MSF denuncia detenção de funcionária afegã por incumprir regras de traje feminino

MSF denuncia detenção de funcionária afegã por incumprir regras de traje feminino

A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) denunciou hoje a detenção de uma funcionária afegã, pela polícia da moralidade do Governo talibã em Herat (oeste do Afeganistão), acusada de "desrespeitar o código de vestuário imposto às mulheres".

Lusa /
Foto: Facebook @MedicosSemFronteiras

"No dia 06 de junho, uma profissional de saúde foi detida por representantes do Ministério da Propagação da Virtude e da Prevenção do Vício (PVPV) quando se dirigia para o hospital público de Herat, onde trabalha na ala pediátrica apoiada pela MSF", afirmou a ONG em comunicado.

Acusada de "desrespeitar o código de vestuário imposto às mulheres", foi detida durante dois dias e finalmente libertada a 08 de junho, depois de ter de assinar, tal como o marido e outros familiares, um termo de compromisso de usar no futuro o tipo de roupa imposto pelas autoridades, afirmou a MSF.

Este incidente "não é isolado", denunciou a ONG, que presta serviços médicos em sete províncias do Afeganistão.

A situação mantém-se tensa há vários dias na cidade do oeste do Afeganistão, onde na terça-feira um rapaz foi morto a tiro durante uma manifestação que juntou dezenas de homens a protestar contra a detenção de mulheres por não usarem o chador ou a burka, peças de vestuário que cobrem todo o corpo, segundo a ONU.

No Afeganistão, as mulheres devem estar quase totalmente cobertas quando saem de casa.

Estão ainda proibidas de exercer determinadas profissões e de prosseguir os seus estudos para além do ensino primário.

Restrições adicionais, como a obrigação de usar a burka, denunciou a MSF, "limitam o acesso à saúde e a capacidade das mulheres de cuidar dos outros".

Em Genebra, dez peritos designados pelo Conselho dos Direitos Humanos da ONU consideraram estas detenções em Herat "extremamente preocupantes", referindo que envolvem dezenas de mulheres e podem constituir casos de detenção "arbitrária e ilegal".

"Enquanto autoridade de facto no Afeganistão, os talibãs devem respeitar os tratados internacionais de direitos humanos de que o Afeganistão é signatário, incluindo a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres", instaram os peritos num comunicado, condenando a violência contra os manifestantes e exigindo a libertação de todas as mulheres detidas por estes motivos.

Instado pela AFP, o Ministério da Segurança Pública e População (PSPP), responsável pelo destacamento de agentes da autoridade, não comentou a detenção de mulheres em Herat por violarem o código de vestuário.

Mas o departamento do ministério para Herat anunciou que novas regras "foram implementadas recentemente" e alertou que o incumprimento pode resultar em "detenção e prisão".

Entre estas novas medidas está a proibição de as mulheres e raparigas mostrarem os pés descalços ou usarem maquilhagem em público.

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