, não pode tolerar de forma alguma ações ou atitudes de pessoas que procuram interromper à força o processo democrático", afirmou Juan Carlos na mensagem transmitida pela televisão, na altura.

A partir desse momento, tornou-se claro que o golpe seria um fracasso e os golpistas renderam-se horas mais tarde.

Antes do 23-F, Antonio Tejero tinha já sido condenado pela participação em 1978 na "Operação Galáxia", uma conspiração que pretendia também levar a cabo um golpe de Estado com um assalto ao Palácio da Moncloa, a sede do Governo espanhol.

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