MSF alertam que acesso à saúde continua severamente limitado
Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertaram hoje para graves limitações no acesso à saúde na província moçambicana de Cabo Delgado, agravada pelos ataques armados que afetaram milhares de famílias em maio, apelando o reforço do abastecimento de medicamentos.
Num comunicado enviado hoje à Lusa, aquela organização não-governamental (ONG) refere que, em maio, o distrito de Ancuabe, em Cabo Delgado, foi repetidamente atingido por ataques armados conduzidos pelo Estado Islâmico de Moçambique (ISM) que "forçaram milhares de pessoas a fugir das suas casas", com o medo generalizado de nova violência.
"Mais de 5.000 pessoas procuraram segurança em locais de reassentamento já existentes e em comunidades de acolhimento [na localidade de] Nanjua", descrevem os MFS no documento, acrescentando ter lançado em resposta à crise uma intervenção de emergência, prestando cuidados de saúde primários através de clínicas móveis, apoio em saúde mental, bem como serviços de água e saneamento.
Face à insegurança, em Cabo Delgado, rica em gás, e alvo de ataques extremistas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 05 de outubro de 2017, a ONG alerta que o acesso aos cuidados de saúde continua a ser "severamente limitado" naquela região.
A ONG descreve que em Nanjua, residentes e pessoas deslocadas percorrem cerca de quatro quilómetros para chegar à unidade sanitária mais próxima, "onde são obrigados a pagar para os tratamentos, embora faltem frequentemente medicamentos essenciais".
"A distância, a insegurança e a indisponibilidade dos tratamentos prescritos continuam a atrasar a procura de cuidados e a alimentar frustração e desconfiança nas comunidades. Muitas vezes, estes problemas só recebem maior atenção durante as emergências", acrescenta-se.
Em apenas algumas semanas, os MFS avançam ter realizado mais de 1.500 consultas naquela aldeia de Ancuabe, tratando em média mais de 150 pacientes por dia: "As condições mais comuns foram infeções das vias respiratórias superiores, doenças de pele e malária -- prevalente em crianças com menos de cinco anos"
"Aalém dos cuidados médicos, as equipas da MSF observaram uma necessidade crescente de cuidados de saúde mental. Muitas pessoas relataram perturbações de sono, sintomas relacionados com o stresse, dores no corpo e palpitações, frequentemente associados à incerteza quanto ao futuro, a deslocações repetidas, condições de vida difíceis, falta de bens essenciais e preocupações com a segurança e o bem-estar dos seus filhos", refere-se no documento.
Os MFS descrevem ainda que as famílias recentemente deslocadas carecem agora de abrigo e alimentos, tendo fugido com "pouco ou nada" para áreas que já enfrentavam dificuldades para satisfazer necessidades básicas, pedindo o "reforço urgente da cadeia de abastecimento de medicamentos nas unidades de saúde e ao acesso gratuito aos cuidados de saúde, particularmente em contextos de emergência".
"Ao mesmo tempo, os MSF instam a uma resposta humanitária coordenada e sustentada para responder às necessidades de saúde, proteção e apoio psicossocial das comunidades afetadas", explica-se.
Apesar das necessidades observadas, a ONG afirma estar a reduzir gradualmente o apoio, considerando atendidas as necessidades de emergência, avançando que vai doar medicamentos ao centro de saúde local para manter serviços gratuitos a residentes e deslocados.
Elementos associados ao grupo extremista Estado Islâmico reivindicaram, em 07 de maio, ataques em Cabo Delgado, incluindo a destruição de uma igreja, lojas de "cristãos" e de mais de 200 casas, no distrito de Ancuabe.
A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês), registou oito eventos violentos nas duas últimas semanas de maio, seis envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que provocaram oito mortos, elevando para 6.624 os óbitos desde 2017.